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nov12

As depredações nas obras de Belo Monte são a expressão da revolta dos brasileiros

Alojamento de canteiro de obras de Belo Monte destruído por insurretos. Fonte: Xingu Vivo

Os ataques de depredação aos canteiros de obras, em junho e em novembro, da famigerada Usina de Belo Monte aconteceriam cedo ou tarde. Elas expressam não algo do tipo “a delinquência de um grupo de vândalos que não têm o que fazer”, mas sim nada menos que a revolta do povo brasileiro, seja ele indígena, negro ou branco, contra todas as decisões antidemocráticas dos Três Poderes que ignoraram a voz da sociedade e decidiram pela continuação da hidrelétrica que promete matar a Volta Grande do Xingu e seus povos indígenas e comunidades tradicionais, assim como contra a opressão trabalhista infligida pelos patrões responsáveis pela chefia da construção da mundialmente repudiada usina.

Diversas derrotas populares na “Justiça”, que ignorou todas as evidências de que a usina violou, em suas fases de pré-construção, a Constituição, convenções internacionais e as leis ambientais e vai promover violações dos Direitos Humanos e ambientais quando avançar em sua construção, além da recusa das empreiteiras de dar condições de trabalho aos operários – numa contradição bastante dialética que soma as revoltas de quem quer BM parar e daqueles que estão justamente construindo a usina –, não poderiam dar em outra coisa. Um dia a bomba iria estourar.

Se não se conseguiu parar o Belo Monstro por vias legais, que eram viciadas pelos interesses privados das empreiteiras, das mineradoras e das siderúrgicas privadas cujo empresariado é aliado do Governo Dilma, bateu o sentimento que impulsiona revoluções: o misto de desespero com revolta.

Desespero pelos fatos de que os indígenas que habitam a Volta Grande vão lutar até a morte tão logo seu sagrado rio comece a secar e que inúmeros quilômetros quadrados de área florestal serão destruídos para sempre. Revolta porque o Estado continua fazendo ouvidos moucos aos emocionados apelos populares para que a obra seja embargada e cancelada e o Xingu, restaurado, além de negligenciar o aumento da violência, da exploração sexual e da favelização em cidades como Altamira.

Somou-se a isso a exploração dos trabalhadores obrigados a construir aquele que é um monumento ao desenvolvimentismo predatório, antissustentável e concentrador de renda. Salários baixos, condições de trabalho abaixo do desejável e a recusa dos patrões de atender às suas reivindicações oprimem os operários. Cansados dessa exploração a que são submetidos há meses e de não serem ouvidos, também foram acometidos pelo misto de desespero com revolta.

Já que parece não haver mais jeito de parar a obra com base na lei ou de obter sob meios pacíficos o atendimento a reivindicações populares, recorreu-se, revoltada e desesperadamente, ao último recurso: a desobediência civil, a violação consciente das leis que protegem da destruição aquilo que é considerado propriedade privada.

Então, dois grupos de insurretos e desobedientes civis, um de ativistas indígenas e não indígenas e outro de operários, recorreu ao último recurso, em dois momentos distintos do ano: usar a violência material, danificando os canteiros de obras, para impedir que a usina avance. Só assim, caso as depredações persistam a cada vez em que as instalações dos canteiros forem restauradas, a demanda da população poderá ter o mínimo de chance de ser ouvida.

O primeiro resultado apareceu nessa semana: a interrupção da famigerada e internacionalmente repudiada obra. O consórcio empreiteiro responsável pela destruidora obra prometeu que até dia 16 os canteiros estariam restaurados e as obras recomeçariam.

É fato que a Insurreição do Xingu começou. A ação direta dos corajosos ativistas em junho foi apenas a primeira ação, e a dos trabalhadores encapuzados em novembro, a segunda. Provavelmente outras ações semelhantes vão acontecer até que Belo Monte pare para sempre, tal como grupos de ação direta de libertação animal vêm conseguindo, ao longo dos anos, fechar centros de pesquisa que aprisionavam, torturavam e matavam animais em nome da Ciência.

Como cidadão que não consegue ver na “Justiça” a força para parar as obras, apoio as ações diretas que têm como objetivo impedir a construção destruidora de florestas e culturas chamada Belo Monte, incluídas também as iniciativas de ocupação da obra. A Insurreição do Xingu precisa continuar, pela Natureza, pelos povos nativos, pelos ribeirinhos tradicionais, pelo respeito às vontades democraticamente demonstradas pela população. Pelo futuro da Natureza humana e não humana.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Porco Capitalista

novembro 16 2012 Responder

Cara, Belo Monte vai levar o progresso à região. E dar lucro pra muita gente. Coisas que dão lucro são boas, por definição. Resistir é fútil. A revolução morreu. O dinheiro move o mundo. Renda-se ou morra pobre.

    Vinícius

    novembro 17 2012 Responder

    Se coisas que dão lucro são boas por definição, então eu posso sequestrar sua filha, retirar seus orgãos e vender? Isso trará lucro. Resistir é fútil, como disse.

    Só por que somos obrigados a viver num sistema que usa dinheiro como linguagem universal intransponível, não quer dizer que devemos aceitar isso de bico calado. Repetir “a revolução morreu” não vai tornar isso verdade.

    Já cansei de ouvir esse argumento do progresso. Progresso e desenvolvimento a qualquer custo é simplesmente paradoxal pois leverá o progresso a uma minoria selecionada. Não vai levar progresso a nenhum aos índios que serão expulsos de suas terras. Não vai trazer progresso nenhum à floresta irremediavelmente desmatada.

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