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[OFF] Os dois primeiros dias de um ciclista novato

Não tenho asas, mas tenho uma bicicleta.
Não posso voar, mas posso pedalar.

Já abordei aqui no Consciencia.blog.br, uma vez, o tema do ciclismo urbano como transporte casual e/ou hobby. Mas até esta semana eu nunca havia experimentado os prazeres e riscos de ser um ciclista numa cidade como o Recife. Apenas ontem e hoje eu tive o prazer de andar de bicicleta pela zona sul da cidade. E faço questão de relatar como foram esses dois primeiros dias de hobby ciclista.

Nessa semana antes do retorno às aulas noturnas na UFPE, tenho pedalado entre 16h30 e 18h20 (ontem foi entre 17h05 e 18h00), e venho sentindo na pele as dificuldades que um ciclista casual enfrenta todos os dias numa cidade dominada por políticas que privilegiam o transporte individual motorizado e faz pouco caso do transporte público e das alternativas não motorizadas.

Ontem percorri as ruas do Ipsep Velho (ao norte da Av. Jean Emile Favre) e a Avenida Recife até o Hiper Bompreço, em Areias, retornando de lá até o Ipsep (bairro onde moro). E hoje percorri a Av. Mascarenhas de Morais e o começo da Estrada da Batalha, retornei pela Mascarenhas e fui à praia de Boa Viagem via Rua Joaquim Bandeira, retornando pelo Castelinho e pela avenida do canal, a Ribeiro de Brito e o viaduto rumo ao Ipsep.

Passei por algumas dificuldades nesse caminho – à parte o condicionamento físico, que foi até bom para alguém que acabou de começar a andar distâncias quilométricas de bicicleta. A mais notória de todas, claro, é a quase total falta de ciclovias e ciclofaixas nas artérias da cidade. Tive que me arriscar atravessando vias de acesso onde carros costumam entrar em velocidade relativamente alta, fazer manobras para evitar arranhar carros ou bater em seus retrovisores e passar por cantos muito estreitos entre o carro e o meio-fio, e redobrar a atenção em encruzilhadas e esquinas.

Sem vias reservadas para ciclistas, estes tendem a ser cidadãos de segunda classe numa cidade que é império dos carros e motos e oprime os ciclistas apagando ciclofaixas e fazendo ciclovias cujo traçado malfeito atende aos interesses dos motoristas (caso da Av. Boa Viagem). Corre-se constantes riscos como o de acabar esbarrando e quebrando retrovisores – e ser obrigado a pagar seu conserto -, arranhar carros com o guidom ou o pedal – e também ser obrigado a pagar o reparo -, tropeçar e cair em bueiros no meio-fio e mesmo ser atropelado. E a maior parte dos principais candidatos a prefeito (exceto talvez Daniel Coelho) tratam o tema com desleixo.

Outro problema sério enfrentado nas duas pedaladas foi a poluição, em diversos formatos: atmosférica, sonora e luminosa. É complicado andar de bicicleta com um monte de luzes fortes – dos carros, dos postes e dos estabelecimentos do outro lado da calçada – irradiando em seus olhos, cheirando fumaça de centenas de automóveis que passam por você e sendo submetido aos mais incômodos barulhos – desde carros de som até caminhões de motor escandaloso. E isso interfere seriamente na concentração que os ciclistas precisam ter na sua já complicada aventura nas avenidas da cidade. Em certo momento minha vista estava afetada com tanta luz na cara, mas por sorte isso aconteceu quando eu estava na ciclovia da praia de Boa Viagem.

No mais, havia obstáculos, mas pude superá-los com prazer. E foi o mesmo prazer que me fez adorar pedalar e adotar isso como meu mais novo hobby. É com a bicicleta que poderei, de graça, ir até confins aonde eu não pensava em ir, à medida em que meu condicionamento físico evolua. E, quem sabe, ir e voltar da UFPE e assim desonerar enormemente os gastos mensais com transporte. Como pus nos pequenos versos no começo deste post, a bicicleta é minha asa improvisada, e pedalar me requer talvez proporcionalmente a mesma energia que o voo requer a um pássaro. E me abre um enorme horizonte novo, onde poderei, num futuro próximo, andar em trilhas, em passeios mais longos a lugares mais distantes, em Bicicletadas e em algum grupo de passeio ciclístico que atue na cidade.

E desde já estou fazendo parte da massa crítica que defende com afinco a valorização do transporte ciclístico e dos pedestres, hoje ainda marginalizados pelas políticas urbanas de mobilidade.

À medida em que eu for me aprofundando nessa nova vida de ciclista – que eu espero sinceramente que não seja interrompida pelas aulas na UFPE nem pelo(s) futuro(s) emprego(s) -, poderei trazer por aqui mais relatos sobre as dificuldades de se andar de bicicleta no Recife.

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