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set12

“Esse povo precisa é de Deus, de fé”, ou “Ateus não existem”: texto divulga ateofobia sutil e leitora responde

Denúncia da leitora Marina Oliveira me levou a este texto, intitulado “O que está acontecendo com as famílias, minha gente?” e escrito nessa semana. Um trecho novamente cai no mito “dateno-russomanniano” de que a religião seria necessária para tornar uma sociedade mais ética:

E digo mais, ensinamos os nossos filhos é com exemplos e não com discursos. Crianças deste tipo, que isolam os nossos filhos por não viajarem a Disney 3 vezes ao ano, são ensinadas dentro de casa vendo os pais lidando assim com a vida.

E sabe o que eu acho? Esse povo precisa é de Deus, de fé e de olhar lá fora como estão as pessoas, a realidade, o mundo.

Dão tudo aos filhos e não dão limites e criam monstros.

E a frase onde destaquei o trecho credocêntrico é uma contradição gritante. A autora diz que a sociedade precisa “olhar lá fora como estão as pessoas, a realidade, o mundo”, mas fecha os olhos perante o fato da realidade de que as pessoas que não acreditam em Deus são vítimas de preconceito feroz ao redor do mundo – e ela está engrossando esse preconceito, ao repetir o mito de que “sem Deus não existe ética” -, ou ela sequer conhece esse aspecto da realidade.

Marina, a leitora a quem agradeço pela denúncia, respondeu nos comentários do texto, com muita propriedade:

“Esse povo precisa é de Deus, de fé e de olhar lá fora como estão as pessoas, a realidade, o mundo.”

Ateofobia…a gente vê por aqui!

E Mari BZ, outra moça que não gostou do preconceito exalado pelo texto, engrossou o coro:

Opa, tô com a Marina. Esse povo precisa de educação, valores, exemplos, empatia, respeito e mais um monte de etceteras – mas “Deus” e “fé”, para mim (e muita gente), não tem nada a ver com isso. Essa confusão de associar valores morais com religião me incomoda um bocado…
Fora isso, o post aborda uma questão bem importante e concordo com a Carol: o papel de educar os filhos para torná-los pessoas respeitosas é da família, antes de tudo.
Beijo!

Mariana, outra leitora do texto preconceituoso, também reclamou:

Esse coisa de misturar “Deus” com valores também não serve pra mim nem pra minha familia Mari. Crianças que não tem “Deus” em suas vidas podem ser crianças respeitosas, companheiras e tolerantes, tanto quanto aquelas que são criadas em familias religiosas.
 O problema não esta em ter ou não Deus mas quais valores que a familia tem (nisso também concordo com o post da Carol…)
 Mas sou obrigada a dizer outra coisa (me apedrejem, me xinguem, podem ir em frente mas sou obrigada) – no Brasil esse buraco é mais embaixo! Na minha opinião isso tem muito a ver com a falta de acesso à educação, ao lazer, à arte, à saude à todas as classes sociais. Se as crianças brasileiras frequentassem escolas publicas (de qualidade, claro), onde todas as camadas sociais estivesses representadas, o babado seria outro. E digo isso porque é isso que eu vejo aqui na França. O problema do status da roupa, da marquinha, da aparência, so chega mais tarde por aqui, na pré-adolescência (porque este ainda é um mundo capitalista). Mas durante a infância??? Nunca ouvi falar de problema parecido por aqui. Até porque de maneira geral a aparência (ao meu ver) parece contar menos aqui do que no Brasil… é preciso parecer a mais rica, a mais linda, a mais sexy, a mais antenada, a mais popular… e sempre, sempre (obvio!). E as crianças captam isso… todos esses valores que não são so das familias mas da sociedade que cerca as familias… Esta no que elas vêem na tv (ôô se esta!), no que elas lêem, nos outdoors nas ruas, nos discursos subliminares das pessoas por todo lado. Onde não ha educação publica de qualidade, nem lazer acessivel a todos, nem arte ao alcance de todos a unica coisa que pode tomar conta é mesmo o consumismo, a aparência, a exclusão. Porque em terra onde poucos tem muito, quem tem pode tudo. (ou tô viajando?)

Carol Siqueira, a autora do texto, respondeu com uma emenda pior que o soneto (grifos meus):

Olá Meninas, fico feliz demais em ler aqui tantas participações, opiniões, comentários e claro, a gente aprende sempre um pouco mais quando compartilhamos experiências.
 Esse foi um relato e até mais que isso, um desabafo. Não consigo falar de valores enquanto ser humano, amor, respeito e não falar de Deus. Deus para mim é mais que um símbolo, Ele faz parte 24h da minha vida enquanto mãe, esposa, filha e amiga. Em todos os meus passos, desde que o Paulo Neto nasceu, eu peço a ajuda Dele sempre para poder me guiar e abençoar a minha família, os meus ensinamentos que quero passar pra ele, para o meu filho.
 Se as famílias estivessem mais antenadas em Deus talvez existiria menos egoísmo, desamor e claro, preconceitos.
 Um grande abraço e muito obrigada pelo carinho de todas
 Continuo lá no FalaMamãe, OK?
 Bjos de Carol Siqueira.

Pelo visto, novamente ela atirou no próprio pé, ao lançar o paradoxo de que “se as famílias tivessem mais Deus, existiria menos preconceito”. Ou seja, quanto menos Deus, mais preconceito.

E Marina felizmente respondeu à autora:

Vc acabou de ser ateofóbica novamente! Tudo bem vc crer no seu deus e etc etc..mas não é tudo bem vc afirmar q quem não crê no seu deus não tem valores como amor e respeito e é automaticamente uma pessoa egoísta e preconceituosa!Que é exatamente o q vc faz quando afirma “Não consigo falar de valores enquanto ser humano, amor, respeito e não falar de Deus.” e “Se as famílias estivessem mais antenadas em Deus talvez existiria menos egoísmo, desamor e claro, preconceitos.”
 Se vc não consegue dissociar os seus valores morais de deus, problema seu. Abra seus olhos e veja que existem muitas pessoas no mundo q tem valores morais, como amor e respeito, SEM deus! Não acreditar em deus não faz ninguém egoísta!
 Vc está propagando um preconceito tão enraizado em vc, q nem percebe q está sendo preconceituosa!Reveja seus conceitos e pare de disseminar preconceito contra ateus!
 Como ateia e uma pessoa “não antenada com deus” nas palavras da autora, me senti particularmente ofendida com este post e especialmente com a resposta da autora nesse comentário, então sugiro q o MMQD, como um blog reconhecido, seja mais responsável na revisão dos textos publicado aqui.
 Ateofobia também colabora para um mundo menos tolerante e com menos paz e amor ao próximo!

Marina fala com total propriedade. Textos assim deixam a entender que, como a ética humana dependeria da crença em um deus específico, as pessoas que não acreditassem nessa divindade – em especial os ateus, que não creem em nenhuma – automaticamente seriam imorais, sociopatas e destrutivas por excelência. E é engraçado a autora plantar ainda mais preconceito ao dizer que “mais Deus proporciona menos preconceito”, ignorando a existência dos ateus – e, por tabela, incidindo em preconceito contra eles. E o pior, pinta um mundo onde simplesmente ateus não existem e há apenas uma religião, que é monoteísta, variando-se apenas a força da devoção de cada pessoa ao deus.

Protestos devem ser enviados aos comentários do post. Vamos lembrar, com educação, que ateus existem e são pessoas éticas em sua maioria. E assim deveríamos reagir em todas as demonstrações de preconceito contra nós.

imagrs

7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Halmenara

setembro 26 2012 Responder

Sr. Robson,

Como você pode ser ateísta e passar isso aos outros como certo?

Você teve a experiência transcendental que os deístas tem e tiveram?

Eu já fui ateísta, já passei pela sua experiência de vida, mas você não passou pela minha. Existe uma grande diferença entre atos e conseqüências, méritos e prêmios, acasos da vida (ex.: se nasci no Brasil teria que acabar falando Português e outras) do inexplicável, do pedido e do atendimento, não uma, mas incontáveis vezes. Ninguém pede para ser crucificado de ponta-cabeça em honra a um Deus que não exista. Você morreria pela sua verdade?

Tome cuidado, não só com o que você fez com a sua vida (só você é responsável por ela). Tome cuidado com o que você faz com a vida dos outros, você não conseguirá reparar erros em cadeia.

E como você gosta de consciência, não cometa o erro crasso de confundir religião com fanatismo, e ignorância, mesmo que muitas vezes elas andem juntas, nem de trabalhar para o outro lado achando que seja neutro.

A sua maneira de pensar pode ter sido planejada por outros, como a minha também, só que as metas e os princípios diferem em consequências.

http://www.youtube.com/watch?v=8_2vBhLf0xU

Halmenara.

    Robson Fernando de Souza

    setembro 26 2012 Responder

    Você de fato leu meu post e conhece meus posts sobre religião ou simplesmente veio me alfinetar por eu ser ateu e por você ter preconceito de que todo ateu é também neoateu?

Marina

setembro 18 2012 Responder

Juliana, te respondi no MMqD, mas reproduzo aqui:

Juliana, não sei pq mas não apareceu o botão de responder no seu comentário, então estou escrevendo aqui embaixo!
Não sei como é possível alguém não enxergar o preconceito contra ateus nas frases a seguir:

“Esse povo precisa é de Deus, de fé e de olhar lá fora como estão as pessoas, a realidade, o mundo.”
“Se as famílias estivessem mais antenadas em Deus talvez existiria menos egoísmo, desamor e claro, preconceitos.”

Dessas frases se entende claramente que, na opinião de quem as diz, quem não está antenado com Deus, é egoísta e preconceituoso.

Eu entendo o que talvez vc tenha querido dizer, o vocabulário no nosso país é extremamente religioso e mesmo eu, não acreditando em Deus, ainda digo frases como “Pelo amor de deus”, entre outras.
O fato é que associar valores morais bons somente às pessoas que “tem deus no coração” é preconceituoso. Pode até ser comum no nosso vocabulário, mas não deixa de ser preconceituoso..O mesmo acontece com outros tipos de preconceitos, como a homofobia. Frases como “Isso é coisa de bixa” são ditas por todas as pessoas, homofóbicas de carteirinha ou não, o fato é que essas frases não deixam de ser homofóbicas!
Poderia dar inúmeros outros exemplos de frases comumente utilizadas que exalam preconceitos como machismo, gordofobia e tantos outros.
Devemos policiar o nosso vocabulário para não sair por aí espalhando preconceitos e o pior, sem perceber.
E vc falou que ter mais deus serve também para não teístas…Sinceramente não entendo essa frase e não vejo como é possível, uma vez que eu não posso ter mais de uma coisa/entidade que eu não acredito que exista!
Dispenso sua ironia e não me considero salvadora de nada. Vítima eu fui, vítima de preconceito contra ateus, mas jamais vesti o papel da vítima coitadinha que vc quis passar.
A raiva não foi atoa..Por vc ser mulher, aposto que já foi vítima de algum preconceito (machismo) e aposto que sentiu raiva tbm. Enfim, somos todos humanos.
Uma vez que vc me deu um conselho (obrigada, por sinal), me sinto no direito de tbm te dar um. Estude/leia mais, quem sabe vc começa a enxergar os preconceitos (todos) escondidos no nosso dia a dia e nas nossas próprias atitudes.

Juliana

setembro 16 2012 Responder

Eu sei que muitas pessoas são preconceituosas e reagem mal quando alguém admite que é ateu, mas vamos ser justos esse não foi o caso.

Não vi “ateofobia” no que a Carol disse. Ela enfatizou sobre a falta educação no lares e disse brevemente, sob seu ponto de vista, que a ideia de deus é uma das formas que acha válida para mudar os padrões equivocados da sociedade (egoísmo, desamor etc.).

Não foi um texto contra os ateus. Ateofobia seria se ela xingasse os ateus diretamente, se falasse que não prestam, que devem “queimar no fogo do inferno”(rsrs, essa frase sempre me faz rir!), pregasse morte aos ateus, dissesse que o mal do mundo são os ateus etc.

Vejam, não foi isso que ela falou! Estava apenas reclamando de preconceitos que as crianças sofrem e que a culpa é da família que não educa. E mais, ela não cometeu preconceito contra quem não crê.

“Ter mais Deus”, até onde entendi do que ela falou, atinge a todos (teístas ou não) e não foi ofensivo.

Pergunto-me se essas reações a uma única frase de todo um texto não acusam uma certa mania de perseguição por parte de vocês. “Denúncia da leitora”… ai ai ai, tá parecendo mais a imprensa da minha cidade: muito barulho por nada e ainda se apegando a detalhes praticamente irrelevantes, dado o teor de todo o texto.

Caçar “ateofobismo” em qualquer coisa que se fale por aí é gerar mais o tal preconceito que vocês tanto lutam contra, e só aumenta preconceito e rejeição de ateus contra teístas. Vale a pena dar o troco? E aí, o que acham de mostrar que tem tanta ou mais moral que um crente?

Precisamos praticar o respeito a tudo e a todos, sem levantar bandeiras únicas, sem acreditar possuir a verdade em si, e principalmente sem sentir raiva à toa e sair gritando para todo mundo: “Olhem, olhem, ela usa uma pequena cruz, isso é preconceito contra mim que sou ateia! Coitada de mim!” Na boa, a “salvadora” Marina fez quase isso lá nos comentários, rsrs. Desculpe, mas achei engraçada a obstinação dela!

Abraços a todos! E para você também, viu Marina! Be cool. ;)

    Robson Fernando de Souza

    setembro 16 2012 Responder

    Juliana, desculpe, mas vc leu o post todo?

Daniel

setembro 16 2012 Responder

Ah, como eu adoro o poder da internet. Pensa só, talvez seja a primeira vez que a autora do texto esteja sendo confrontada com a ideia de que é sim se uma pessoa moral sem Deus, e que existem muitos por aí.

A reação dela foi esperada. Ninguém muda de opinião com um único comentário, mas eu apostaria que isso teve um efeito positivo, que só vai se manifestar mais tarde.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo