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“Escola de princesas” em Uberlândia acende discussão sobre papéis de gênero e adultização de meninas

Atualizado em 10/01/2013

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Na sexta-feira passada, o MG TV da filial da Globo no Triângulo Mineiro passou uma reportagem sobre uma “escola de princesas” em Uberlândia (MG). Menos detalhes do que nos interessaria foram passados na matéria, mas o que foi mencionado já nos convida a uma discussão franca sobre a socialização de meninas num papel de gênero determinado e a adultização de meninas que deveriam estar brincando – ao invés de se maquiando como adultas. No curso, crianças entre 8 e 12 anos aprendem noções de como princesas de famílias reais se comportam – ou, aliás, são obrigadas a se comportar – diante de um jantar de uma família real de uma monarquia, nos cuidados (muito precoces) com maquiagem, com vestuário etc.

É bastante perceptível o teor de aculturação de crianças num papel de gênero que a sociedade patriarcal ocidental, desde a Europa medieval até ainda hoje, espera de mulheres. A reportagem fala claramente de “cuidar da beleza”, serem meigas, usar maquiagens, arrumar quartos coloridos de rosa, usar brinquedos convencionalmente reservados a meninas, preparar a mesa do jantar, entre outros aspectos que de fato acostumam as pequenas garotas à ideia de que os princípios culturais das princesas de reinos europeus são bons para a sua “feminilidade”.

Nisso a “escola de princesas” acaba reforçando que o papel da mulher é ser dócil e encantadora (ou seja, dentro dos padrões de beleza vigentes) para a inspiração dos homens e se dedicar aos serviços domésticos – embora o curso de férias das pequenas “princesas” também fale da filantropia sócio-humanitária empreendida por princesas da modernidade, algo que, porém, pode ser feito por qualquer mulher, independentemente de status e classe social. Fora o engajamento filantrópico, não parece ensinar as meninas a se tornarem mulheres decididas, independentes e dispostas a mudar as raízes dos problemas do mundo – entre eles a própria diferenciação sociopolítica entre princesas moradoras de palácios e mulheres comuns.

Acaba passando assim, apesar da intenção da fundadora da escolinha de (tentar) realizar sonhos de criança – sonhos, diga-se de passagem, culturalmente induzidos e condicionados –, um incentivo ao comportamento submisso e ao conservadorismo social – no qual a filantropia aparece para aliviar os piores sintomas das injustiças e desigualdades sociais mas nada pode fazer para curá-las e subverter a ordem injusta que as causa.

Outro aspecto que chama atenção para a discussão é o uso de maquiagens e o ensinamento de modos comportamentais típicos de princesas europeias adultas, o que caracteriza uma incitação à adultização das crianças e ao consequente abandono do espírito de infância delas. Quando deveriam estar com seus anseios voltados a brincar (e se sujar muito como toda criança deveria) e estudar em suas escolas de ensino fundamental, estão sendo induzidas a adquirir comportamentos e preocupações que, além de serem tipicos de mulheres já crescidas, limitam bastante o potencial de ser criança dessas meninas.

Crianças não deveriam ter preocupação nenhuma em obedecer a arbitrários padrões de beleza e papéis de gênero nem em atender a etiquetas comportamentais típicas de uma realidade incompatível com o seu tempo (século 21, época de hegemonia das repúblicas ditas democráticas, questionamento de tradições de desigualdade social e negação dos valores essenciais do Estado-nação) e espaço (Brasil, América Latina, distante das tradições das monarquias europeias). Atentar-se a esses costumes a tão tenra idade prejudica sua infância e anula sua vontade de ser criança e se comportar como tal. Por isso, a “escola de princesas” acaba tendo um papel ainda mais prejudicial na formação dessas garotas.

Isso torna muito discutíveis a perpetuação cultural da tradição de admiração dos padrões de beleza, riqueza material e comportamento das princesas de reinos da Europa medieval e moderna e também a adultização das crianças – e consequente inibição da infância em promoção de uma precocidade nociva. E ainda pode haver muito mais a se criticar sobre isso. Portanto, tal tema vem tendo, com toda razão, a atenção das feministas e também dos defensores dos direitos da criança e do adolescente.

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15 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Tarantino

agosto 6 2015 Responder

É isso mesmo. O legal é vestir roupas coladas e aprender a dançar funk rebolando e fazendo gestos vulgares desde a mais tenra infância. Afinal de contas, para quem chama pedofilia de “amor intergeracional” é um prato cheio.

esther roberta batista da silva

março 18 2015 Responder

eu querto muito se uma primcesa

bruna ribeiro

fevereiro 27 2015 Responder

Eu gostaria que estivesse uma lá perto da minha casa só que de graça, né? Pois tem gente que mora longe dela, quer mesmo que seja só para curiar, mas deveria ter uma de graça para as meninas que querem estudar nela, mas não tem condições.

Alexandre Brigido

outubro 24 2014 Responder

Bom dia.
Achei uma idéia ótima. Adoraria ter uma dessas em minha cidade e de graça pra ajudar meninas de 10 a 15 que são extremamente vulgarizadas por um padrão “piriguetiano” induzido pelas mídeas sociais e pela televisão e seu vale tudo. Induzindo essa meninas se sentirem mais adultas do que são.
Parabens aos criadores da escola.

rafaela cardoso da silva

junho 3 2014 Responder

eu só tenho 11 anos mais sempre tive uma ótima educação e eu adoraria estar ai mas eu não tenho recursos.

lucas

julho 31 2013 Responder

por que não fazem uma “escola de príncipes” em que ensinam todas as atividades que as garotas aprendem para os meninos, já que é ensinado “valores éticos, morais e princípios de comportamento e de caráter” ?

Anônima

maio 20 2013 Responder

O Yahoo! Mulher fez uma matéria sobre a tal “escola de princesas”… O que vocês acham?

http://br.mulher.yahoo.com/f-brica-princesas-tri-ngulo-mineiro-180800248.html

    Robson Fernando de Souza

    maio 20 2013 Responder

    Mais absurdo ainda do que eu já conhecia. Totalmente impositor de um papel de gênero, e ainda dá razão a Pierre Bourdieu no que tange a reproduzir a cultura dominante e marginalizar a cultura dos dominados.

Ronaldo

janeiro 31 2013 Responder

O que é lícito, permitido e bonito são as Escolas de Cachorras das novelinhas “infantis”, ensinadas nas músicas e bandas “teens”, Rebeldes, entre outras. Essas sim, são veneradas pela sociedade. Agora, durante o carnaval, os pais, aliás, as mães, levando suas menininhas para as matinês, para aprender o que fazer quando ficarem mais velhas… Velhas não, maiorzinhas… O que é bem aceito são as cartilhas de sexualidade distribuídas nas escolas, bem como as carteirinhas de acesso livre aos postos de saúde para retirar camisinha e anti-concepcionais, oferecidas para nossas crianças, sem fazer uma análise mais profunda ao nosso redor. Isso antigamente era falta de vergonha!!! Então são esses valores “sexistas, mediavais, moralistas, autoritaristas, cretinos, militaristas, enfim, épicos”, que estão destruindo nossa sociedade?

    Ronaldo

    janeiro 31 2013 Responder

    Faltou dizer que na reportagem, (http://globotv.globo.com/tv-integracao-triangulo-mineiro/mgtv-1-tv-integracao/v/empresaria-cria-escola-de-princesas-em-uberlandia-mg/2325599/), o repórter diz: -“… mas aqui elas aprendem mais, estudam valores éticos, morais e princípios de comportamento e de caráter.” A proprietária diz: “… muitas delas se preocupam com ações sociais, tem um caráter de generosidade… trabalho com a identidade… obedecer o papai e a mamãe…”. VALORES PERDIDOS (na sua casa tem/teve?), TENTANDO SER RESGATADOS POR PESSOAS CORAJOSAS!

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 31 2013 Responder

    Você usou uma falsa dicotomia. Criticar uma colônia de férias que exalta alguns valores elitistas não quer dizer que eu apoie uma eventual negligência de transmissão de valores éticos por parte da família, tampouco a erotização de crianças e adolescentes.

    Alexandre Brigido

    outubro 24 2014 Responder

    Perfeito.
    Assino embaixo.

Fernando Campos

janeiro 8 2013 Responder

Isso é coisa de cretino. É uma total falta de vergonha existir uma “escola” dessas.

Vinícius

janeiro 7 2013 Responder

Tenso isso. Tenho tanta aversão aos valores medievais, extremamente sexistas, moralistas e autoritaristas, que quase não consigo ler ficção medieval e épica.

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 7 2013 Responder

    E militaristas também.

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