20

jun12

A violência simbólica na linguagem especista

Atualizado em 21/06/2012

A relação entre o ser humano e os animais não humanos, incluídos os domésticos, é repleta de violência não só física e psicológica, mas também simbólica, linguística. Essa violência não é “apenas” aquele sistema baseado em objetificação da vida senciente, privação de direitos, escravidão, matança sistemática que oprime na pecuária, na pesca, na vivissecção, nos entretenimentos pseudoesportivos etc. Ela também pode vir em nossas falas mais inocentes. Mesmo o que falamos e escrevemos se torna, por intermédio da violência simbólica, mais um elemento desse sistema de dominação.

 

Definindo violência simbólica

Antes de se saber onde há violência simbólica na nossa relação com os demais animais, vale relembrar o conceito desse fenômeno. O termo foi cunhado por Pierre Bourdieu e definido, por palavras livres, como a imposição, sutil ou coercitiva, da ordem de dominação, por meios diversos, de modo tanto a naturalizar nos dominados a percepção de que aquela ordem em que são oprimidos é “natural” e “certa” como a instruir os pertencentes à categoria dominante a exercerem papéis sociais que remetam à dominação.

E o meio mais perceptível de exercício desse tipo de violência é a linguagem, nossa fala e escrita de todos os dias. É por ela que nos acostumamos, no caso dos animais, a vê-los como coisas sob propriedade humana que podem ser barganhadas como mercadorias, possuídas como objetos sejam utilitários ou decorativos e descartadas como rejeito. Ou como seres inferiores, repudiáveis e desqualificados em comparação com os humanos.

 

Exemplos de linguagem simbolicamente violenta

A violência simbólica se faz presente na linguagem quando falamos de animais não humanos ou sobre como nos relacionamos com eles. E isso se percebe nas seguintes palavras:

a) “Dono”/”proprietário”. Ex.: “Dona do cachorro”, “Esse bichinho não tem dono não?”, “O proprietário do gato não foi encontrado.” O uso desses termos rebaixa o animal a um objeto e/ou escravo sob propriedade de alguém, uma vez que o dono/proprietário é aquele que possui, tem propriedade e poder total – inclusive de descarte ou destruição por algum motivo – sobre algo, geralmente um objeto, e os únicos seres humanos que se dizia terem proprietários – ainda que antieticamente – eram escravos.

b) “Posse”. Ex.: “Posse responsável”, “Os divorciados brigam pela posse do cão.” Transmite a ideia de que a relação entre as pessoas e os animais domésticos é de propriedade, de poder total sobre um objeto, e não de tutela e adoção.

c) “Possuir”. Ex.: “Eu possuo dois cães e três gatinhos.” As palavras dono, posse e possuir possuem no inglês o mesmo radical: own (respectivamente owner, ownership e [to] own), que remete a ter posse ou propriedade sobre algo. Tais palavras tornam os animais meros objetos ou escravos sobre os quais os “proprietários” possuem poder total.

d) “Adquirir”/”obter”. Ex.: “É possível adquirir os animais na feira de filhotes.”, “Ele obteve o gato na feira de adoção.” Realçam a ideia de que um animal não humano, tal como um objeto dotado de valor comercial, pode ser tomado para si pela pessoa mediante comércio ou outra forma de barganha. São palavras especistas quando nos damos conta de que não usamos frases como “Eu adquiri meu filho num orfanato” ou “Eu obtive minha namorada num encontro na praia”.

e) “Animal de <alguma função>”. Ex.: “Animal de estimação”, “Animais de companhia”, “Animais de produção”, “Ratos de laboratório”, “Touro de rodeio”, “Cão de guarda”. Expressões desse tipo reforçam no senso comum a ideia de que cada animal não silvestre tem uma função, uma utilidade, existe para “servir” para algo. Nunca se faz o mesmo para seres humanos, como, por exemplo, “pessoa de indústria”, “ser humano de agricultura”, “pessoa de segurança pública”, “criança de companhia”. Mesmo um cão ou gato, que se supõe no contraditório senso comum não serem animais “utilitários”, acabam se tornando, com o uso dessas expressões, dotados de uma “utilidade” servil – a de prover companhia e estima afetiva.

Além disso, o uso da expressão “animal de estimação” acaba por comparar um animal não humano a um objeto a que uma pessoa dedica predileção ou estima, visto que apenas objetos e animais não humanos são considerados hoje seres “de estimação” e não se fala que aquele indivíduo é uma pessoa “de estimação” – por exemplo, “meu filho de estimação”, “seu namorado de estimação”, “a prima de estimação dela”.

f) “Animal” enquanto expressão pejorativa. Ex.: “O assassino do cachorro, não o cachorro em si, era o verdadeiro animal.”, “O que foi que esses animais fizeram?”, “Seu animal!”, “Entre o touro que sofre na arena e o peão que o tortura, quem é o verdadeiro animal?” Rebaixa o atributo de animal a algo depreciativo, nutrindo a mentalidade de que ser um animal é ser um indivíduo bruto, violento, insensível e também desprezível, inferior e digno de punições violentas ou restringentes de direitos.

Torna o ser humano um “não animal”, um ser que se torna “superior” aos demais animais quando não tem comportamentos deletérios a outrem. E da mesma forma inferioriza os não humanos, tanto por considerar a animalidade algo ruim como por lhes imputar defeitos de caráter estereotípicos que só seriam possíveis em agentes morais (humanos) de conduta ética desviada.

g) O uso de nomes de espécies animais conhecidas como ofensas. Ex.: “Cachorro” para homens sem caráter, “víbora” para mulheres idem, “porco” para pessoas anti-higiênicas, “veado/gazela” como forma de depreciar homens gays em função de sua orientação sexual, “vaca/galinha/piranha/cachorra/etc.” para desqualificar mulheres sexualmente muito ativas.

Essa forma de violência simbólica tem duas implicações prejudiciais. Primeiro, imputa a certos animais desqualidades tipicamente humanas – logo, inexistentes em suas espécies –, transformando certos animais em símbolos de maus comportamentos ou de mau caráter, e rebaixa à qualidade de ofensa alguém ser comparado a certo animal não humano, tornando ofensiva a equiparação imaginária entre pessoas e outros animais. Segundo, reforça com o preconceito especista outros preconceitos que são dirigidos a seres humanos, em especial o machismo e a homofobia.

A “ofensa animal” mais polêmica na língua portuguesa é “burro”, palavra usada para definir, de forma não agressiva, pessoas flagradas em momentos de estupidez, ignorância ou pouca inteligência. Atualmente não há uma palavra que possa substituí-la em todos os seus usos com a mesma suavidade. E afirma-se no senso comum que não se pensa mais no burro, o animal quadrúpede, quando se adjetiva alguém com esse nome.

h) “Animal de rua”. Ex.: “Temos que resolver o problema dos animais de rua.” Cães e gatos não têm a rua como habitat natural. Estão ali porque foram abandonados ou são descendentes de animais abandonados. A expressão acaba naturalizando sua situação de abandono e passa a ideia de que as ruas se tornaram seu habitat natural e assim os humanos não teriam qualquer dever para com eles. Além disso, não chamamos mendigos e menores abandonados de “pessoas de rua”.

i) “Animais vadios”. Ex.: “Odeio cães e gatos vadios.”, “Como vamos resolver o problema dos cães vadios por aqui?” A palavra “vadio” é definida pelo Dicionário Aurélio como “Que não tem ocupação, ou que não faz nada; ocioso, desocupado, tunante, vagabundo”, características impossíveis de serem aplicadas a animais não humanos. Diferentes de pessoas, cães e gatos não podem (nem devem) ser ocupados em trabalhos, tampouco podem negligenciar o trabalho para serem considerados “vadios”. Essa palavra, além do mais, acaba, ainda que sem intenção, tanto tornando a vida de cães e gatos no lar como um “trabalho” (a “função” de prover afeto e companhia), reforçando a utilitariedade dos animais “de companhia” – visto que cães e gatos com tutores não são considerados “vadios” pelo senso comum -, como culpabilizando os animais por sua situação de abandono e negativando a imagem arquetípica do animal abandonado.

j) Expressões que remetem a animais sendo agredidos. Ex.: “Apanhou feito burro na horta”, “Ele apanha mais do que cachorro de rua.”, “Foi expulsa dali como um cão sarnento.” Naturaliza-se com essas figuras de linguagem a violência contra animais, trata como se fosse normal o fato de animais abandonados (ou burros em hortas) serem violentados. A expressão “como um cão sarnento”, além disso, suaviza e acoberta o fato de a sarna ser uma doença, não uma característica física, e ser tão disseminada entre animais muitas vezes por causa da negligência humana.

 

Como tratar a violência simbólica da linguagem especista

A tomada de consciência sobre a existência de violência simbólica onde ela não era percebida e a consequente correção da mesma não irão, isoladamente, resolver as demais formas de violência advindas de estruturas de dominação. Mas poderão ajudar bastante as pessoas a se conscientizarem sobre a existência e funcionamento dessas estruturas e, assim, a fazê-las derrubá-las e mudar a realidade para algo mais igualitário, além de libertá-las da cumplicidade não intencional com os sistemas de dominação.

Isso pode começar pela substituição das palavras simbolicamente violentas em seus contextos especistas e pelo posterior autopoliciamento do seu não uso. São sugeridas aqui as seguintes substituições:

a) Dono(a)/proprietário(a) (de animais) => Tutor(a); adotante; pai/mãe adotivo(a)
b) Dono(a)/proprietário(a) de cães => Tutor(a) de cães; pai/mãe de cachorro
c) Dono(a)/proprietário(a) de gatos => Tutor(a) de gatos; pai/mãe de gato
d) Posse (de animais) => Tutela; guarda
e) Posse responsável => Guarda responsável; tutela responsável
f) Possuir (um ou mais animais) => Tutelar; ter; ser tutor de
g) Adquirir/obter (animais) => Adotar; comprar (antiético)
h) Animal de estimação => Animal doméstico
i) Animais de <alguma função> => Erradicar seu uso
j) “Ofensas animais” => Erradicar seu uso, exceto talvez “burro”
k) Animal de rua => Animal abandonado
l) Animal vadio => Animal abandonado
m) Expressões figurando animais agredidos => Erradicar seu uso

Quando nos percebermos livres do patrocínio involuntário dessa violência simbólica, passamos a nos ver como mais conscientes (do que já éramos) da realidade de opressão dos animais não humanos pelos humanos. Recusamos o papel de dominadores e transmissores do paradigma da dominação. E, com essa recusa, podemos nos munir da determinação de combater este paradigma e transformar a realidade de desigualdade numa de igualdade moral e de direitos.

imagrs

7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

stela

outubro 6 2015 Responder

Achei ootimo o texto pois sou vegana e preciso desconstruir muitos comportamentos e formas de me expressar. Textos comoo este ajudam na reflexao e ainda apresentam sugestoes.

Danilo

agosto 5 2012 Responder

Mude as pessoas e a linguagem mudará automaticamente. Não critico o seu artigo, mas eu duvido da eficácia de uma mudança na linguagem para a tratamento ético dos animais. Os políticos não usam uma linguagem muito polida e cometem crimes terríveis contra a nação?

    Robson Fernando de Souza

    agosto 5 2012 Responder

    Concordo contigo em parte, mas tem o problema de essa linguagem especista ser usada por muitas pessoas que defendem os animais.

Albuquerque

julho 16 2012 Responder

Na verdade existe sim, desprovido de inteligencia, se aplica bem ao termo ignorante pode ser ofensivo mas na verdade é quase a mesma coisa, leigo, ou alguns que me falham a memoria acho que não é uma excessão o “burro”.

Sandro

julho 6 2012 Responder

eu corrigiria animal doméstico para animal domesticado, pois eles não são domésticos, como uma categoria naturalizada. Eles sofreram a ação de domesticação. E não entendi a exceção para “burros”!

    Robson Fernando de Souza

    julho 6 2012 Responder

    Talvez “animal doméstico” seja porque esses animais já herdaram o comportamento de dependência do ser humano e não podem mais ser desdomesticados.

    Pus exceção em “burro” porque não tem palavra no português pra substituí-la em todos os seus sentidos e no mesmo tom de linguagem (p.ex., chamar de “estúpido” ou “ignorante” é bem mais grosseiro do que chamar de “burro”), além de que hoje praticamente não se associa mais o adjetivo “burro” ao animal burro (antigamente é que se usavam as “orelhas de burro” pra punir os alunos “ruins” em escolas).

Juliano F.

junho 20 2012 Responder

Excelente artigo, terminos abusivos que estao encrustados em nossos conceitos e nem nos damos conta.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo