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[OFF] Por que eu prefiro ser um torcedor de futebol fraco e sem seleção nacional

Ter um time preferido mas não um “time do coração” evita situações como essa, em que a alegria da vitória de alguns momentos é paga com a melancolia da derrota em tantos outros.

Aviso: Este artigo é muito polêmico, mexe com uma das grandes paixões dos brasileiros: torcer por um “time do coração” nos campeonatos e pela Seleção Brasileira nas copas.

Sou torcedor do Sport Club do Recife, mas definitivamente não sou um torcedor apaixonado, que se enche de euforia quando o time ganha um título nacional e enlouquece de raiva e/ou tristeza quando ele está numa sequência de resultados desastrosos e a caminho do rebaixamento no Campeonato Brasileiro. E já fui apegado à Seleção Brasileira, mas hoje não sou mais adepto de nenhuma seleção nacional – ou seja, copa do mundo para mim é apenas um programa de entretenimento. E comento aqui por que considero que isso é muito melhor para mim e o seria também para a sociedade como um todo.

Em suas primeiras décadas, o futebol era um esporte de apreciação familiar, a cujos jogos as pessoas iam com cônjuge e filhos para uma diversão em família. Era um programa saudável para as horas livres e dias de folga, tanto quanto jogar baralho com amigos ou participar de uma pelada no campo de várzea ou na praia. Mesmo quando o time preferido perdia, a diversão e a descontração eram garantidas. Mas, a partir de certo momento, talvez na segunda metade do século 20, o futebol masculino adulto nacional (siglado neste texto como FMAN) virou um exaltador de paixões fortes e violentas demais.

Hoje grande parte dos apreciadores de futebol nacional vão a campo, no caso do FMAN, não para se divertir e curtir a vida, mas para jogar a sorte com suas emoções – explodir de alegria ou sofrer literalmente, pelo menos em jogos considerados decisivos. A alegria eufórica de alguns momentos, das épocas de glória, títulos, destaque nacional e internacional etc., tem o alto preço, cobrado cedo ou tarde, da tristeza deprimida de outros, quando as derrotas, eliminações e rebaixamentos se tornam comuns.

Não se vê mais o FMAN com o espírito lúdico do passado, que encara a derrota do time preferido com a frase “Pelo menos o jogo foi divertido, me entreteve e me fez esquecer os problemas por 90 minutos”. Ele hoje é visto como uma verdadeira competição “militar”, em que cada jogador é um soldado, cada time é um exército, cada clube é uma nação a ser defendida a ferro e fogo, cada jogo é uma batalha sangrenta e cada campeonato é uma guerra de nações todas contra todas.

E tal como acontece em países de cultura nacionalista e militarista em relação a seus exércitos, as vitórias são comemoradas com euforia, empates em excesso são lamentados com alguma tristeza e as derrotas, quando frequentes ou acachapantes, são respondidas pelos concidadãos dos “soldados” com algo semelhante a uma revolta popular, como se estivessem cobrando do presidente ou rei da nação uma ordem do tipo “Ou respeita nossa pátria ou vamos depô-lo com uma revolta armada”. E muitas vezes a insurreição é literal, com direito a quebra-quebra de patrimônio público, do clube ou privado.

Nisso, ter um “time do coração” significa não escolher um time que diverte e encanta mais as horas livres das pessoas, com as melhores jogadas, o melhor desempenho em campo, os jogadores mais habilidosos (e/ou bonitos, para muitas mulheres e homens). Mas sim ter uma religião secular muitas vezes fanatizadora, uma segunda “pátria”, ao lado da brasileira, a cujos símbolos venerar e à qual dedicar os extremos emocionais positivos e negativos da sensibilidade da alma.

E nisso está incluído o apego à Seleção Brasileira, a qual, tal como qualquer time, tem momentos de apogeu e de perigeu, mas por sua vez tem o nada saudável aditivo da emoção patriótica. “Dar a alma” pela seleção durante as copas muitas vezes dá a ilusão de que, porque ela venceu a copa, o Brasil se tornou um país melhor para seus habitantes ou uma nação superior às outras duzentas existentes no mundo. No mais, torcer freneticamente para a seleção, além de também vulnerar nosso emocional aos mesmos extremos de excitação frenética e tristeza derrubadora, nos ilude momentaneamente com a sensação de que ganhar a copa implica vivenciar desenvolvimento social.

Em suma, o futebol mainstream perdeu sua ludicidade, não diverte mais. Virou um catalisador de sentimentos extremos, que em alguns momentos dá euforia mas em outros deprime. E algo que eu pessoalmente considero um verdadeiro absurdo é um esporte deprimir, entristecer, influenciar sentimentos de raiva e até mesmo fúria, cobrar com a tristeza pelos momentos de alegria intensa, destoar de sua essência de entreter, alegrar e encantar nossos olhos.

Por tudo isso eu digo que não tenho um time do coração, embora torça precariamente pelo Sport, nem torço mais pela Seleção Brasileira. Praticamente vejo o FMAN da mesma forma que o futebol feminino, júnior e/ou internacional – como algo que me diverte e me faz aproveitar bem algumas horas livres, longe de me incitar a felicidade ou a melancolia. Aliás, se todos os apreciadores de FMAN pelo mundo pensassem assim também, as civilizações ocidentais seriam, à parte os problemas sociopolíticos, mais de bem com a vida e até mesmo menos violentas, já que as torcidas parariam de brigar e de encarar as derrotas com tristeza ou raiva.

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Jesiel

outubro 11 2012 Responder

Eu, como cidadão consciente, me oponho a qualquer manifestação do futebol como forma de entretenimento, não como esporte. Acho que futebol é mais uma arma do Estado alienante contra as populações. É só parar pra ver que a maioria dos brasileiros bate no peito pra falar com orgulho das copas vencidas e não para pra criticar o quanto a educação está perdida.

Além disso, há uma certa imposição cultural quanto a esse negócio de ter time. Em uma roda de pessoas desconhecidas sempre rola a pergunta “qual é seu time?”, e quando respondo que não tenho, que não gosto de futebol, as piadinhas “você não é brasileiro!”. Gosto, nesse caso social, de afirmar bem minha posição e fazer minhas críticas agindo de forma contra-cultural.

Se pensar em copa do mundo então, acho ridículo. Ridículo o país “parar” pra apreciar o evento. Acho até certa aberração que órgãos públicos e universidades públicas decidam parar suas atividades em virtude dos jogos. Acho que essa cultura deve ser questionada, sempre, e quem tem o senso crítico mais desenvolvido deve opor-se a ela negando-a não demonstrando apreço por equipe nenhuma de futebol.

Aqui no interior de São Paulo, onde vivo, posso dizer que pelo crescimento da “cultura nerd” o número de jovens que não têm time só tem aumentado. Acho que dos meus amigos apenas um se diz torcedor, pra minha alegria.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 11 2012 Responder

    Aí é que tá. O problema de o futebol ter o efeito de alienar é mais pela paixão por “times do coração” do que pelo esporte e suas regras. Se todo mundo visse o futebol masculino adulto tal como vê o futebol feminino ou o basquete brasileiro, essa alienação ocasionada pelo futebol não seria patente. (ou então outro esporte teria o atributo de alienante de massas)

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