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maio12

[OFF] Concurso Gata do Paulistão não teve nenhuma concorrente negra ou mulata

No ano passado falei do Miss Brasil 2011, no qual não houve nenhuma finalista negra ou mulata apesar do Brasil ter uma das maiores populações negro-mulatas do mundo. Esse cenário de padrão racista de beleza se repetiu no concurso Gata do Paulistão 2012. Todas as finalistas eram brancas, metade delas eram loiras – algo mais que desproporcional à população feminina brasileira ou paulista -, apenas uma possuía algumas feições de ancestralidade indígena e de novo não houve nenhuma negra ou mulata no páreo.

Percebe-se novamente, em tal cenário de exclusão racial espontânea – em que a exclusão das negras não se deu por regra, mas sim pela preferência da audiência ou dos selecionadores -, que o padrão de beleza predominante no Brasil é sim racista e eurocêntrico – à exceção da preferência pela voluptuosidade corporal combinada com abdome fino, que difere da magreza do padrão europeu.

De fato, na maioria das ocasiões, ao ser colocada uma negra, ainda mais com feições africanas, do lado de uma branca, a segunda será preferida pelos homens. Isso porque há no Brasil toda uma história de discriminação racial que inclui o desenho cultural do padrão de beleza feminina, em que a pele branca sempre foi considerada uma característica positiva de beleza enquanto a pele negra acabava sendo vista como um ponto negativo – em outras palavras, uma mulher negra muitas vezes, na maioria talvez, é considerada “negra mas bonita”, e não “negra e bonita” ou tampouco “negra, logo bonita”.

O mesmo se aplica a diversas outras características fenotípicas das africanas herdadas pelas afrobrasileiras, em especial o cabelo crespo, cacheado ou disposto em dreadlocks; o nariz arredondado e os lábios largos. Prefere-se, ao invés, os narizes afilados, os cabelos lisos ou ondulados e os lábios tendentes a finos – embora haja para alguns um fetiche por beijar lábios carnudos.

Creio que essa situação de exclusão racista da estética negra do padrão de beleza predominante no Brasil só vai se reverter com iniciativas privadas de divulgação da beleza negro-mulata, do que as mulheres negras e mulatas têm de esteticamente atraente – ainda que atratividade estética seja algo extremamente subjetivo -, e acostumando-se as novas gerações a apreciar tanto a beleza negro-mulata como a branca.

Mas, enquanto isso não acontece em larga escala, as negras continuarão lamentando sua exclusão dos concursos de beleza brasileiros. E acreditando, com razão, que a angolana Leila Lopes muito dificilmente teria sido eleita Miss Brasil se tivesse nascido ou sido naturalizada aqui.

imagrs

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Jordania

agosto 25 2012 Responder

Muito bom seu texto, realmente pra esses concuros somente brancas são bonitas, quer saber? Nem ligo, simplesmente ignoro, nunca dei atenção a essas coisas e vendo como são carregados de preconceitos aí é que não dou importância mesmo. Mas pensado bem, acho que é importante analisarmos e debatermos sobre isso para que possamos combater tanta discriminação…

Fernanda

maio 5 2012 Responder

Off topic: Dei uma olhada na página do facebook da ATEA e fiquei bem decepcionada. Cheia de pensamentos diminuindo as religiões, nós ateus deveríamos respeitar outras crenças (já que sabemos o que é ser discriminado pela nossa) mas não, lá só se espalha mais preconceito! Rola (mais) um post sobre isso? :)

    Robson Fernando de Souza

    maio 5 2012 Responder

    Eu percebi isso diversas vezes ao longo da timeline da organização.

    Espero poder em breve fazer um post sobre isso, sistematizando esse tipo de erro.

Herberth Amaral

maio 4 2012 Responder

Eu também já percebi este tipo de coisa. Coisa que não me é óbvia ainda é como que este tipo de preconceito pode ser combatido, já que é difícil até para o preconceituoso perceber (digo perceber, não aceitar) que está sendo preconceituoso com uma coisa que diz respeito à apenas gosto pessoal.

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