03

set12

A estratégia do dedo na cara é um tiro no pé da conscientização vegetariana

A imagem acima, em circulação no Facebook, resume aquilo que se deve evitar em termos de conscientização de onívoros em torno do assunto Alimentação e Ética. Ela traz literalmente um dedo apontado à cara do leitor, perguntando “Você come carne?” e dizendo em seguida, com muitas imagens de atrocidades em granjas industriais e matadouros, “Então saibas que és responsável pela morte desses animais e pela forma que são tratados em vida”. É uma estratégia que atira no pé do movimento veg(etari)ano e cria mais repulsa da parte dos onívoros do que interesse pela nossa causa.

Essa é aquela que eu chamo “estratégia do dedo na cara”, em que se faz o que a figura mencionada faz: apontar o dedo na cara dos onívoros; estigmatizá-los; chamá-los ou insinuar-lhes o atributo de cúmplices ou coautores do crime de crueldade contra animais; imputar-lhes a imoralidade, o caráter desviado, a responsabilidade direta; plantar-lhes a culpa e a vergonha.

Inocentemente essa tática tenta convencer os consumidores de carne de que sua alimentação precisa ser repensada e, assim, formar novos vegetarianos. Mas a consequência prática não é nada que corresponda à expectativa dos donos dos indicadores em riste. Ao invés de conquistar mais pessoas para a ideologia dos Direitos Animais, ela tende a repelir os onívoros que leem a pérola.

Isso porque é natural que as pessoas, ao serem dedadas no rosto e submetidas a acusações cuja lógica não compreendem plenamente, se sintam muito menos esclarecidas e conscientizadas do que ofendidas, agredidas e discriminadas. É ligeiramente similar a cristãos acusarem pessoas sem religião de “pecadores”, “imorais” e “condenados ao inferno por não aceitarem Jesus” a partir de uma lógica que só faz sentido aos olhos da cristandade.

Acusar, dedar a cara, chamar implícita ou explicitamente de imoral e criminoso não são meios de educar ninguém. Naturalmente a consequência, ao interlocutor, desse meio de tentar divulgar o vegetarianismo será a autodefesa, a rejeição à ideia apresentada, a reação irada, o questionamento do temperamento do “conscientizador”. Em outras palavras, isso formará novos reacionários, e não vegetarianos. Vai formar pessoas que generalizam a todos os veg(etari)anos os defeitos de alguns, como a arrogância, o autoritarismo, o proselitismo ofensivo, a sensação de superioridade sobre os onívoros e a antidiplomacia, e por tabela os odeiam.

Que o digam muitos lacto e ovolactovegetarianos, que são pressionados e mesmo hostilizados por alguns veganos que querem que parem logo de consumir alimentos de origem animal. Embora haja talvez bastantes deles a divulgar a imagem aqui criticada, detestariam ser alvo de um dedo-na-cara por parte de veganos. Odiariam ser acusados de cumplicidade com o abate de vacas leiteiras aposentadas, bezerros, galinhas retiradas da “linha de produção” de ovos e pintinhos machos e com o confinamento de fêmeas tratadas como máquinas de produção. Isso poderia fazê-los desistir do veganismo, por lhes inspirar a impressão de que este induziria aos adeptos a arrogância.

Figuras como essa, que tentam conscientizar de maneiras nada adequadas, deveriam ser tanto evitadas como criticadas – nesse último caso, pelo lado onívoro e pelos veg(etari)anos que discordam de seu uso. Elas fazem mais mal – para os dois lados e também para os animais não humanos – do que bem. Descartadas elas, o novo caminho a ser adotado é o da diplomacia, do questionamento, da didaticidade, da compreensão dos motivos do outro lado para ainda comer carne e do trabalho dialético em cima desses motivos.

imagrs

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Patricia

setembro 4 2012 Responder

Não poderia ter explicado melhor. Eu tenho tentado de todas as formas levar essa “lógica” de raciocício para os diversos canais de ativismo em que eu colaboro, mas me sinto eternamente um “voto vencido”, pois a grande maioria das pessoas insiste, não em tentar sensibilizar, mas em impor seu ponto de vista. Só lamento pelos animais, pois pelo que eu noto, essa estratégia mais afasta as pessoas da causa do que aproxima.

Murilo

setembro 3 2012 Responder

Olá Robson!
Sei que não sou parâmetro pra ninguém, mas… foi justamente qdo levei uma bela de uma dedada na cara (a.k.a. A carne é fraca) que eu virei vegano do dia pra noite. E ainda me pergunto: por que não fizeram isto comigo antes?

    Robson Fernando de Souza

    setembro 3 2012 Responder

    Mas o filme, até onde eu sei, não investe na culpabilização, na cobrança explícita e no autoritarismo pra convencer os onívoros.

K.

setembro 3 2012 Responder

Muito legal, me fez pensar. sou ovo-lactovegetariana e realmente me sinto ofendida quando vem essa cobrança para virar vegan. eu acho importante mostrar as imagens, mesmo que ruins, para todos. mostrar que o bife tem um longo caminho horrível pra virar bife e não simplesmente cai no prato bonitinho. porém, realmente, cobrando e apontando não ajuda em nada. acho que tem que ser um caminho escolhido por questões éticas, não por culpa.

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