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Concursos de miss e um padrão de beleza tendente ao racismo

Vi circulando no Facebook, através de uma fanpage de orgulho nordestino, recentemente, as fotos das misses dos nove Estados do Nordeste. Como é regra oficiosa em concursos de miss no Brasil, nenhuma negra ou mulata foi eleita miss no Nordeste. Todas branquinhas, com leves diferenças de bronzeamento da pele. Também estão praticamente ausentes traços físicos de descendência indígena. Nem a Bahia, o Estado mais negro do Brasil, elegeu uma negra ou parda como miss.

em São Paulo, apenas duas negras, das cidades de Cordeirópolis e Santo André, figuravam entre as 30 finalistas no concurso de Miss São Paulo 2012, cuja final foi no sábado 11/08. E como era de se esperar, uma branca, da cidade de Jaú, foi a eleita.

Mais atrás este ano, em maio, o concurso Gata do Paulistão 2012, em referência a quem seria a grande musa do Campeonato Paulista 2012, também excluiu as negras do quadro de finalistas. Todas eram brancas, e metade era de loiras, numa absurda desproporção em relação à distribuição populacional de brancas loiras, brancas morenas, brancas ruivas, pardas e negras.

E, no ano passado, o Miss Brasil 2011 também foi marcado pela exclusão racial vigente no padrão de beleza feminino hegemônico no Brasil: também só teve brancas entre as concorrentes. Nenhuma negra ou mulata havia sido eleita miss estadual naquele ano. Penso que Leila Lopes, a angolana que foi eleita Miss Universo 2011, sequer teria sido eleita miss estadual se fosse natural e habitante do Brasil. Ela teria tido sérias dificuldades em ao menos ser finalista num concurso estadual de miss, tal como a Miss Santo André 2012 e a Miss Cordeirópolis 2012.

Eu pessoalmente não espero que vá haver mais que duas pardas ou negras entre as candidatas a Miss Brasil em todo o país. Isso se sequer houver alguma moça de pele escura no páreo.

Fica patente assim o viés racista, que supervaloriza as brancas e exclui quase totalmente as negras e mulatas, do padrão de beleza hegemônico no Brasil. Brancas magras de olhos claros (azuis, verdes ou castanhos-mel), especialmente loiras, e de nariz afilado são o nosso default de mulher bonita. Considerar bonita alguma negra, ainda mais de olhos escuros (pretos ou castanhos-escuros), é exceção – se tem fenótipo facial africano então, ser considerada bonita é muito difícil. Já com pardas/mulatas, a situação é variada na preferência individual de beleza, mas as pardas claras, principalmente se têm traços faciais europeus, prevalecem perante as pardas escuras.

As pessoas, incluindo outras mulheres, dizem: “Ah mas isso é questão de gosto pessoal”; “Eu sinceramente prefiro as brancas, mas não nego que tem muita negra linda por aí”; “Você está me chamando de racista porque eu prefiro pessoalmente as brancas de traços faciais ‘finos’ às negras de traços faciais ‘grossos’?”. Mas não percebem que seu gosto pessoal é “coincidentemente” o mesmíssimo gosto de outras dezenas de milhões de brasileiros. Talvez da grande maioria dos quase 200 milhões de brasileiros.

Não param para pensar como seu gosto por beleza feminina foi acostumado pela publicidade, que praticamente só mostra brancas e brancos e apenas muito raramente exibe negras(os) e mulatas(os), e pelas novelas, que supervalorizam a participação dos brancos e relega os negros ao status de pequena minoria numérica, muitas vezes estereotipada como pobres, trabalhadores de funções subalternas – como garçom e empregada doméstica – e/ou mesmo bandidos.

Não notam que negros que sobressaem na fama são contados nas mãos, como Taís Araújo, Lázaro Ramos, Milton Gonçalves e o já falecido Norton Nascimento, enquanto brancos sobressalentes e bonitões/bonitonas existem aos milhares e são lançados ao status de celebridade da teledramaturgia às dezenas ou centenas a cada ano. Nem se dão conta como a maioria das negras, incluídas mulatas, que acham bonitas têm poucos traços faciais remanescentes das suas origens africanas.

No mais, nós brasileiros, eu incluído, fomos acostumados desde sempre a achar a pele clara, as feições europeias e o cabelo liso potencializadores da beleza feminina, e a pele escura, os fenótipos faciais africanos e o cabelo crespo fatores negativos, que diminuem a beleza da mulher. Isso através da propaganda empresarial, das já descritas novelas e dos próprios concursos de beleza. Por mais que não defendamos a inferioridade dos negros, acabamos sendo orientados a ter um padrão de beleza que exclui a negritude física e supervaloriza os padrões euro-caucasianos. Ou seja, nosso padrão de beleza tende ao racismo. Para o brasileiro médio, a beleza descendente da África é inferior à beleza que descende da Europa, por mais que tentemos negar isso.

Preterir a beleza negra em prol da branca por esse viés é ajudar, mesmo inconscientemente, a perpetuar a desigualdade entre brancos e negros/pardos – desigualdade essa que não é só socioeconômica, mas também cultural e estética. Isso precisa mudar, começando a partir do surgimento de iniciativas de incentivo de peso, seja privado, seja via terceiro setor, seja público, da valorização da estética da beleza negra. Não é que essas campanhas tentem “ditar” o que “devemos” considerar um padrão de beleza bonito, mas sim que nós sejamos acostumados a também valorizar a beleza negra. Que consideremos brancas, negras e pardas possuidoras de padrões de beleza igualmente aprazíveis.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Eliani

abril 11 2015 Responder

Acho que beleza n tem nada com a cor; se por 10 mulheres vou olhar p o conjunto rosto cabelo corpo independente de cor posso achar uma loira mais bonita ou uma morena vai depender das concorrentes!!

antonio

maio 26 2013 Responder

APENAS 06 misses negras da Bahia, começando em 1969 com Vera Lucia Guerreiro, que revestida do embranquecimento da época representou a Bahia (ela se passou muito bem por branca, a mais negra de todas, pela bastante escura foi barbara moreira de 2002.Agora temos a Priscila Arruda, mas terá dificuldade para ficar entre as 10 semifinalista, não que não tenha condições, mas o racismo é reinante, vejamos que no rio grande do sul a miss porto alegre era uma negra muito parecida com nossa miss Bahia 2013, mas não foi eleita, ficou em segundo lugar e a branca foi eleita e já estão dizendo que a tal vai ser a miss Brasil de 2013. Isso no RGS se explica, mas na Bahia por que? Tanta dificuldade? PENSO QUE DEVERÍAMOS TER UMA POLÍTICA DE SÓ ENCAMINHAR NEGRAS PARA O CONCURSO NACIONAL COMO UMA POSIÇÃO CRÍTICA DE ENFRENTAMENTO DO EMBRANQUECIMENTO ESTABELECIDO nos concursos

Izaira

outubro 21 2012 Responder

Por favor!Não vamos generalizar.O cunhado citado deve ter algum problema de fundo emocional. Sou negra e me acho o máximo.Estudei, sou advogada e me valorizo e muito! Não acho que a cor da pele de uma pessoa influencie no seu caráter, seja ela preta,amarela,branca ou vermelha.

    Mariana

    outubro 23 2012 Responder

    Izaira ,não foi minha intenção generalizar,tampouco questionei o caráter de alguém. Apenas penso que esse negócio de ficar tostando os miolos com chapinha,secador e química é racalcar a negritude. Foi nesse sentido que eu disse que o negro tem que se valorizar. Querer o seu cabelo natural que é o maior simbolo que nos representa como negros. Ah disseram que meu cabelo é ruim! Sem essa de que nega bonita é nega de cabelo com permanente e tal. Acho que a natureza negra deve sim ser valorizada. Só assim é possivel quebrar esse padrão racista de “negras embranquecidas”.Somos lindas ao natural.

Mariana

outubro 14 2012 Responder

Concordo plenamente. Mas creio que existe mais racismo entre os próprios negros e negras do que entre brancos e negros no geral. A maioria dos homens negros que conheço por exemplo detestam mulheres negras. Meu cunhado por exemplo ,é negro e diz que “prefere brancas porque negras tem cabelo duro e parecem sujas”. Acho que o padrão de beleza racista ainda existe porque o negro não aprende a se valorizar.

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