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ago12

Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: igualando “religião” e fundamentalismo cristo-islâmico

Um costume muito comum entre os neoateus é usar a falácia da inversão do acidente ao generalizar a todas as religiões existentes os males cometidos por uma denominação fundamentalista do cristianismo. É o caso da imagem abaixo:

Novamente temos uma generalização desonesta de crimes do fundamentalismo cristo-islâmico para todas as religiões. E é necessário fazer as seguintes colocações para criticar essa imagem:

a) A imagem coloca a religião como algo completamente maligno, deturpando uma realidade em que nenhuma religião é assim. O cristianismo, o islamismo e o judaísmo também passam boas mensagens, ainda que infelizmente elas sejam alternadas com valores de moralidade duvidosa nos livros sagrados dessas religiões;

b) Essa malignização absoluta da “religião” mostra como os neoateus ainda estão impregnados com o maniqueísmo típico das religiões que mais criticam. Colocam a religião como o “puro mal” enquanto posam como os arautos do “puro bem” que irá salvar a humanidade das “garras malignas” das religiões;

c) O trecho “…e pregado verdades que nunca pôs em prática” é mentiroso. Todas as religiões pregam valores ético-morais, e muitos deles permanecem atuais. Dizer que religiões como o cristianismo nunca puseram em prática suas pregações virtuosas é negar que há milhões de cristãos promovendo a caridade e questionando as injustiças da sociedade, com base nos ensinamentos pacifistas de Jesus. É riscar da História, por exemplo, a Teologia da Libertação, a Ecologia Profunda, o ambientalismo neopagão, o vegetarianismo ético de diversas religiões (adventismo, hinduísmo, Hare Krishna, jainismo, budismo etc.), a caridade da Santa Casa de Misericórdia, a militância de Martin Luther King Jr., a Ahimsa, a Satyagraha, a veneração religiosa à Natureza…

d) O trecho “Perseguiu e persegue minorias fracas […] e que quase sempre não têm a menor possibilidade de defesa” ignora que, entre as minorias perseguidas por cristãos, muçulmanos e judeus fundamentalistas, estão minorias também religiosas – espíritas, afrorreligiosos, pagãos, indígenas adeptos das crenças nativas, muçulmanos palestinos, cristãos em alguns países islâmicos etc. – além de generalizar as perseguições empreendidas por vertentes fundamentalistas das religiões abraâmicas como se fosse uma prática regular de todas as religiões existentes;

e) Ao falar do “rastro de sangue, dor e contradição”, extrapola não só para todas as religiões como para o próprio conceito de religião os crimes dos fundamentalistas das religiões abraâmicas;

f) Falar que “religião é uma das criações humanas que nos cobre de vergonha” é um insulto à própria História da humanidade. Ignora que a religião, desde o Neolítico até os dias atuais, sempre teve papéis grandiosos:
– orientar as mais diferentes filosofias e cosmovisões dos povos ao redor do planeta;
– determinar muitos princípios ético-morais que mesmo hoje permanecem atuais e atemporais;
– guiar as artes das mais diversas civilizações;
– ter sido matrona da Escrita, visto que a grande maioria das primeiras escrituras da História da humanidade eram escritos religiosos;
– historicamente andar de mãos dadas com a Arquitetura e a Engenharia Civil, graças à edificação de templos, túmulos e outras construções;
– dar a dezenas de bilhões de seres humanos ao longo da História humana a proteção psicológica necessária para enfrentar situações de luto, de catástrofes, de guerra – no caso dos povos que precisavam buscar força em(nos) Deus(es) para se defender de exércitos agressores -, de inferno astral individual, de desemprego, de crise econômica…, pessoas essas que, por sua formação cultural, não conseguiriam encontrar forças no pensamento ateísta-secular moderno;
– dar a base filosófica para movimentos como a Teologia da Libertação, a Santa Casa de Misericórdia, a Ecologia Profunda e a Ahimsa e Satyagraha agirem em prol de um mundo com menos injustiças e mais solidariedade;
entre tantos outros papéis positivos;

g) As ilustrações são todas de instrumentos de tortura da Inquisição cristã, mas a imagem como um todo, uma vez que fala de “religião” em sentido genérico ao invés, por exemplo, da Igreja Católica medieval, dá a entender que todas as religiões empreenderam e ainda empreendem perseguição, tortura e execução de pessoas de crenças diferentes.

Eu gostaria de saber o que os neoateus pensam como seria a humanidade hoje se as religiões nunca tivessem vindo à existência. E por que negligenciam tanto a História ao fazerem seus panfletos virtuais que generalizam às religiões e ao próprio conceito ontológico e antropológico de religião os abusos das versões corruptas de algumas vertentes do cristianismo e do islamismo. E como ainda defendem um mundo sem preconceitos quando metralham contra as religiões em geral um preconceito muito venenoso e repleto de falácias e ignorância histórica. E o que dirão quando algum religioso lhes disser que os ateus não merecem ter suas (des)crenças toleradas porque não estão se dando ao respeito.

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