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jun12

O “diálogo” que ofende e impõe: resposta ao artigo “Diálogo com os ateus”

Recentemente o escritor Luís Eugênio Sanábio e Souza escreveu, para a Tribuna de Minas, um artigo intitulado “Diálogo com os ateus”. Parecia pelo título que ele tentaria estabelecer um diálogo de verdade, apontando convergências entre cristãos e ateus, pregando o respeito mútuo entre ambos – o que poderia incluir também o abandono dos ataques mútuos em prol de um debate respeitoso sobre os fundamentos do cristianismo e do ateísmo. Mas, ao lermos o texto, vemos o contrário.

Percebemos que ele não prega exatamente o respeito mútuo às (des)crenças e aos (des)crentes, pois desfere ataques descabidos e preconceituosos ao ateísmo desde o primeiro parágrafo, recorre ao credocentrismo – no qual nada faria sentido fora da cristandade –, usa o papa João XXIII para atacar os próprios ateus e no final ainda tenta convertê-los ao catolicismo ao lhes recomendar “considerar o Evangelho de Cristo”.

Abaixo está comentado cada parágrafo do texto em questão.

Cedo percebi que o desejo de Deus está inscrito no coração do homem e cedo aprendi que “a razão mais sublime da dignidade humana está na vocação do homem à união com Deus” (Concílio Vaticano II). Contudo, sabemos que muitas pessoas não percebem de modo algum essa união íntima e vital com Deus, ou explicitamente a rejeitam, a ponto de o ateísmo figurar entre os mais graves problemas de nosso tempo.

Esse trecho expressa a dificuldade que o autor tem de enxergar uma lógica fora do cristianismo – e respeitá-la. Para ele, o ateísmo seria uma mera rejeição ou impercepção do Deus cristão, “logo” um “problema gravíssimo”. Pergunto a ele se o candomblé, o hinduísmo, o xintoísmo, o budismo, a wicca, o taoísmo, a religião Asatrú etc., por naturalmente “negarem” ou ignorarem as crenças inerentes ao cristianismo, incluído nelas o próprio Deus, também são “graves problemas de nosso tempo”. É de se perguntar também o que ele acharia se um ateu começasse um texto chamado “Diálogo com os cristãos” dando ao cristianismo, logo de cara, tal atributo negativo e incriminador.

O ateísmo aparece como consequência do materialismo, da ignorância religiosa, do mau exemplo dos próprios crentes, da revolta contra o mal no mundo, e, enfim, dessa atitude do homem pecador que, por medo, se esconde diante de Deus e foge diante de seu chamado.

Essa parte é uma meia verdade no que concerne ao que levara alguns ateus (não todos) a terem abandonado o cristianismo e a crença na sua divindade, como o mau exemplo de religiosos – entre os quais o próprio autor se encontra, por ser tão preconceituoso para com o ateísmo e os próprios ateus – e o questionamento sobre por que Deus nada faz para deter a prevalência do mal sobre o bem em tantas situações ao redor do globo.

Mas em seguida volta ao vício do credocentrismo católico, à inabilidade de aceitar a existência de cosmovisões diferentes daquela de sua religião, ao manifestar a crença preconceituosa de que o ateísmo seria resultante da atitude de se fugir e se esconder do Deus dele – e ainda rotular os ateus, ou os “fugitivos” da divindade, de “pecadores”, mesmo com o conceito de pecado não tendo qualquer sentido no ateísmo.

Entretanto, não devemos confundir o ateísmo com o ateu. O ateu tem dignidade de pessoa e, enquanto tal, sempre merece estima. Ademais, nunca se extingue no ser humano a capacidade natural de abandonar o erro e abrir-se ao conhecimento de Deus, causa e fim de tudo. Quanto ao ateísmo, trata-se de um gravíssimo erro e sem dúvida não estão isentos de culpa todos aqueles que procuram voluntária e conscientemente expulsar Deus do seu coração.

A princípio ele tenta manifestar respeito e estima pelos ateus, jurando para si mesmo que não está se contradizendo nem seguindo uma lógica semelhante à da frase pseudotolerante “Respeito os homossexuais mas não a homossexualidade”. Mas os ataca logo na frase seguinte, deixando claro que considera o ateísmo um “erro” “gravíssimo” e os ateus “culpados” nem por contestar a existência de Deus, mas sim “expulsar Deus do seu coração”.

Ou seja, para o autor, os ateus estão “errados” e são “culpados” de um “gravíssimo erro”, enquanto, naturalmente, apenas os cristãos estariam certos. Uma autêntica postura de “dono da verdade”, que em absolutamente nada ajuda numa aproximação dialógica entre cristãos e ateus, mas sim só acirra a discórdia, o desrespeito mútuo e o próprio preconceito cristão ateofóbico.

Ao tentar atacar não os ateus como pessoas, mas a descrença deles, mas acabar chamando-os de errados e culpados – logo, mentirosos – ao invés de aceitar que creem numa verdade à parte dotada de sua própria lógica, ele falha contundentemente em sua tentativa de “dialogar” com o lado descrente.

Em seguida, ele transcreve parte de uma encíclica do Papa João XXIII, que também é comentada aqui:

“A ordem moral não pode existir sem Deus: separada dele, desintegra-se. O homem, pois, não é formado só de matéria, mas é também um ser espiritual, dotado de inteligência e liberdade. Exige, portanto, uma ordem moral e religiosa, que, mais do que todos e quaisquer valores materiais, influi na direção e nas soluções que deve dar aos problemas da vida individual e comunitária, dentro das comunidades nacionais e nas relações entre estas. Foi dito que, na era dos triunfos da ciência e da técnica, os homens podem construir a sua civilização, prescindindo de Deus.

A verdade é que mesmo os progressos científicos e técnicos apresentam problemas humanos de dimensões mundiais, apenas solúveis à luz de uma sincera e ativa fé em Deus, princípio e fim do homem e do mundo (…). Portanto, qualquer que seja o progresso técnico e econômico, não haverá no mundo justiça nem paz, enquanto os homens não tornarem a sentir a dignidade de criaturas e de filhos de Deus, primeira e última razão de ser de toda a criação. O homem, separado de Deus, torna-se desumano consigo mesmo e com os seus semelhantes, porque as relações bem ordenadas entre homens pressupõem relações bem ordenadas da consciência pessoal com Deus, fonte de verdade, de justiça e de amor.” (Papa João XXIII. Encíclica “Mater et magistra”, n. 207 e 214).

É evidente que o autor tenta impor verbalmente o catolicismo e suas crenças como a “única verdade absoluta” em detrimento das (des)crenças “falsas” e do direito dos ateus de não acreditarem em nenhum deus e não terem nenhuma religião. Nesse trecho, João XXIII, nas entrelinhas, esnoba os códigos morais de outras religiões e da secularidade, chama os ateus de “amorais” e “desumanos”, desacredita o Estado Laico e acusa o ateísmo e o humanismo secular de “incapazes” de promoverem a justiça e a paz.

Me pergunto se o que o autor pretende, ao fazer essa paráfrase do preconceituoso papa, é estabelecer um diálogo com os ateus ou monologar de forma impositiva, acusatória e nada tolerante contra a dignidade e a autonomia ético-moral deles.

A Igreja Católica considera que Deus pode, por caminhos dele conhecidos, levar à fé todos os homens que sem culpa ignoram o Evangelho. Pois “sem a fé, é impossível agradar-lhe” (Hebreus 11, 6). Mesmo assim, cabe à Igreja o dever e também o direito sagrado de evangelizar todos os homens em conformidade com a ordem claríssima de Jesus Cristo (Mateus 28,19-20). Dentro de um clima de diálogo sincero, a Igreja convida cortesmente os ateus a considerar com espírito aberto o Evangelho de Cristo.

Dois terços desse último parágrafo são dedicados a imputar à Igreja Católica o atributo de trator que deve passar por cima de todas as religiões e irreligiosidades existentes para impor aquela que se arroga como a única fé verdadeira e válida. Isso se percebe ao o vermos falando dos “homens (sic) que sem culpa ignoram o Evangelho”, em que estão incluídos toda a sorte de politeístas, deístas, ateus, panteístas, monoteístas não cristãos, sincretistas, animistas… E ainda revela sutilmente que o “diálogo” é uma farsa e na verdade não passa de uma tentativa de violar a não crença dos ateus e persuadi-los a aderir à religião católica.

No final, a mensagem resumida que podemos extrair do corpo do texto é:

Ateus, vocês estão errados, são pecadores e mentirosos e são culpados ante meu Deus de negar seu chamado mesmo que não acreditem sequer na existência dele. Sua descrença é um dos problemas mais graves da humanidade; vocês com sua descrença fazem deste mundo um lugar pior, até porque vocês, por não seguirem a meu Deus, são, segundo o papa João XXIII, amorais, desumanos e incapazes de serem moralmente retos. Peço-lhes que aceitem a religião católica como a única crença verdadeira e logicamente válida e deixem de ser pessoas erradas, mentirosas, pecadoras, amorais, desumanas e injustas.

Por isso eu dou um conselho ao encerrar este texto de resposta: Se você é cristão e não aceita a existência de cosmovisões não cristãs, se diz respeitar os ateus mas odeia a descrença deles e seu direito de não crer, você ajudará muito no diálogo entre cristãos e ateus omitindo-se de dar qualquer declaração sobre esse tema. Porque qualquer coisa que diga ao tentar compreender o ateísmo a partir da lógica de sua religião será deletéria, preconceituosa e ofensiva. Deixe o esforço dialógico e diplomático com os religiosos mais liberais, que sabem que todas as crenças e descrenças são dotadas de suas próprias lógicas e guiam a um mesmo caminho de retidão e respeitam de verdade tanto as outras (des)crenças como seus (des)crentes.

imagrs

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ruthiar

junho 24 2012 Responder

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