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Documentário fala que “não haverá um amanhã”, mas esquece que a pecuária e a pesca existem

Atualizado em 23/09/12

Poucas coisas são mais irresponsáveis e inconsequentes em documentários ambientalistas do que a omissão completa da existência da pecuária e da pesca. Foi o caso do Uma verdade inconveniente e desse abaixo, intitulado There’s no tomorrow “(Não há nenhum amanhã”), lançado em fevereiro deste ano:

Esse documentário fala, com argumentos convincentes (se alguém encontrar erros neles, avisem, por favor), que o modelo atual de sociedade industrial de alta tecnologia dependente de combustíveis e matérias-primas não renováveis é simplesmente inviável e entrará em colapso ainda no século 21, e provavelmente forçará uma volta aos padrões de vida de povos rurais sem cidades constituídas.

E fala, entre tantos outros problemas, da alimentação e do consumo de energia – inclusive colocando o problema da extensão das plantações reservadas ao biodiesel. Mas comete o grave erro de omitir completamente o peso da produção (e consumo) de alimentos de origem animal, em especial das carnes vermelhas e das aquáticas. Pelo contrário, trata os peixes, crustáceos e moluscos como meros produtos, recursos a serem extraídos e consumidos e sequer cita a palavra “carne”.

Adiante, fala da crescente demanda alimentícia e faz muitas referências à agricultura moderna mecanizada. Mas omite por completo o fato de uma enorme parte dessa agricultura ser destinada à alimentação de gado, ignora a produção de proteínas vegetais necessária à de proteína animal e não fala um “ah” em relação ao fato de a pecuária extensiva mais a agricultura moderna vinculada à produção de forragem animal serem os maiores responsáveis pelo desmatamento e pela exaustão de solos e de reservatórios de água potável. Tampouco cita o uso de gordura animal como matéria-prima de biodiesel, o que aumenta em muito a insustentabilidade e o caráter não limpo da energia do biodiesel.

Em certo ponto, fala que a população de peixes “pescáveis” vai desaparecer até 2048. Mas põe a culpa disso na poluição, que tornaria a água inabitável para a fauna nectônica atual, embora fale um pouco do fato de os navios pesqueiros estarem atingindo profundidades cada vez maiores. E isenta de responsabilidade o consumo de carne branca.

O futuro imaginado pelo documentário fala que terá que haver uma produção local. Mas também não diz nada sobre como será produzida a proteína humana, se será possível tanto uma alimentação onívora nos níveis “medievais” para uma população ainda tão grande (de bilhões de pessoas, muito maior que na Idade Média), assim como uma alimentação vegetariana estrita, que precisa de um gerenciamento completo da vitamina B12 (fabricação de suplementos e/ou fortificação de alimentos) e do plantio disseminado de linhaça (fonte de ômega-3).

Me pergunto se a omissão da participação da pecuária e da pesca na crise ambiental atual é uma parte do carnismo, ideologia que defende, com base em falácias, preconceitos e manipulações, o consumo de alimentos de origem animal, já que omitir a participação pelo menos da carne nisso permite às pessoas não se preocupar com sua alimentação – pelo contrário, ao se falar de agricultura, pode-se racionar pessoalmente o consumo de vegetais e manter estável ou mesmo aumentar o de alimentos de origem animal.

Uma outra crítica possível ao documentário, um tanto relacionada à questão da omissão da pecuária e da carne, é que ele apenas sugere soluções individualistas, não aparecendo nenhuma solução a ser coletivamente empreendida, nem mesmo o questionamento e militância contra o já provado como insustentável modo de vida atual. Tampouco aborda as questões política e ética do problema ambiental. É como se a questão da exaustão de recursos não tivesse nada a ver com política, sendo nada mais do que um problema a ser encarado individualmente pela redução do consumo e pela mudança de alguns hábitos. É, aliás, o mesmo vício em que muitos veganos incorrem, ao propagarem a crença de que a mudança individual de consumo sozinha já vai ser suficiente para libertar os animais da escravidão no futuro.

Fica então a sugestão: nunca assista a um documentário sem senso crítico, suscetível a absorver sem questionamento tudo o que se fala ali. Provavelmente o mundo não vai ter esse colapso, e, se não acontecer, deverá depender, muito mais do que de providências individuais, da mobilização coletiva contra os interesses de quem lucra com a destruição ambiental e com a manutenção da ordem socioeconômica vigente que vem causando tal destruição.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Thiago Melo

novembro 9 2012 Responder

Divulguei esse artigo e veja o que responderam:

“É verdade que o documentário falhou ao não considerar os problemas da carne, que é um agravante (assim como falhou ao não considerar soluções tecnológicas como transportes maglevs e designs sociais que poderiam diminuir drasticamente o consumo de energia e manter conforto moderno as pessoas).

Pelo menos o ponto positivo é que tratou bem do uso irresponável de combustíveis (por causa da economia), assim como problemas que podem surgir se nada for feito pra corrigir isso. Acho que o texto se acrescenta as críticas feitas, mas não é uma oposição em si porque o autor do vídeo pode não ter considerado a poluição da carne por pura falta de informação (sem falar que já se pode produzir carne em laboratório, só falta melhorar os métodos que tanto problemas de produção/custo quanto éticos desapareceriam). Enfim, gostei do texto porque apontou problemas que no documentário passou batido.”

http://www.facebook.com/leandro.zayd.3/posts/427778160617452?comment_id=4198985&ref=notif&notif_t=share_reply

    Robson Fernando de Souza

    novembro 10 2012 Responder

    Bom saber que responderam assim =) Obrigado.

    Mas ainda acho que a produção sintética de carne vai ser uma opção energeticamente dispendiosa, vai representar o uso de muita eletricidade. Posso estar enganado, mas o vegetarianismo vai continuar muito mais energeticamente viável do que o onivorismo com carne exclusivamente sintética.

Marcelo

novembro 8 2012 Responder

O colapso não vai acontecer, ele já está acontecendo, é só o começo. Não vai acontecer de uma hora pra outra, é um processo gradual que já está em andamento. Ele é inevitável dentro do nosso atual sistema. Veja o Zeitgeist Adendum e Zeitigesit Moving Forward e terá uma boa noção do que estou falando.

vinícius h

setembro 18 2012 Responder

Concordo também com quase tudo, mas acho MUITO mais provável que haja esses colapsos. Acredito que eles irão ocorrer inevitavelmente se continuarmos no mesmo sistema econômico. O documentário Zeitgeist II e III (que não tem nada a ver com o lixo do I) mostram muitas estatíscas esmagadoras a respeito do monetarismo (não do capitalismo, mas de qualquer sistema baseado em dinheiro). E também mostra um novo sistema econômico social que é muito mais sustentável… iria facilitar muito mais a melhora na qualidade de vida e aumentar MUITO a qualidade dos alimentos. Mas infelizmente o mesmo documentário peca em não citar a alimentação Vegana como um boicote eficaz contra degradação ambiental e social.

Kaique Ganzaro

setembro 18 2012 Responder

Concordo com você quanto a omissão da pecuária no documentário e por não oferecerem soluções plausíveis aos problemas. Mas acredito que muitos colapsos econômicos acontecerão devido ao sistema de propriedade privada vigente em nossa sociedade, aonde um grupo cada vez menor de pessoas estão se apossando dos imóveis, fábricas, hospitais, escolas, etc.
Gostaria de saber de você conhece os filmes do Movimento Zeitgeist e qual sua opinião sobre eles.

    Robson Fernando de Souza

    setembro 18 2012 Responder

    Na verdade ainda não assisti, mas o que eu ouvi deles não é nada bom. Segundo me disseram, há muita manipulação, conspiracionismo e dados falsos nesses filmes.

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