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Resposta analítica ao artigo “Give thanks for meat”, vencedor do concurso do The New York Times

Li e traduzi o artigo “Dê graças pela carne” (originalmente Give thanks for meat), vencedor do concurso da coluna The Ethicist do The New York Times o qual escolheu um artigo que tentasse ser bom em defender o consumo de animais. Eu esperava que enfim encontrasse um argumento forte do lado defensor do consumo de alimentos de origem animal. Mas ainda não foi dessa vez.

O texto se focou demais no aspecto ambiental, com a premissa de que uma criação de animais ecologicamente “adequada” seria mais ética do que uma monocultura mecanizada de soja. O referencial teórico que legitimaria esse ponto de vista ficou curto, raso e simplista demais, restringindo-se à seguinte frase de Aldo Leopold: “Uma coisa é certa quando ela tende a preservar a integridade, estabilidade e beleza da comunidade biótica. É errada quando promove o contrário.”

Na verdade toda a abordagem, mesmo do ponto de vista supostamente ecoético, foi de um simplismo e reducionismo notáveis. Ele fala apenas de criações bovinas bem-estaristas, ignorando que o universo de carnes à disposição no mercado não é apenas carne bovina – também existindo no macabro jogo porcos, caprinos, ovinos, coelhos, frangos, codornas, perus, búfalos, peixes, crustáceos etc. –, e a problemática ambiental da pecuária vai muito além de “apenas” tentar acomodar centenas de milhões (ou mesmo bilhões) de seres bovinos em pastos – algo que já é virtualmente impossível na maioria dos países.

Ele esquece também de dizer como seria viável essa criação bovina bem-estarista de modo a atender uma demanda gigantesca de carne como a atual. E não fala como seriam detidos nesse modelo de pecuária já conhecidos riscos do sobrepastoreio, do pisoteio do solo e da grama nem como seria detido o enorme peso da atividade na emissão de gases-estufa, uma vez que os animais continuariam emitindo metano pelos arrotos, flatulências e emanações gasosas fecais.

Nem como os exorbitantes gastos d’água da criação animal seriam diminuídos. Nem como o rendimento da carne em quilos/hectare/ano se tornaria próximo ao de vegetais, propondo, ao invés, um modelo pecuário de rendimento alimentício ainda mais minúsculo do que os modelos convencionais.

Sem falar que ele tanto ignora a existência dos meios alternativos, policultores e não latifundiários de produção vegetal – que, no caso do Brasil, respondem por 70% de todo o alimento consumido pelos brasileiros – como esquece que a própria carne produzida pelo meio defendido por ele também vai precisar de processamento e transporte.

Enfim, é um meio muito questionável, mesmo ambientalmente falando, de criação “ética” de animais. E, falando agora na questão ética propriamente dita, pode-se perceber que o artigo vencedor do concurso não responde à demanda dos defensores dos animais de saber por que seria ético tratar animais como propriedade, escravizando-os e matando-os para fins de consumo.

Pelo contrário, tergiversa com o seguinte parágrafo, confuso e no mínimo enigmático:

“A questão de matar um ser senciente, no entanto, decai. A um ponto em que cada ser humano, individualmente falando, deve reagir perguntando: Será que estou mesmo querendo dividir o mundo entre aquilo que eu acreditei que é digno de ser poupado do inevitável e aquilo que não é digno disso? Ou essa é uma divisão desesperançosamente artificial?”

Não está nada claro sobre a quem ele se referiu ao citar “aquilo que eu acreditei que é digno de ser poupado e aquilo que não é digno disso”. E achar que isso leva à conclusão de que é eticamente aceitável escravizar e matar seres sencientes é cair na falácia non sequitur.

E no final das contas, fica em aberto uma pergunta: se ele acredita ser “ético” criar animais da forma que ele falou, o que ele acharia se fosse uma criação pecuária de cães ou mesmo, literalmente falando, de gado humano? Como ele objetaria se pusessem um ser humano, ou um animal doméstico, no lugar da vaca, mantendo-se a tal função ecológica de gerar calorias e proteína através da luz solar e do consumo de plantas forrageiras?

Bem que o The New York Times tentou, mas ainda não foi dessa vez que um argumento realmente forte em favor do consumo de animais apareceu. Pelo visto, tal realização jamais acontecerá, da mesma forma que nunca veio à existência uma razão ética que justificasse a escravidão humana e a hierarquização moral de seres humanos.

imagrs

4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Vanessa

maio 13 2012 Responder

Como defender algo indefensável…? Não tem como mesmo. Boa resposta!

Raphael almeida

maio 12 2012 Responder

Pow Robson realmente desconstruisse o cara. parabéns!!!1

    Robson Fernando de Souza

    maio 12 2012 Responder

    hehehe Valeu ae =)

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