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set12

O parecer pró-lácteo do CRN-3 e a “ciência” que esnoba a responsabilidade ética

Imagem obtida do ViSta-se

Recentemente um parecer do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região (CRN-3) proibiu os nutricionistas de São Paulo e Mato Grosso do Sul (os dois estados sob jurisdição do CRN-3) de orientar seus pacientes a parar de consumir laticínios ou ingeri-los menos, sob pena de processo disciplinar e “penalidades previstas na legislação”. Numa explicação resumida, vaga e que ignora a existência de um debate sobre as consequências do leite e derivados para os animais explorados com o fim de produzir leite e para a saúde humana, a entidade descarta dos princípios da profissão de nutricionista a ética de respeito à vida humana e não humana.

Com toda razão, essa decisão vem revoltando vegetarianos, veganos e nutricionistas solidários a eles em todo o Brasil. Ela proíbe que o nutricionista recomende a seus pacientes o abandono ou diminuição do consumo de laticínios, mesmo usando-se argumentos cientificamente sustentados de efeitos negativos do leite na saúde humana, além de, de certa forma, ir contra um outro parecer da mesma instituição o qual reconhecia a validade da dieta vegetariana estrita para seres humanos de todas as idades. Não é à toa que vem sendo acusada de favorecer os interesses das indústrias lácteas.

Um agravante é o fato de ir tanto contra o Artigo 5º da Constituição Federal, incisos VI (liberdade de consciência) e XIV (direito ao acesso à informação), como contra os princípios fundamentais da bioética e do aperfeiçoamento técnico-científico, o dever profissional do nutricionista de “analisar, com rigor técnico e científico, qualquer tipo de prática ou pesquisa, abstendo-se de adotá-la se não estiver convencido de sua correção e eficácia” (Art. 6º, VI) e o dever de “prevenir (…) sofrimentos desnecessários a animais” (Art.19, I, interpretável como extensível ao sofrimento animal na pecuária) previstos no Código de Ética do Nutricionista.

Percebe-se que a recomendação divorcia o uso profissional da Ciência da Nutrição da ética de valorização da vida. No típico duplipensar especista, que separa o que é (supostamente) bom para a saúde do que é ético de se consumir,  o documento proíbe os profissionais de restringir o consumo de laticínios, mas ironicamente não liga os pontos entre as questões éticas do consumo de leite e seus derivados e, por exemplo, de carne de cachorro.

O parecer ignora que a Ética é inseparável da Nutrição e isso evita que o nutricionista recomendasse aos seus pacientes o consumo, por exemplo, de carne de cães espancados ou de aves mortas às pauladas caso a violência extra tornasse essas carnes mais saudáveis e nutritivas, ou de carne de bebês humanos recém-nascidos.

Em contrapartida, praticamente força a recomendação de um alimento originado de um regime de escravidão animal que implica separação forçada entre mães e filhos, exploração de mamíferas como se fossem máquinas, confinamento em pequenos espaços (em muitos casos) e matança de vacas aposentadas e bezerros economicamente desinteressantes. Isso com o agravante de não ser flexível a casos em que o paciente tem bloqueio psicológico ao consumo de laticínios.

E, ainda que sem querer, cai no mito de que os nutrientes do leite não poderiam ser encontrados em alimentos de origem vegetal ou em suplementos e assim ele seria um alimento “sagrado” ao corpo humano, contradizendo o parecer anterior pró-vegetarianismo estrito.

Os pontos 1 e 2 do documento dão essa impressão, e caem no grave erro de tentar estaticizar a Ciência da Nutrição, visto que parecem defender que o leite já foi permanente e inquestionavelmente comprovado como um alimento saudável. Isso mesmo existindo estudos que mostram que o leite aumenta as chances de câncer de ovário e de próstata;  contém a substância ácido n-glicolilneuramínico, associada com a produção de anticorpos possivelmente associados à ocorrência de doenças como hepatite, cirrose e artrite reumatoide; e pode vir carregado com hormônios como o rGBH e traços de antibióticos que podem causar reações alérgicas ou tóxicas. Ou seja, o parecer, além de autoritário e desrespeitar valores éticos, é irresponsável para a saúde humana.

Não só os veg(etari)anos revoltados com a decisão do CRN-3, mas também os próprios nutricionistas, precisam reagir com veemência, de modo que o debate sobre os riscos do consumo irrestrito de leite não humano seja retomado, o parecer seja revogado e a ética de respeito à vida seja valorizada nas decisões dos conselhos de nutricionistas e nas receitas desses especialistas.

imagrs

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vinícius h

setembro 28 2012 Responder

Essas leis de hoje em dia só querem lascar o brasileiro mesmo… agora nem com provas científicas um médico pode recomendar as pessoas de pararem de tomar leite? Daqui alguns anos, o governo vai vir de casa em casa obrigar-nos a tomar para a “saúde” da população…

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