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Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: avanços da ciência X (o espantalho da) religião

A mais nova imagem antirreligiosa de lógica questionável é essa abaixo:

A figura mostra que teoricamente nada avança com o tempo nas religiões, ao passo em que a ciência (que, embora seja irmã da tecnologia, foi cruamente confundida com esta na imagem) vivencia grandes transformações. É uma comparação que promete arrasar com as religiões e seu alegado anacronismo.

Mas tem alguns problemas nessa comparação:

a) As religiões não se propõem a substituir a ciência e a tecnologia em grande parte das questões em que estas duas se engajam. Muito menos propõem ocupar o espaço da tecnologia. A comparação entre o culto religioso e a tecnologia espacial se faz inválida, sustentada numa falácia do espantalho que cria o falso argumento de que as religiões querem abolir ou substituir a tecnologia;

b) Ao contrário do que a imagem diz, religiões podem sim mudar. As reformas religiosas clássicas (Concílio de Niceia, Reforma Protestante, Concílio Vaticano Segundo etc.), a ascensão dos Novos Movimentos Religiosos, os sincretismos, os tantos cismas minoritários e majoritários sofridos pelas religiões organizadas, a incorporação de aspectos (pós-)modernos por religiões pagãs etc. não me deixam mentir. Da mesma forma, mesmo que por intervenções externas, os códigos morais religiosos estão se transformando para algo mais humanista do que no passado de séculos atrás. Se religiões não mudassem, ainda hoje estaríamos venerando os mesmos entes sobrenaturais em quem os seres humanos do Paleolítico veneravam.

c) Nesse compasso, a imagem falha em atestar estaticidade absoluta até mesmo nos próprios cultos religiosos. Por exemplo, uma pintura de uma missa católica no Brasil no século 17 será algo radicalmente diferente de uma dum templo da Renovação Carismática Católica no século 21. Dentro desse período, diversos aspectos dos cultos católicos mudaram: os negros deixaram de ser rejeitados nos cultos (eram considerados seres humanos “sem alma”), os cultos totalmente em latim deixaram de existir (pelo menos na maior parte do Brasil), cada fiel pode hoje carregar uma bíblia ao seu templo, virtualmente não há mais incitação à discriminação de negros e judeus nas missas, há padres de ideologia progressista ministrando missas que em parte podem até se tornar aulas etc.;

d) E apesar de tudo isso, as religiões não se propõem a mudar uma realidade, tampouco de lhe trazer progresso, nem a mudar a si mesmas com o tempo, ao contrário da ciência e da tecnologia. Promover mudanças não é função da religião, e sim das ciências e tecnologias – e nisso, exceto nos fundamentalismos, ambas não se excluem, mas sim se complementam em manter a sociedade em funcionamento, com ou sem progresso. A ciência, ao menos teoricamente, trabalha para trazer benefícios, inclusive tecnológicos, à sociedade, e a religião provê assistência espiritual e fundamenta os inúmeros significados intrínsecos àquela cultura.

Essa dicotomia “ciência X religião” só funciona nos fundamentalismos religiosos e irreligiosos, não fazendo sentido quando a religião age com lucidez e/ou em equilíbrio com as demais crenças e descrenças e com a ciência e tecnologia. Quando usada por ateus, nos faz correr o risco de passarmos por tão fundamentalistas quanto os religiosos fanáticos.

imagrs

4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

ejedelmal

outubro 21 2012 Responder

a) As religiões pretendem que nada mude, pois é necessário para o método “comando e controle”. Se a tecnologia as incomoda, dizem que é Capêtica. Basta dizer que Bagdad foi o centro cultural de 800 a 1100, depois um califa decretou a matemática “coisa do demônio”. Agora, se a ciência as ajuda, chegam a ignorar suas origens. Basta dizer que o Windows é propriedade de um ateu, e o computador foi inventado por um homossexual.

b) As religiões só mudam para permanecerem as mesmas. Exigência do método “com ando e controle”. Senão morrem, como aconteceu com duas levas de mitologias gregas (titãs e Olimpo). Os sincretismos são conquistados pela população quando resolvem mudar de cultura por conta própria, deixando a igreja sem terreno firme para erguer templos. Em decorrência disso, costuma-se valorizar candomblé, espiritismo, maçonaria, cabala, wicca, ou qualquer coisa com filão transcendental, tirando a água com balde para que a nau não afunde.

c) Se não fosse a onda de humanismo dos intelectuais, que se seguiu após a reforma e a contrarreforma, não existiria a folhinha de parreira cultural, pois até então não haviam nus pintados nas igrejas. A Capela Sistina é prova que a igreja teve a revolução cultural da época empurrada goela abaixo. Ah sim, ainda não há negros na bíblia, isso porque eles foram criados a posteriori, sem pecado (por isso não podem ter almas, hmmm).

d) Realmente, as religiões não se propõem a mudar uma realidade, tampouco de lhe trazer progresso, nem a mudar a si mesmas com o tempo. Mas há padres (como Paulo Ricardo) e pastores (como Silas Malafaia) que se propõem a pregar o ódio à mudança, nem que tenham de repetir frases inteiras de Anders Breivik contra os direitos ao aborto, à eutanásia, os direitos dos homossexuais e a frequente e espontânea mudança de cultura. Numa palavra, “NAZISMO”.

pt

outubro 19 2012 Responder

“as religiões não se propõem a mudar uma realidade, tampouco de lhe trazer progresso” … RESUMO: As religiões servem para PORRA nenhuma ! HAHHAHAHA servem apenas para BARRAR o progresso promovido pela ciência/tecnologia(quer um exemplo ? Células tronco).

“Ao contrário do que a imagem diz, religiões podem sim mudar.” mas os seus DOGMAS continuam os mesmos.

A imagem faz sim todo o sentido.

Como já dizia Sêneca, “A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa e pelos governantes como útil.

PAblo

outubro 18 2012 Responder

Muito bom o blog. Estão de parabens pela atitude.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 18 2012 Responder

    Obrigado, Pablo =)

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