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[OFF] Ir todo dia da zona sul do Recife à UFPE de bicicleta é impraticável

Ontem, terceiro dia meu de hobby ciclista, resolvi uma dúvida que eu tinha há anos: é possível ir regularmente da zona sul (Boa Viagem, Ipsep, Ibura, Jordão, Imbiribeira) até a UFPE de bicicleta? Possível é, e a distância nem é lá proibitiva para quem tem um condicionamento físico razoável. Mas é impraticável, porque cada dia de ida e volta de bike pela Avenida Recife seria uma aventura arriscada e bastante perigosa.

Pedalei ontem (e andei em pequenos trechos de aclive) uma distância que não imaginava percorrer em apenas três dias de ciclismo-hobby: 19,7km, do Ipsep até a UFPE e vice-versa, incluindo arrodeios n bairro de Areias. Originalmente eu pretendia retornar na altura de Areias e me dirigir a Boa Viagem, mas chegando no destino pretendido eu decidi continuar e perder muito mais calorias que talvez perdesse no caminho originalmente imaginado. Era um desafio para quem, até segunda-feira passada, tinha o sedentarismo como costume. Era um ponto sem retorno: não podia parar no meio do caminho e pegar ônibus por cansaço, e para engrossar esse compromisso de ir e voltar tudo de bike, não levei nem um centavo no bolso.

A ida foi uma aventura bem arriscada. Numa avenida (Av. Recife) sem qualquer espaço para bicicletas, tive que ir sempre no cantinho direito, a poucos centímetros do meio-fio, para não levar “strike” de algum carro ou moto que desse uma de bola de boliche. Algumas vezes eu era obrigado a subir a calçada porque tinha um carro estacionado no meio do caminho por onde os ciclistas deveriam passar – mas, por grande sorte, todo carro parado no meio do caminho era precedido e sucedido por desníveis na calçada, o que possibilitou que a bicicleta subisse sem eu ter que descer dela e carregá-la.

Uma outra dificuldade, essa enfrentada em todos os três dias de pedalagem, foi a presença de aclives (ou “ladeirinhas”) pelo caminho. A Av. Recife tem pelo menos três subidas (Ponte do Caçote, Viaduto Ulysses Guimarães e ponte sobre o metrô de superfície) no sentido norte e quatro no sentido sul (ponte sobre o Canal Guarulhos, trecho entre o posto Total da Estância e o topo da ponte sobre o metrô, viaduto e Ponte do Caçote). E já desisti de andar pela Av. Dois Rios, no Ibura de Baixo, por ser uma avenida bem inclinada, pelo que vi no Google Earth. Aclives são uma dificuldade enorme para ciclistas iniciantes que não têm força e resistência suficiente nas pernas para vencê-las todas. E isso me faz pensar que ciclovias ideais para uma cidade não tão plana – mas de relevo não tão acidentado – seriam como ferrovias: niveladas, com subidas e descidas de ângulo tão agudo que não demandariam tanta força extra para os ciclistas.

Adiante, depois de uma descida prazerosa na ponte do metrô, me deparei com outro problema sério de mobilidade: os rombos no acostamento da avenida. No sinal do cruzamento com a rua Nossa Senhora de Fátima (a rua do Posto Total da Estância), o canto direito da via parecia uma trilha off-road, que talvez nem motocross aguentasse por muito tempo. E os rombos continuavam no trecho “rodovia” da Av. Recife, entre o Canal Guarulhos e a BR-101. Crateras que mais pareciam vales obrigam os ciclistas e os pedestres cadeirantes a irem para a pista e correrem risco de atropelamento.

E outra questão que torna uma ida da zona sul à UFPE muito arriscada são as bifurcações – seis no sentido norte do complexo de viadutos entre as avenidas Recife e Abdias de Carvalho e as BRs 101 e 232 e quatro no sentido sul. Atravessá-las é um perigo, e os carros e caminhões que entram ou saem delas não dão qualquer preferência a pedestres e ciclistas. É análogo a um jogo de aventura em que você tem que cruzar um rio de correnteza forte pulando nos troncos que vêm e vão, sob o risco de cair na corrente e perder uma vida. Só que o “jogo” de atravessar essas entradas e saídas põe em jogo vidas de verdade e únicas.

Foi uma complicação cruzar especialmente a entrada e a saída da BR-232 na pista norte e o encontro entre a pista norte da BR-101 que vem da Av. Recife e a via norte da rodovia que desce do viaduto por cima do final da Av. Recife. Esse último foi o mais complicado para atravessar, tive que depender da compaixão de dois motoristas para poder atravessar.

E outra complicação foi entrar na UFPE pelo girador da reitoria. Tive que correr o risco de atropelamento, passando rápido enquanto os carros, de um trânsito cada vez mais intenso naquela hora, ainda estavam distantes de se “encontrar” com minha bicicleta.

E o sentido da volta foi de dificuldades ainda maiores. Já era noite, havia o risco de a poluição luminosa fustigar a vista, e a pista sul da BR-101 é um perigo para ciclistas e pedestres que atravessam rumo à Av.Recife. Além disso, havia os já citados aclives, que tornam a pedalagem bem mais dura em termos de requerer força das pernas. Em cada subidinha, tive que descer da bicicleta, carregá-la no meio-fio e subir nela quando o aclive acabasse. Se aclives são pesados para quem está com disposição, imaginem para quem já andou mais da metade de um percurso longo. E tive que entrar na Av. Estância, em Areias, e retornar à Av. Recife pela Av. José Rufino – onde novamente corri risco de atropelamento ao tentar atravessar -, para evitar subir o viaduto, algo perigoso para quem está a pé carregando uma bicicleta.

E isso sem falar nas fogueiras ao lado da pista, que levantavam cortinas de fumaça que sufocam qualquer ciclista.

A viagem em si foi arriscada demais para que se crie o hábito de ir daqui de casa à UFPE e voltar de lá de bicicleta. E dá mais uma vez a lição de que o sistema viário do Recife não foi feito para ciclistas, nem mesmo para pedestres. Aqui, assim como em diversas outras cidades, é uma ditadura automotiva, onde ciclistas e mesmo pedestres correm risco de morte quando questionam o sistema a ponto de preferirem andar ou pedalar a usar carros, caminhões e ônibus.

E isso me faz chegar à conclusão de que não é praticável, embora seja possível, ir e voltar de bike da zona sul à UFPE. A ditadura automotiva proíbe isso. E para isso mudar, os ciclistas precisam continuar se engajando, e seu número aumentando apesar da falta de acessibilidade reinante na cidade.

Isso deve ser levado em consideração por todo o eleitorado que vai às urnas no próximo dia 7. Quem faz pouco caso dos direitos dos ciclistas e pedestres não merece nosso voto.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

li

novembro 17 2012 Responder

olá, robson. morei 10 anos em recife e acho que sei do que você tá falando. você foi, aliás, muito guerreiro em ter encarado esse desafio. quando vou a recife visitar minha família, fico horrorizada com a precariedade do transporte público (vi o post reblogado pela lola em que você fala disso).apesar disso andar de bicicleta nem tinha me passado a cabeça porque nunca me pareceu viável para distâncias médias ou grandes. no rio de janeiro, onde moro, o transporte público também é cada vez mais caro e deficiente, uma vez que o trânsito é cada vez pior. atribuo isso, em parte, ao fato de cada vez mais pessoas estarem adquirindo carros. apesar de não percorrer distâncias muito grandes, chego a passar horas por dia dentro de um ônibus.

excelente blog, o seu!
um abraço,
livia

    Robson Fernando de Souza

    novembro 17 2012 Responder

    Obrigado, Livia =) Abs

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