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nov12

As “utilidades” das aves numa prova da época da minha infância

“Cite 3 utilidades (sic) das aves. R.: Servir de alimento (o ovo e algumas aves), fazer pessoas se relaxarem (sic) com o canto e a ornamentação” – Trecho final de prova de Ciências que fiz quando tinha 10 anos de idade, em 1997

Em meio a coisas antiquíssimas minhas guardadas aqui em casa, redescobri uma prova de Ciências de 15 anos atrás, quando eu tinha meus dez anos de idade. Me chamou muito a atenção a última questão dessa prova. Ela pedia a mim para citar três “utilidades” das aves, realimentando em minha cabeça de criança a ideia tradicional de que aves, assim como outros animais, tinham “utilidades” e deveriam servir aos seres humanos ao invés de serem livres e viver apenas para si mesmas e suas proles.

E eu, como criança influenciada pelo carnismo dominante nos meios de comunicação, respondi, repetindo aquilo que me foi sutilmente forçado a acreditar, que aves “servem” para ser comidas – aliás, como reproduzi na época, “algumas” aves “servem” para isso, tal como o carnismo defende que apenas alguns animais “merecem” ser assassinados para consumo -; para fazer pessoas relaxarem com seu canto, como se elas tivessem a obrigação de fazer seres humanos relaxarem – e para muitas pessoas, isso requer que elas sejam aprisionadas em gaiolas por toda a vida -; e para “ornamentação”, como se fossem objetos inanimados que podem ser usados na decoração de uma casa.

A aula que me fez responder “corretamente” a tal questão não foi uma aula que me ensinasse algo novo que eu precisasse saber, que desconstruísse crenças prejudiciais e construísse no lugar um conhecimento crítico e mais próximo da realidade. Foi sim apenas a reconfirmação de uma tradição milenar baseada na exploração do outro, na negação de sua dignidade própria, no tratamento do outro como se fosse uma coisa sem desejos e autonomia. Foi a reafirmação de uma crença escravocrata, segundo a qual alguns tipos de escravidão nunca deixaram de ser aceitáveis e, graças a essa escravatura moderna, podemos fazer coisas “importantes” como comer carne sem preocupação, relaxar com o canto triste de um prisioneiro e deixar nossa casa mais “bonita” com gaiolas e os “objetos de decoração” que estão presos dentro delas.

Olhando para a última questão daquela prova, percebo também uma grande contradição do destino: a escola me “ensinou” a permanecer submisso à tradição, por mais desigualitária e injusta que ela seja, e quem me ensinou, dez anos depois, a quebrar essa tradição em nome de uma ética mais avançada do que a especista-antropocêntrica foi a internet, meio tradicionalmente ligado à diversão e ao ócio.

Me pergunto também como a professora que tinha me dado essa prova avaliaria se eu já fosse vegano na época e respondesse: “Aves não são objetos para terem utilidade, devemos respeitar o direito delas de serem livres.”

Me pergunto também, com meu parco conhecimento sobre como anda o conteúdo ensinado nas escolas hoje em dia: será que as escolas de hoje continuam como a maioria das escolas dos anos 90 – como aquela onde eu fiz essa prova onde respondi “corretamente” que é “bom” que as aves sejam nossas escravas -, ensinando as crianças e adolescentes a se conformarem com uma tradição e achar “normais” violências desnecessárias e violações éticas, em vez de influenciá-los a pensar, a questionar, a (des)construir visões de mundo e a ser atores sociais ativos?

Não olho esse minuto de minha vida com vergonha porque eu não tinha culpa de ser uma criança enganada e manipulada por uma ideologia carnista que também se infiltra em escolas e livros didáticos. Mas vejo como uma amostra de que felizmente consegui mudar, e essa mudança não me foi provida pelas escolas onde estudei – que, pelo contrário, me foram conservadoras e alienantes. Nisso, percebo como é necessário despir as escolas do conservadorismo que ainda guia sua educação e substituí-la pelo questionamento, seja ele político, ético, socioeconômico, socioambiental, científico/religioso… Afinal, escolas não deveriam servir para conservar uma ordem injusta vigente e treinar robôs a serviço dessa ordem e do mercado, mas sim para formar seres humanos pensantes, questionadores, sedentos de aprendizado e atuantes na realidade que os cerca.

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Marcelo Pacheco

novembro 16 2012 Responder

Eu responderia hoje para a professora: 1 – úteis polinizadores (beija-flor); 2 – úteis em dispersar sementes de árvore (várias espécies); 3 – úteis em cagar na sua cabeça e no seu carro (pombo), e na de pessoas que não entendem o tópico e argumentam cartesianamente. Como é que me surge alguém se comparando (intelectualmente) a um leão que devora outros animais? Cada um… não sou vegetariano, amo maminha e alcatra, mas espero não conseguir comê-las algum dia por pura consciência.

Giovani

novembro 12 2012 Responder

Ideologia do carnismo. O “carnismo” a que vc se refere existe ha alguns milhoes de anos nos primatas (entre eles, nós) e no homo sapiens desde que surgiu (pelos menos 200 mil anos). E vc vem me falar em “ideologia”? Evidentemente, esses dois termos nao cabem numa mesma frase.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 12 2012 Responder

    Carnismo = defesa ideológica do consumo de alimentos de origem animal, em oposição ao veg(etari)anismo.
    Hábito alimentar = onivorismo

Gabriel Marques

novembro 10 2012 Responder

Comer carne =/= racismo e machismo.. pqp cara …. ?_?

    Robson Fernando de Souza

    novembro 11 2012 Responder

    Onde foram citados racismo e machismo no texto?

Jequi Bauea

novembro 10 2012 Responder

Meu caro, pare de assistir a sei lá o que que vc está vendo no animal planet kkk vc está tão alienado e inconsistente de suas ideologias quanto quando era criança kkk

    Robson Fernando de Souza

    novembro 11 2012 Responder

    Então quem pensa diferente de você é “alienado e inconsistente”, é isso?

Luan Menezes

novembro 10 2012 Responder

você diz que quem come carne é ESPECISTA, mas imagino que você coma vegetais. Ué, porque você mata algumas espécies (vegetais) e defende o direito de outras (animais)? Isso não é especismo? E os animais que não respeitam o direito dos outros (leões comendo pobres zebras indefesas)?

    Robson Fernando de Souza

    novembro 10 2012 Responder

    1. http://consciencia.blog.br/tag/plantas-nao-sentem-dor
    2. O ser humano é o único animal com senso ético-moral e capacidade de flexibilizar a alimentação a ponto de parar de comer carne.

      Luan Menezes

      novembro 10 2012 Responder

      1. E daí se não sentem dor? Continuam seres vivos com mesmos direitos a vida que qualquer outro, não? A questão é dor? Então dar morfina pra eles antes de matar pode? Sério, isso não faz fucking sentido.

      2. Por que parar de comer carne? Prefiro salvar a vida dos vegetais, que consomem o CO2 que produzo e liberam O2 que utilizo.

        Robson Fernando de Souza

        novembro 11 2012 Responder

        1. A questão é senciência + interesses próprios (como continuar vivo e fisicamente íntegro e buscar prazer), coisas que vegetais não têm.

        2. Ao contrário do que se acredita no senso comum, uma alimentação veg(etari)ana implica a morte de menos vegetais do que uma alimentação com carne. Porque inibe desmatamentos majoritariamente causados pela expansão da pecuária e da agricultura de forragem (que alimenta rebanhos) e também acaba com o esquema de se consumir na pecuária vários quilos de proteína vegetal (7kg no caso da carne bovina, seja ela grama de pasto ou grãos produzidos em plantações) pra produzir um único quilo de proteína animal. Então, se você quer realmente poupar a vida do máximo possível de vegetais, ironicamente a dieta livre de animais é a maneira mais eficiente.

Vinícius

novembro 9 2012 Responder

Incríel a alienação que as escolas nos faz…

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