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ago12

Por que não existem criadouros e matadouros didáticos em escolas?

Uma iniciativa comum em escolas rurais de ensino fundamental é a manutenção de hortas onde as crianças podem aprender a cultivar vegetais para consumo e comercialização de alimentos. Mas curiosamente não se ouve falar em criadouros e matadouros didáticos, que ensinem os alunos como criar animais, matá-los para consumo e extrair e tratar sua carne. E parece-se nem cogitar a iniciativa de se começar a dar esse tipo de ensinamento aos pequenos. Aí nos perguntamos: por quê?

Observamos que essas escolas ensinam a plantar, regar e colher depois de um tempo, e também a lavar e talvez descascar e cozinhar o que foi colhido. Mas, por outro lado, não ensinam a forçar fêmeas à inseminação, lhes tomar seus filhotes, mutilar os animais em crescimento (com castração, descorna, debicagem etc.), confiná-los, “discipliná-los” com instrumentos como buçais espinhosos e colares imobilizadores de pescoço, injetar drogas (antibióticos, vermífugos, hormônios etc.) neles e finalmente abatê-los quando estão crescidos. Também não ensinam a esfolar, esquartejar, desossar, processar a carne e guardá-la no frigorífico.

Aí qualquer pessoa, incluindo a maioria dos onívoros, pensa: “Quem é o professor que se atreveria a ensinar isso a crianças, e que criança iria gostar de aprender isso? Apenas mestres e alunos tendentes à psicopatia, pelo visto. Ninguém em sã consciência ousaria aprender e fazer isso com naturalidade.” Afinal, há uma enorme diferença entre cultivar e colher alimentos vegetais e criar e matar animais para consumo – ao contrário do que tentam dizer as piadinhas metidas a engraçadinhas que comparam alfaces e bois.

Nisso, percebemos que a produção de carne, ao contrário da agricultura, não é algo que se mostre às crianças. Deve ser escondida e publicitariamente invertida numa fantasia colorida para fazê-las não repudiar comer aquilo cuja produção não querem que vejam. Daí precisam acobertar o sangue, os gritos, a dor, a privação de liberdade, o sofrimento de animais mães e filhos, o sofrimento da mutilação e do pré-abate e tudo mais, com aquelas propagandas totalmente inversas à realidade objetiva da pecuária – com animais felizes, fazendas bucólicas com celeiros de madeira, pecuaristas simpáticos senhores de pequenas e tradicionais propriedades etc.

Diante de tudo isso, é “natural” que ensinem a prática da agricultura, que não envolve as agruras da criação animal, mas por outro lado, em vez de ensinar, escondam as práticas da pecuária. Porque, ao contrário da primeira, a última não é boa para os sensíveis e empáticos olhos infantis. Requer insensibilidade; repressão da empatia pelos animais (ou falta dela); sangue frio pra separar famílias, mutilar e matar.

E esse tipo de valores nenhum pedagogo em sã consciência se atreve a transmitir às crianças. Deixam isso para os maiores de idade alunos dos cursos universitários de zootecnia, que já foram aculturados nos costumes de naturalizar a exploração animal e ver animais não humanos como objetos cujo sofrimento é apenas uma variável técnica ou nada além de uma resposta bioquímica a estímulos.

E além da questão emocional pela qual não se quer transformar crianças em psicopatas antiempáticas, há a questão da saúde como o segundo grande impedimento para a didatização escolar da pecuária. Enquanto vegetais requerem formas relativamente simples de manejo da colheita, as carnes requerem todo um processo complexo de esfola, esquartejamento, desossa, cura, armazenamento em locais frios – procedimentos que criança nenhuma tem condição de aprender. Se a produção for feita por processos amadores e/ou rudimentares, sem todos esses cuidados, é grande a possibilidade de a carne adquirir impurezas ou mesmo começar a apodrecer antes de comida. E isso não vai ser nem um pouco bom para a saúde humana.

E outro detalhe é ter que esconder dos alunos os métodos modernos de injeção de antibióticos, hormônios, vermífugos e outras drogas e também a questão da manutenção higiênica intensiva de que as criações animais necessitam – ter que lidar com as fezes, a urina, as feridas, o pus e toda a sorte de nojeiras intrínsecas à pecuária. Se descobrirem que esses aspectos são essenciais na criação animal para fins de consumo, os pequenos terão nojo, repulsa, aversão e medo de comer carne para sempre, e isso seria considerado “péssimo” por aqueles cuja renda vem da exploração animal.

Essa negação de ensinar pecuária a crianças nos faz refletir sobre as questões ética e antissaudável de explorar animais pra fins de consumo. Nos induz a perguntar a nós mesmos: por que não se pode ensinar aos pequenos como se produz um alimento tão propagandeado e tornado natural e atraente pela publicidade e pelos costumes culturais? Por que se tem que induzir, de forma sutil ou forçada, crianças a uma alimentação cujos processos produtivos “precisam” ser escondidos a todo custo? E por que ainda fazer isso numa realidade em que se comprovou ser perfeitamente possível viver com boa saúde sem pôr um naco de carne ou uma gota de leite não humano na boca?

Nisso, fica a minha sugestão para que os pedagogos das regiões rurais pensem muito nisso. Que, quando lhes ensinarem a prática da agricultura, lhes ensinem também por que não podem ministrar em aulas práticas, da mesma forma, uma pecuária didática. E, como essa justificativa por parte dos professores vai inevitavelmente deixar um gancho à questão da Ética animal, que aproveitem e introduzam as crianças aos Direitos Animais e à necessidade de se abraçar o veg(etari)anismo, de modo que não passem mais pelo inconveniente de consumir aquilo cujo processo de produção são obrigadas a desconhecer.

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