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nov12

A distorção do veganismo pela mídia tradicional que o vem “divulgando”

O veganismo costuma ser retratado pela mídia como uma “seita esotérica” cujo princípio de combate à escravidão animal nada mais fosse do que um valor religioso desprovido de fundamentação factual e objetiva.

O veganismo vem sendo cada vez mais divulgado pelos meios de comunicação jornalística tradicionais – revistas, jornais, telejornais e noticiários de portais online. Muitos comemoram essa divulgação, que tira da obscuridade e da estigmatização preconceituosa aquele modo de vida encarregado de (ajudar a) promover a justiça para os animais não humanos. Mas até onde podemos comemorar essa propagação midiática do modo vegano de viver e ser ético?

A atenção dos holofotes ao veganismo e aos veganos é algo positivo, por revelar aos onívoros quem somos nós e uma (pequena) parte do que pensamos. Mas isso, por outro lado, não só vem tendo efeitos muito limitados sobre aquilo que realmente deveria ser focado – a necessidade da libertação animal – como tem mostrado a questão vegano-abolicionista de uma forma distorcida que ofusca a visão dos onívoros sobre ela. Isso por causa de um vício universal à mídia: mostrar o veganismo como um fim em si mesmo meramente subjetivo, e não como o meio essencial – ou, melhor dizendo, um dos meios essenciais – para um fim evidentemente objetivo.

Em outras palavras, o veganismo está sendo cada vez mais divulgado pelo jornalismo tradicional, mas sempre com ares de uma seita religiosa, de um movimento espiritualista dotado de crenças, valores e significados próprios cuja adoção seria uma mera opção a ser aceita ou recusada com base nas crenças de cada indivíduo. Quando se lê uma reportagem assim, fica aparente que a nossa preocupação com a escravidão animal é tão subjetiva, individualizada e de foro íntimo e espiritual quanto, por exemplo, a interpretação de uma poesia metafórica ou a noção que cada indivíduo cristão tem sobre o que é ou não é pecado.

Em todas essas matérias, sem exceção até o dia em que este artigo foi escrito, o onívoro que não sabia o que é veganismo “aprende” que:

a) Os veganos são apenas mais uma subcultura, mais uma entre tantas tribos urbanas;
b) Tal como se vê ao se comparar religiões, a coerência em ser vegano é a mesma que em não sê-lo, portanto deve-se respeitar o consumo vegano tanto quanto o ato de comer animais;
c) A exploração animal é apenas uma noção subjetiva, típica das “crenças” veganas, sem implicações objetivas e factuais sobre os (não) direitos de outrem;
d) A noção de que o ser humano não tem o direito de tratar os animais, humanos ou não, como sua propriedade é tão espiritual, subjetiva e opcional quanto a de que Jesus morreu na cruz para salvar a humanidade e por isso deve ser adorado, ou a de que seguir o caminho recomendado pelo budismo é importante para encerrar o ciclo de reencarnações e sofrimento;
e) O veganismo faz bem muito mais ao próprio ser humano, espiritual e fisiologicamente falando, do que ao propósito do combate à escravidão animal;
f)  Os benefícios do veganismo ao ser humano, entre eles incluídos a melhoria da saúde do indivíduo e o acesso à culinária vegana, são muito mais relevantes para serem levados em consideração do que a causa (Direitos Animais) a que esse modo de vida serve;
g) Ser vegano é ser alternativo, é ser “cool”, é ser “o rebelde da hora” e assim ganhar o respeito dos membros de sua “tribo urbana”, é estar por dentro da tendência do momento, pouco tendo a ver com estar se dedicando à oposição a atividades econômicas essencialmente sanguinárias.

Fac-símile de trecho de reportagem sobre veganismo publicada por uma revista de médio porte. Sua abordagem coloca o veganismo como uma espécie de grupo iniciático regido por normas rígidas sobre o que “pode” e “não pode”.

Em se falando de escravidão animal, aliás, é mais que visível que essa problemática quase não é divulgada de forma objetiva e factual pela mídia tradicional. Quando é, o é de duas formas: ou de forma superficial e demasiadamente básica, geralmente resumida a uma ou duas frases sobre a “crença” dos veganos de que os animais não humanos têm o direito de não serem tratados como propriedade, ou através da divulgação bem-estarista de fatos sobre a situação dos animais explorados em fazendas-fábricas, granjas e fazendas tradicionais.

Nisso, até o momento, nunca se falou nessas reportagens, como fato objetivo, que a raiz de todas as violências utilitárias contra animais é o especismo, a arrogância do ser humano de se autointitular um “ser superior” que teria o direito divina ou naturalmente outorgado de dominar, objetificar, escravizar e massacrar todos os demais animais.

Isso gera um contraste interessante: muitas vezes a mídia transmite com clareza a ideia de que o ideário homofóbico é responsável direto pelos assassinatos de lésbicas e gays nas ruas das cidades brasileiras, mas tem sido incapaz de revelar que o especismo é a base ideológica de todas as violências promovidas, com ou sem fins utilitários, contra os animais não humanos. Mostrar que as economias e leis nacionais ao redor do mundo legalizam N formas de violência contra os animais – e, por isso, os Estados hoje nada fazem contra as formas mais comuns de exploração animal – então, nem em sonho.

Tampouco essa imprensa convencional tem mostrado aquilo que para muitos já é óbvio: que, diante desse cenário existente de escravização, tortura e matança legalizada de animais, o veganismo nada mais é do que parte da solução para mudar essa situação, um dos meios necessários para o alcance do grande fim que é a libertação animal, longe de ser um fim em si mesmo que surgiu para dar saúde, alegria de viver e identidade grupal a pessoas.

Em se falando de ser um meio para um fim maior, as reportagens sobre veganismo omitem uma outra informação crítica: a de que o veganismo é apenas o meio básico a ser adotado junto a diversos outros meios possíveis para, em conjunto, promover a abolição do escravismo animal. Em outras palavras, é o mínimo a ser feito em prol do combate às implicações do especismo, ainda que isoladamente nada possa fazer contra o especismo propriamente dito.

Uma reportagem que realmente se desse ao respeito, ao invés de propagar o veganismo como algo análogo a um movimento espiritualista e “bom para o ser humano”, mostraria didaticamente a essência da escravidão animal e o especismo enquanto raiz ideológica da mesma, ambos sendo retratados como problemas a serem lidados e combatidos até a erradicação por todas as pessoas, não apenas por vegetarianos e veganos.

E só mais adiante descreveria o veganismo, enquanto a principal de uma série de soluções a serem adotadas em série; suas implicações primárias sobre a problemática da exploração animal; as maneiras mais adequadas de como viver uma vida vegana e, apenas depois disso e opcionalmente, seus benefícios diretos à saúde e vida social do indivíduo humano. E nada de estipular regras do tipo “pode/não pode”.

Depois da abordagem do veganismo, seriam descritas as formas coletivas de se lutar pelos animais a serem adotadas – não obrigatoriamente todas ao mesmo tempo pela mesma pessoa – juntamente ao veganismo, como protestos; panfletagens em espaços públicos; confecção de livros, documentários, blogs e sites sobre a necessidade da libertação animal; objeções de consciência; pressões políticas (este em caso de ainda haver esperanças no sistema político representativo partidário); ações diretas e alianças com outros movimentos emancipatórios (negro, feminista, LGBT, ambientalista, camponês, indigenista, anarquista, trabalhista etc.).

Mas querer isso da mídia convencional, conservadora que ela é, é desejar demais. Não há nesses veículos de comunicação qualquer pretensão de mudar a ordem social vigente, o status quo, a situação de desigualdade social e moral. Pelo contrário, vêm servindo historicamente de instrumento da elite econômica – nela incluídos os pecuaristas, fazendeiros de grãos para forragem animal, empresários da indústria ovolactofrigorífica e barões da pesca industrial, elite essa que é aliada com os proprietários das grandes empresas comunicacionais, para alienar as classes sociais abaixo dela e convencê-las a continuar lhe dando dinheiro desnecessariamente. Isso se esses mesmos proprietários já não são também exploradores de animais e/ou latifundiários da monocultura que abastece granjas industriais e fazendas-fábricas.

É interessante a essa elite, descompromissada com a emancipação humana, não humana e da Terra, que o veganismo seja sempre pintado como uma tribo urbana exótica que funciona parecido com uma religião oriental, e o abolicionismo animal a ele associado, como nada mais do que uma corrente filosófico-espiritual dissociada de fatos reais e materiais. Lhes interessa que o veganismo continue sendo “divulgado” desligado de seu fim e objetivo essencial, a luta contra a escravidão animal, como um fim em si mesmo que nada tem a ver com ser um meio para um fim ainda maior.

Infelizmente ainda é cedo para esperarmos que o veganismo seja mostrado na imprensa tradicional como aquilo que realmente é – a maneira mínima, individualmente possível, de o indivíduo combater a exploração animal, a ser adotada juntamente com formas coletivas de mobilização, em vez de como a “tribo esotérica de valores subjetivos” que vem fazendo a “moda de consumo” do momento. E provavelmente não veremos essa correção enquanto não houver a muito sonhada democratização dos meios de comunicação e, assim, a mídia continuar sendo um cartel mantido por empresários aliados dos grandes exploradores de animais.

imagrs

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Vinícius

novembro 1 2012 Responder

E sempre no finalzinho das reportagens tem que haver a advertência estúpida e ilógica a respeito dos benefícios da carne, lacticínios, ovos, etc, E de que como é difícil parar de consumí-los…

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