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nov12

Contrastando a educação ambiental minúscula com a Educação Ambiental maiúscula

Educação Ambiental não é simplesmente instruir educandos a abraçar uma árvore, mas também, fundamentalmente, formar pessoas que, coletivamente, impeçam os poderosos de derrubá-la e evitem comer aquilo que vai implicar sua derrubada.

De educação ambiental, em minúsculo mesmo, que se restringe a adestrar as pessoas e lhes imperar comportamentos individua(l)i(sta)s e omite o veganismo o mundo está cheio. Tanto no sentido de repleto como no de saco cheio. Percebe-se cada vez mais que esse modelo de e.a. (de novo em minúsculo) é inócuo perante um mundo cujos maiores problemas ambientais são aquilo que tal modelo deixa passar – a cultura individualista que inibe mobilizações coletivas, o capitalismo com seu paradigma de consumismo e progresso econômico infinito e o consumo de produtos de origem animal.

Ainda hoje abundam as iniciativas de e.a. conservacionista e individualista, meramente recomendando ações individuais – como economizar a água do chuveiro e das pias; racionalizar o consumo de eletricidade; preferir produtos reciclados, orgânicos e/ou certificados e consumir apenas aquilo que inspira necessidade verdadeira. Mas por outro lado, mesmo 35 anos depois de Tbilisi e 20 depois da Eco-92, ainda parecem ser pouco comuns as iniciativas intra e extraescolares de Educação Ambiental (essa sim com iniciais maiúsculas) que prezem pela profundidade, usem de transversalidade multi e interdisciplinar e incentivem diretamente a mobilização coletiva e política e o questionamento do sistema capitalista como um todo.

Da mesma forma, o incentivo ao veganismo, considerado o melhor e mais eficiente meio individual – e também coletivo, se anexarmos ao conceito de veganismo a militância abolicionista – de diminuir o impacto ambiental do modelo urbano-industrial de vida e consumo, continua escasso no meio ambientalista, geralmente restrito ao próprio meio dos vegetarianos e veganos abolicionistas.

Ainda vemos, ao invés, incentivos à “diminuição” do consumo de carne especificamente vermelha em alguns países ou à preferência por carnes “de procedência legal”, detalhes que pouco mais são do que pequenos alívios que no final das contas não promovem qualquer impacto realmente radical na diminuição da pegada ecológica do indivíduo e, menos ainda, da sociedade.

A postura da e.a.; diferente da EA defendida desde Tbilisi, calcada na prática do ambientalismo e turbinada pela militância vegana; eu posso julgar como ingênua, simplista e até mesmo tendente a inócua, já que, em vez de tratar a origem da doença e erradicar-lhe a causa, se limita a aliviar alguns sintomas dela. Em outra analogia, não vai à raiz do problema ambiental das sociedades contemporâneas, apenas corta algumas folhas dele. Não há qualquer profundidade e legitimidade prática na e.a. ministrada na maioria das escolas, das campanhas educativas e dos documentários ambientalistas.

Costumo defender uma EA baseada no encorajamento do ato de questionar não só as consequências da emissão de poluentes por parte de determinada empresa, mas sim também aquilo que leva tal empresa a poluir a tal magnitude e desvalorizar as necessidades da Natureza violadas por essa poluição e faz seus consumidores lhes comprarem os produtos a níveis excessivos e desnecessários.

Nessa EA ideal, não estão em jogo apenas as consequências e remediações das agressões ambientais, mas sim suas causas e as formas de evitá-las ou diminuí-las desde a fonte, assim como a construção de uma realidade onde essas agressões não precisem existir ou, se existirem inexoravelmente, sejam as mais brandas possíveis.

E isso inclui a transformação da EA propriamente dita numa Educação Sócio-político-ambiental-abolicionista baseada no questionamento crítico da realidade e da ordem vigente e na busca de soluções radicais e profundas. Seria ideal para lidar com questões essencialmente multi e interdisciplinares, como por exemplo a pecuária, que junta interesses políticos de direita, a mercantilização e exploração da vida senciente baseadas no capitalismo, a concentração fundiária, a opressão socioeconômica e paramilitar de camponeses e indígenas e a geração de impactos ambientais sistematicamente mais pesados do que qualquer outra atividade humana existente.

E tais questões passam totalmente intactas pela e.a. tradicional. Suas fracas recomendações são anuladas por outros hábitos imediatos, como nos exemplos abaixo:

a) Pessoas comerem menos carne vermelha em alguns países é algo totalmente superado por elas mesmas comerem mais carne branca e habitantes de outros países serem incentivados a comer maiores volumes de carne vermelha;
b) Racionalizar a quantidade de água que cai do chuveiro e das torneiras é de longe superado pelo gasto de água envolvido na cadeia de procedimentos necessários para a produção de carne, como a irrigação de plantações de forragem, a contaminação de corpos d’água superficiais ou subterrâneos, o fornecimento da água a ser bebida pelos animais explorados, a lavagem das carcaças e do chão nos matadouros e frigoríficos e o consumo de água nas indústrias processadoras e embaladoras de alimentos à base de carne;
c) Evitar jogar lixo no chão e nos canais, embora seja um comportamento indispensável, é fichinha em comparação a evitar alimentar uma atividade que, segundo informações do ambientalista Maurício Waldman (ver infográfico do Estadão sobre produção de lixo), produz cerca de 15 vezes mais lixo do que toda a produção urbana de resíduos sólidos do planeta;
d) Adestrar pessoas a consumir apenas o necessário desconsidera toda a cultura existente de consumismo, algo que, muito mais complexo do que passar a levar em conta apenas necessidades, envolve um sistema de valores e crenças que, impondo uma coerção externa ao indivíduo, o levam a consumir muito mais do que a simples necessidade demanda;
e) Adestrar vagamente pela preservação das florestas não tem virtualmente nenhum efeito numa economia que demanda o consumo voraz de madeira e “precisa” roubar terras e mais terras das florestas para expandir latifúndios de pecuária e de agricultura forrageira e/ou de biodiesel;
f) Recomendar a separação do lixo doméstico pouco ou nada vale se a localidade não recebe caminhões de coleta seletiva e a implantação desta sequer é uma demanda popular local. Ou seja, sem uma mobilização coletiva que reivindique uma política ambiental municipal  minimamente razoável que gerencie o lixo urbano, é virtualmente inútil a ação individual de separar o lixo reciclável, o orgânico compostável e o que não pode ser reaproveitado;
g) Instruir a preferência pelo biodiesel nada vale se esse biodiesel provém do mesmo agronegócio que promove grandes desmatamentos; escraviza e massacra animais; oprime camponeses; assassina indígenas; compromete uma produção agrícola que, em outras situações, seria destinada ao consumo humano; faz prevalecer interesses político-econômicos privados que prejudicam os públicos e aliena a população incutindo-lhes falsas necessidades;
h) Criar indivíduos preocupados com ações individuais pró-sustentabilidade tem efeitos mínimos perante uma sociedade cujos governantes, desprovidos de oposição popular suficiente, atendem predominantemente a interesses privados de grandes poluidores e desmatadores cujas ações não podem ser detidas por nenhuma ação caseira – ou promovem eles mesmos severos desmatamentos e poluições.

Por isso eu digo, com alguma propriedade, que a e.a. minúscula que se vê hoje sendo majoritariamente praticada é inócua, simplista e ingênua. No lugar dela, a EA maiúscula, que envolve abordagem das causas profundas de cada impacto ambiental das sociedades contemporâneas, questionamento da ordem vigente, veganismo, politização, agregação de uma coletividade mobilizada etc. se faz não só necessária, como também eticamente imperativa.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marco Llarena

maio 30 2014 Responder

Robson , parabéns pelo texto e obrigado por sanar minha inquietação sobre o uso de ea ou EA. Sou geógrafo, mas também ensino a Disiciplina Estratégia de Educação Ambiental no curso de Tecnologia em Gestão Ambiental. Obrigado pela contribuição e vou trabalhar o seu texto com os meus discentes.

    Robson Fernando de Souza

    maio 30 2014 Responder

    Obrigado, Marco =) Abs

Silas Guilherme

novembro 22 2012 Responder

ÓTIMO texto!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 23 2012 Responder

    Valeu =)

Vinícius

novembro 22 2012 Responder

Ótimo post, repleto de estatísticas arrebatadoras pra quem ainda acha que fazer cadeira de garrafa pet vai salvar o mundo ._.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 22 2012 Responder

    Valeu ae =)

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