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Impacto ambiental da carne bovina: para a Scientific American Brasil, o vegetarianismo não existe

Revistas de divulgação científica também podem dar deslizes crassos e faltar com a verdade às vezes. Foi o caso da reportagem Efeito-estufa do hambúrguer, divulgada essa semana no site da Scientific American Brasil. A matéria, logicamente dedicada a falar dos tantos impactos ambientais da produção de carne bovina, falou o básico, mas faltou o principal: mencionar o vegetarianismo como a melhor das soluções para que se evite esses impactos.

As “soluções” dadas são vagas e nenhuma delas contribuiria para uma diminuição realmente significativa desses impactos ambientais:

Soluções do Problema

O que pode ser feito? Melhorar o manejo de resíduos e os métodos de criação certamente reduzirá as “pegadas de carbono” da produção de carne. Sistemas de captura de metano podem permitir que esterco do gado seja utilizado na produção de energia elétrica, mas esses processos ainda são caros para serem comercialmente viáveis.

As pessoas também podem reduzir os efeitos da produção de alimentos no clima do planeta. Afinal, até certo ponto nossa dieta é uma questão de escolha. Ao optarmos por melhores alternativas, podemos fazer diferença. Consumir alimentos produzidos na região, por exemplo, reduz a necessidade de transporte, embora alimentos transportados de fazendas próximas, por caminhões, em pequenas quantidades, possam surpreender por economizarem pouco em emissões de gases do efeito estufa. Além disso, nos  Estados Unidos, como nos demais países desenvolvidos, as pessoas poderiam comer menos carne, especialmente bovina.

Os gráficos a seguir quantificam as conexões entre a produção de carne bovina e gases do efeito estufa em detalhes preocupantes. A lição é clara: devemos pensar cuidadosamente sobre como a nossa alimentação está contribuindo para aumentar a emissão de gases do efeito estufa.

Como se vê, a “solução” mais próxima do vegetarianismo seria as pessoas de alguns países comerem menos carne bovina. Não se cogita qualquer possibilidade de substituição da carne por uma culinária baseada em vegetais. Não fala um “ah” sobre parar de comer carnes. Mas curiosamente diz que “devemos pensar cuidadosamente sobre como a nossa alimentação está contribuindo para aumentar a emissão de gases do efeito estufa”. Ou seja, devemos pensar nisso, mas não tanto a ponto de ameaçar a ordem econômica baseada em exploração animal.

A impressão que se tem é que a reportagem tenta proteger a pecuária e a indústria frigorífica, com uma abordagem bastante convencional que unidimensionaliza – logo, desempodera e suaviza – o problema da relação negativa produção de carne bovina vs. meio ambiente, se esquiva das interseções da questão com a violação dos Direitos Animais; a exploração de trabalhadores em fazendas, matadouros e frigoríficos e os riscos da carne à saúde humana e, como já foi dito, evita mencionar a única solução que mexe na raiz do problema.

Talvez pensem erroneamente que cortar a carne seria simplesmente mutilar e incompletar as refeições, de modo que os nutrientes da carne não seriam substituídos, e não adotar uma alimentação vegetariana, dotada de todos os nutrientes de que o corpo precisa (incluindo-se a ainda necessária suplementação de vitamina B12), e por isso tivessem evitado falar do assunto. Se foi esse o caso, então infelizmente a SciAmBR se comportou como uma Veja da vida, e não como um veículo respeitoso de divulgação científica.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Paulo Anjos

agosto 5 2013 Responder

Infelizmente inexiste um sentido melhor para a informação,sendo que se atrela valor monetário as matérias jornalisticas. Uma preocupação em não desagradar anunciantes e financiadores.Queria saber mais sobre a real necessidade de suplementação de vitamina B12.

vinícius h

agosto 31 2012 Responder

Mídia: sempre com eterno medinho de tocar no assunto do boicotamento de produtos…

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