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jan13

Reflexões de um pedaço de meu passado onívoro
Post meu, quando usava o nickname "Hrrr", em tópico carnista de minha autoria no Clube Cético. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

Post meu, quando usava o nickname “Hrrr”, em tópico carnista de minha autoria no Clube Cético. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

Até 23 de agosto de 2007, eu era onívoro, dos mais admiradores de carnes e derivados lácteos. Sendo assim, tenho condição de relatar como eu, quando comia alimentos de origem animal, via os veg(etari)anos e encarava a maneira de muitos deles de tratar os não vegetarianos. E posso, com isso, testemunhar como o comportamento de algumas pessoas do meio veg(etari)ano prejudica a difusão e massificação do consumo ético pelos animais e, por tabela, o aprofundamento da consciência da sociedade sobre os (direitos) animais.

Digo isso baseado numa postura minha, uma posição um tanto carnista, publicada no fórum do site Clube Cético, entre agosto e dezembro de 2005, época em que eu estava tendo meus primeiros contatos com discussões entre vegetarianos e carnistas. Meu nick, naqueles tempos, era um impronunciável “Hrrr”, e eu tinha feito, em 15 de agosto daquele ano, um tópico intitulado “Argumentos de vegan proselitista”.

No tal tópico, eu clamava para que alguém refutasse o artigo “21 motivos para ser vegetariano”, de Vernon Coleman, no meu desejo nervoso de que alguém afastasse de mim o perigo de ver eticamente indefensável – logo, conscienciosamente inviável – o consumo das carnes, pizzas e pudins de origem animal que eu tanto apreciava.

A única tentativa de refutação completa lá postada até mostrava que alguns dos argumentos do texto do doutor Coleman eram frágeis, mal escritos, desprovidos de fontes e/ou não inerentes à pecuária, embora em nada isso fragilizasse as reconhecidamente sólidas bases filosóficas, ambientais e medicinais do vegetarianismo. Ali eu aprendi que em nada adianta publicar listas de fatos desprovidas das devidas referências bibliográficas, já que a carência de fontes torna a aceitação de tal texto uma mera questão de crenças sem raiz, e não de conhecimento embasado.

Mas a resposta do refutador aos argumentos éticos (os quais, a saber, eram um tanto bem-estaristas e viciados por apelo à misericórdia) era claramente especista. Ele dizia que os sentimentos, sofrimentos e anseios dos animais eram “antropomorfizações”:

“Apelo à antropomorfização [sic] dos animais, hehehe, querem colocar os animais como tendo igualdade de direitos com o homem [sic]. Seriam os direitos humanos dos animais.” – resposta do refutador ao item 2 do artigo de Coleman.

Na época, me agradou o respondedor ter dito isso, ao invés de eu mesmo ter ido tentar refutar os “21 motivos”. Tudo me indica que eu já imaginava que, se eu próprio tivesse ido tentar provar que Vernon Coleman estava errado, correria um risco muito alto de acabar confirmando, disparidades numéricas à parte, o que ele colocara no texto. E eu tinha medo disso.

Era o medo de que o consumo de alimentos de origem animal me obrigasse, por consciência, a parar definitivamente de comer parte daquilo que eu mais gostava. Eu queria porque queria que meu paladar fosse protegido pela Lógica e pelos fatos – e hoje vejo, e comprovo, que o que é fundamentado por ambos é justamente a alimentação livre de ingredientes de origem animal.

Em outros posts no tópico em questão, estava evidenciada minha mentalidade carnista, de acreditar que a alimentação vegetariana era baseada em falácias e falsos fatos. E, por outro lado, assumia que não tinha conhecimentos de Nutrição e Biologia suficientes para condenar o vegetarianismo ao limbo das ideologias falseadas.

Olhando para essa confissão e olhando para mim mesmo hoje, lembro que mesmo atualmente não tenho o conhecimento de um biólogo ou de um nutricionista (que respeite o vegetarianismo estrito), mas sei sim agora consultar artigos científicos e relatórios institucionais e extrair deles conclusões que reforçam que o veganismo é muito superior ao carnismo em embasamento argumentativo e fundamentação factual.

Nos demais posts, do alto da minha postura “ad lapidem” (referência ao “argumentum ad lapidem”, falácia que consiste em desdenhar de um argumento sem lhe dirigir qualquer refutação ou expressar os motivos de se discordar dele), continuava duvidando da argumentação veg(etari)ana. Em certo post, eu dizia: “Mas cadê a lista de falácias do texto? Os declives escorregadios, os ad hominem, non sequiturs [sic]..?”

Porém, eu já demonstrava ter em minhas convicções éticas parte das premissas que me tornariam vegetariano dois anos depois. Num post, eu discordava do único refutador dos “21 motivos…”. Dizia eu em 20 de agosto de 2005: “Eles [os animais não humanos] sofrem sim, e têm sentimentos comuns aos humanos (assim como os cachorros sentem alegria, tristeza etc.).”.

E o mais importante: eu deixei como legado para o meu próprio futuro um testemunho de como muitos veg(etari)anos estavam, mesmo com a intenção de ajudar, prejudicando a própria causa que defendiam – problema esse que ainda persiste hoje – e atrasando ou mesmo bloqueando que muitos onívoros passassem a considerar abandonar o consumo de alimentos de origem animal:

“Alguns vegetarianos usam de desrespeito e xingamentos pra tentar ‘vegetarianizar’ outras pessoas. Hipócritas, assassinos… Xingam os ‘carnívoros’ (como eles os chamam) de tudo o que não presta.

E outros, pra tentar [sic] estabelecer o vegetarianismo como o único caminho alimentar válido, usam dos mesmos artifícios mentíricos [sic] que os proselitistas evangélicos usam pra tentar convencer de que as ‘verdades absolutas’ cristãs são comprovadas mesmo pela ciência.

Enfim, o jeito que muitos vegetarianos usam pra tentar ‘converter’ os ‘carnívoros’ (que na verdade são onívoros) pode ser perfeitamente comparado com tentar descrentizar [sic] um evangélico através de Satanás.”

À parte exageros como “artifícios mentíricos (sic)” e “desconverter evangélicos em nome de Satã”, de fato isso foi, é e sempre será uma queixa minha sobre o comportamento de muitos veg(etari)anos que usam de histeria, julgamentos sumários e desrespeito jurando que conseguirão criar mais vegetarianos forçando ideias agressiva e inadequadamente defendidas de fora para dentro de cada onívoro.

A queixa do então “Hrrr” refletiu como as formas erradas de se educar pessoas ao veg(etari)anismo mais atrapalham que ajudam, atrasando a decisão de muitos de virar vegetarianos e causando-lhes antipatia aos vegetarianos e veganos em geral e ao aprofundamento da causa animal. Felizmente virei veg(etari)ano ao invés de carnista reaça, mas um contato mais prolongado com veg(etari)anos intolerantes e arrogantes talvez fizesse este que vos escreve estar hoje espalhando pérolas carnistas – não com prints publicados e respondidos pelo Vegetariano da Depressão, mas com frases reacionárias de minha própria autoria.

Por isso reforço o apelo do vídeo “10 vícios e erros sérios de alguns veg(etari)anos” para que ações como julgamentos, dedos-na-cara e tentativas de converter onívoros de fora para dentro sejam abandonadas de uma vez por todas. Graças a esse tipo de atitude da parte de alguns veg(etari)anos, muitos que hoje poderiam estar sendo nossos aliados, ou mesmo grandes divulgadores e pensadores do veg(etari)anismo e dos Direitos Animais no Brasil, são nada mais que carnistas reacionários tentando “trollar” com nossa causa.

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7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Lorena Xavier

janeiro 25 2013 Responder

Oi Robson! Não sei se você já escreveu sobre isso no blog (se sim, me diga aonde para eu ler), mas eu gostaria de ler o que você pensa sobre os insetos que morrem nas plantações. Querendo ou não, vários animais, ainda que sejam seres bem simples, morrem para que um vegano possa comer um tofu, um pão, uma uva etc. Tem algo que possa ser feito para evitar isso? Algo para tornar o veganismo mais completo em relação a isso?

Kreator

janeiro 15 2013 Responder

Admiro sua mudança de ideia e a coragem para admitir isto publicamente, não é todo mundo quem expõe a cara à tapa e admite que errou.

Acompanho sempre teus posts sobre vegetarianismo, laicismo e mesmo não concordando com tua visão política, admiro teu engajamento no assunto.

Espero que um dia também reveja as reveja, não sou exemplo para nada, mas por experiência própria, acredite, elas não resistem a uma reflexão mais profunda.

Raphael

janeiro 9 2013 Responder

É Robson , é por isso que eu digo, no bom sentido , quem não te conhece que te compre .Praticamente o cara que mais consumia Hamburguer em rasga e tomava coca – cola .Sem falar nas outras coisas . É impressionante que as pessoas mais combativas a determinados costumes , no passado são as que mais praticaram , até mais do que as pessoas que elas criticam no presente.É… hipocrisia agente vê por aqui . Grande abraço!!!!

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 9 2013 Responder

    Hipocrisia ou mudança?

    Pra você, uma pessoa precisa ter as mesmas crenças pra sempre e recusar qualquer questionamento pra não ser hipócrita?

Felipe

janeiro 9 2013 Responder

Nossa, que engraçado ler isso ! Acho que o vegetarianismo não só te fez bem fisicamente, mas melhorou totalmente seu raciocínio e capacidade argumentativa ! SeriA horrível ter você como carnista reacionário, seria praticamente o fim do movimento vegano abolicionista brasileiro ! Você pode não achar isso, mas com ctza é o pilar que sustenta esse movimento (na minha opinião) e a pessoa com maior capacidade argumentativa e lógica do mesmo, talvez o único capaz de rebater um texto como “Veganismo Desmascarado” em sua totalidade, citando todos os erros e ainda explicando cada um. A sua sessão de “falácias” é muito rica, e como é voltado para rebater argumentos carnistas, fica fácil aprender tudo. Não só isso, você já rebateu aquela imagem “Produtos à base de gado” TOTALMENTE, e aindo explicou UM POR UM ! Aquilo pra mim significou que você realmente está na frente desse movimento vegano no brasil, porque JAMAIS pensaria que alguém fosse rebater aquilo ! Ou seja, se o consciencia.blog (e vlog) não existissem, acho que o carnismo reinaria solto, e a gente encontraria todo tipo de absurdo carnista sendo difundido como verdade absoluta. Só de pensar no que vc disse, dá vontade de dar uma bronca nos vegs histéricos que afastam as pessoas do veganismo, pq uma deles poderia ser um Robson da vida ! Com ctza, é complicado lidar com o ser humano !

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 9 2013 Responder

    hehehehehehe Obrigadão, Felipe, de coração, pela apreciação =D
    Mas acho que vc exagerou ao dizer que, se eu fosse convertido de carnista a carnista reaça, seria o fim do movimento vegano brasileiro =P Eu seria só mais um entre tantos “randoms” reaças por aí, e possivelmente outra pessoa assumiria o papel que hoje sou eu que assumo =P

    E você é livre pra dar essa bronca mesmo na galera mais histérica ;-)

    Abração!

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