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A violência simbólica hierarquista dos pronomes de tratamento

piramide-capitalista

Algo que me fez refletir recentemente sobre a questão de tratar diferencialmente autoridades governantes (“governantes” num sentido mais amplo) e pessoas comuns foram os pronomes de tratamento. Reparei que, fora as expressões “você” e “o(a) senhor(a)”, essas construções linguísticas acabam servindo como um costume legitimador de uma ordem em que a hierarquia política, social e moral entre seres humanos é legitimada e naturalizada.

O texto do site Brasil Escola, de autoria de Vânia Duarte, é explícito ao mostrar, ainda que de forma não crítica, como expressões de tratamento servem para acostumar as pessoas com hierarquias:

“Quando nos dirigimos às pessoas do nosso convívio diário utilizamos uma linguagem mais informal, mais íntima. Ao passo que, se formos nos dirigir a alguém que possui um prestígio social mais alto ou um grau hierárquico mais elevado, necessariamente temos que utilizar uma linguagem mais formal. Lembrando que isto prevalece tanto para a escrita quanto para a fala. Para isto, podemos usufruir de um completo aparato no que se refere às normas gramaticais e à maneira correta de como e onde utilizá-las.” (grifos meus)

Alguns exemplos desses pronomes, expostos no texto mencionado, escancaram o caráter hierarquista, a autêntica violência simbólica realçadora de uma ordem de desigualdade, desse tipo de pronome pessoal:

– “Vossa Excelência” – usado para pessoas com alta autoridade, como: presidente da república, senadores, deputados, embaixadores etc;
– “Vossa Eminência” – usado para cardeais;
– “Vossa Alteza” – usado para príncipes e duques;
– “Vossa Santidade” – usado para o papa;
– “Vossa Reverendíssima” – usado para sacerdotes e clérigos em geral;
– “Vossa Paternidade” – usado para superiores de ordens religiosas;
– “Vossa Magnificência” – usado para reitores de universidades;
– “Vossa Majestade” – usado para reis e rainhas.

Às vezes “Vossa Senhoria” acaba sendo usado para pessoas com mais poder econômico, como latifundiários e grandes empresários.

Percebe-se que os pronomes de tratamento servem tanto para um contexto de dominação política de alguns poucos sobre muitos como para a dominação por parte de religiões organizadas, em especial a Igreja Católica Apostólica Romana. O tratamento diferenciado oficiosa mas tradicionalmente dedicado a pessoas de alta posição, nas hierarquias socioeconômica e religiosa, pelos Três Poderes da maioria dos Estados acaba sendo refletido também na diferenciação de tratamento entre pessoas comuns e humildes e indivíduos abastados em prestígio social e econômico.

Nisso o camponês, o vendedor de loja ou a(o) dona(o)-de-casa parecem ser dignos de um tratamento social inferior, atribuidor de menos relevância sociocultural, em comparação ao latifundiário, ao grande empresário, ao deputado que oprime essas pessoas mais pobres, ao pastor que está rico graças ao dízimo de sua igreja ou ao cardeal que vive cercado pelo ouro do Vaticano, mesmo quando ambos os estratos possuem a mesma importância para a sociedade ou as pessoas do estrato mais humilde fazem ainda mais em favor de um mundo melhor do que as do mais abastado.

Pode parecer desejar demais, mas seria uma grande iniciativa de questionamento à autoridade arbitrária e dominadora – e ao seu poder –, e consequente negação da ordem que segrega dominantes e dominados, se nós passássemos a rejeitar os pronomes de tratamento elitistas e usar simplesmente “você”, “tu” ou, no máximo, “o(a) senhor(a)” quando lidarmos com pessoas que estão em posições altas nessa hierarquia injusta que domina as sociedades ocidentais e lhes impõe a desigualdade e a opressão sob as mais diversas formas.

imagrs

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Rodrigo

junho 27 2016 Responder

Não chamo a ninguém de senhor pois não sou escravo e se assim o fosse, creio que também não o faria.

Alguém poderia dizer que este pronome se trata de uma questão de respeito a pessoas desconhecidas, casadas ou idosas e que se baseia em regras de etiqueta.
Este argumento é falho, pois diversas regras de etiqueta são completamente discutíveis. Foram criadas por homens falhos.
Penso que as pessoas devam ser chamadas pelo seus respectivos nomes sendo íntimas ou não. Quando não sei o nome da pessoa chamo simplesmente de você.

ruthiar

janeiro 30 2013 Responder

Acho que Você deveria ser um pronome padronizado para todos. Aqui no Sul para os íntimos se usa tu, o tu é mais próximo do espanhol que usa para os íntimos tu e para os demais vosotros.

Você vem de Vossa Mercê, tratamento de muito respeito que foi usado no Rio de Janeiro no século XIX. Era um tratamento usado entre iguais, ou seja, de igual para igual. E você continua sendo um tratamento de quem deseja a simpatia, pois quem faz propaganda, geralmente usa o você. Com o você nos aproximamos de uma pessoa, mas não da mesma forma que nos aproximamos usando o tu.

Dra e Dra é um tratamento bem merecido para quem defendeu tese, fez trabalho de doutorado. Afora isso não deveria ser usado.

Vossa Excelência tem um peso incrível. Afora a vaidade que pode acarretar acarreta também uma responsabilidade que pode fazer mal para o coração.

O Ilustríssimo está em desuso. Pudera !

Senhor e senhora hoje em dia não são tratamentos apenas para manter uma certa distância do interlocutor, mas para se diz senhor e senhora geralmente quando se pensa: ” essa pessoa já está velha o bastante para ser chamada de velha” e isso começa lá pelos 40, mas se o interlocutor quizer um favorzinho pode chegar a chamar de tio ou tia. Senhora e senhora tem a ver com ser senhor de terras e de escravos. É um tratamento horrível, no entanto há pessoas que pensam que vão parecer educadas se chamarem de senhor e senhora e estão cheias de raiva e chamando desta forma em muitos casos. Antigamente devia ser agradável ser chamado de senhor e senhora, pois isso significava um reconhecimento de que esta pessoa mandava em alguma coisa e agora chamam de senhor e senhora para ver se mandam em ser que merece respeito pela fragilidade que a idade pode causar nos outros quando esta fragilidade é bem relativa.

Ultrapassada a barreira do Senhor e senhora já dá para conversar um pouquinho melhor talvez. E quem sabe até saia um bom negócio.

De igual para igual é o melhor jeito e se sou mais alta do que uma criança posso me abaixar para falar com ela.

Por acaso chamamos nossos gatos e cachorros de senhor e senhora ? Porque não ?

“Você, manhã de todo meu,
você que cedo entardeceu,

você…de quem a vida eu sei, mas eu serei
você…”

Eu vou cantar isso novamente, você vai ver.

Abraço ! Tudo de bom, amigo !

Vinícius

janeiro 30 2013 Responder

Ótimo post. Eu já desprezo essa hierarquia de pronomes e inclusive nem sequer uso “senhor”, a não ser quando sou obrigado a. Tratar qualquer pessoa, inclusive as mais velhas, como se estivessem automaticamente corretas e suas opiniões tivessem mais valência que a minha é extremamente opressor, desigual e falacioso.

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