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jul12

“Vamos para batalha e ganhar esta guerra”: a militarização emocional do futebol

A saber: antimilitarismo não é só oposição às forças armadas, mas também à cultura de violência e guerra em que elas se calcam para agir.

A imagem acima me fez relembrar do problema da incitação da violência e das emoções violentas no futebol. Da militarização emocional daquele que um dia já foi um esporte de família.

A figura em questão não fala para irmos ao estádio brigar com as torcidas adversárias, mas acaba incitando, mesmo sutilmente, sentimentos violentos, de época de guerra, entre os torcedores. Não sentimentos baseados numa rivalidade transformada em inimizade, mas sim na militarização da forma como vemos culturalmente o futebol.

Não é mais simplesmente um esporte em que dois times de onze jogadores cada buscam pôr a bola dentro do gol o máximo de vezes possível e agradar aos torcedores do time vencedor. Tornou-se um evento de guerra, em que exércitos de guerreiros vão a uma “batalha de vida ou morte”, de onde só um exército “sairá vivo”. Não são mais jogadores que vão fazer valer o esporte como entretenimento e descontração, são agora soldados que darão a vida e derramarão sangue em prol das emoções bélicas dos torcedores, que irão se enfurecer, “go berserk”, se seu time perder.

Me arrisco a uma análise não sociológica do assunto, mas, se o seu exército perder a batalha, vão as torcidas organizadas mesmo levar ao pé da letra essa beligerância e brigar nas ruas ou dentro do estádio. Isso é comum de acontecer em clássicos estaduais (como, aqui no Recife, com Sport X Santa Cruz, Sport X Náutico e Santa Cruz X Náutico), e não duvido que a militarização emocional do futebol ajude a induzir isso.

E isso sem falar nas vezes em que o time – ou exército, a depender desse militarismo das emoções – vem sofrendo uma sequência de derrotas no campo, e os torcedores começam a desejar todo o mal violento para os jogadores mais fracos ou depredar o patrimônio do clube e/ou dos jogadores (como o ônibus da delegação do time e os carros dos jogadores).

Vencer muito no campeonato nacional é algo visto como a franca expansão de uma grande potência militar rumo à glória da História, tal como um Império Romano e suas legiões genocidas que massacraram, escravizaram e/ou dominaram povos como os celtas, os lusitanos, os cartagineses, os gregos e os egípcios. Perder muito, por sua vez, é algo tratado como se fosse uma ameaça à integridade do “império” que aquele time representa.

Dois textos sobre isso já foram publicados aqui no Consciencia.blog.br, dois anos atrás: um na época das frases da semana e outro extraído e copiado dos comentários de um post do blog Escrevinhador.

No mais, não é razoável esperar que essa militarização sentimental, essa infiltração da cultura de violência e guerra, no futebol vá às últimas consequências. A cultura de paz deve começar a ser defendida desde já. E digo logo: isso não vai ser resolvido com meras panfletagens televisivas e impressas com mensagens de “paz nos estádios”. Isso deve ser tratado em sua raiz: em nossa cultura que cultua a violência, a valorização dos corpos militares e a competição abusiva em detrimento da paz, da solidariedade e da cooperação.

imagrs

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M.Eduardo

julho 28 2012 Responder

Sempre leio que há algumas décadas atrás o esporte não era tomado por “torcidas organizadas”, mas por torcedores, indivíduos e famílias, que iam ao estádio assistir a um jogo de futebol e torcer para o seu time. Algo que devia ser o óbvio, mas que deixou de ser.

Lamentavelmente quando os torcedores começaram a se organizar em grupos, justamente aí é que se perdeu todo esse espírito desportivo e começou o “bélico”. Como vai-se realizar a paz nos estádios com torcidas separadas, gritos de guerra, e um grupo querendo diminuir o outro, sem reconhecer que o rival é importante e necessário para a realização do próprio jogo?

Também é preciso considerar que as torcidas organizadas dão vazão a uma série de comportamentos que não são reproduzidos em outros contextos (o hooliganismo) e também mascaram uma série de outros interesses, bem distintos da finalidade original que seria torcer para um clube. Ou seja, muitos “torcedores” não estão lá para torcer, mas para viver às custas do clube, praticar crimes, etc.

Esse texto também me fez lembrar um recente do Drauzio Varella: http://drauziovarella.com.br/wiki-saude/as-raizes-do-racismo/

Além de termos que desarmar esse tipo de discurso violento, e combatermos todas as distorções que afetam hoje o “torcer”, há uma necessidade de compreendermos como o ser humano age instintivamente e por isso mesmo estarmos sempre alertas e conscientes para não demarcarmos o mundo em “nós” e “eles”. Podemos ser competitivos sem sermos destrutivos; e podemos reconhecer e assumir as diferenças sem que isso queira significar superioridade ou inferioridade.

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