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A celebração da vitória da vida sobre a morte começa no prato

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Obs.: O texto abaixo foi escrito por um ateu (eu) que respeita as religiões. Antes de pensar em desconsiderar o artigo por ter sido escrito por um não cristão, saiba sobre a falácia ad hominem e compreenda que o que faz a mensagem não são características pessoais de seu autor, mas sim o conteúdo dela.

A época da Páscoa, próxima do equinócio de primavera do Hemisfério Norte, é um tempo de celebração da vitória da vida sobre a morte. Desde os antigos povos pagãos da Europa até os cristãos de hoje, tantas culturas setentrionais comemoravam e comemoram, de formas diferentes, o fim da triste e gélida era do inverno e a chegada da florida primavera, adaptada para a mitologia cristã como a ressurreição de Cristo. Porém, é uma contradição grave que esse festejo persista sendo temperado com alimentos de origem animal, em especial carnes.

No contexto religioso atual, a Páscoa é antecedida pela Sexta-Feira Santa, dia em que a tradição cristã, dependendo da vertente, desrecomenda ou proíbe o consumo de carne vermelha. Essa vedação às carnes vermelhas, porém, acaba compensada pelo consumo de carnes brancas, em especial peixes, o que termina por esvaziar o sentido do luto pelo sofrimento e morte corpórea de Jesus na cruz, além de ser um contrassenso ético.

O consumo de carne por cristãos costuma ser justificado pela leitura da narrativa de Gênesis na qual os seres humanos são designados por Deus para governarem o planeta e os ecossistemas, algo que tem tido interpretações díspares entre os cristãos. Contra essa visão antropocêntrica da relação entre Deus e a Natureza, vem se difundindo, até certo ponto, a interpretação de que essa soberania humana sobre os seres da Terra não é uma relação senhor-escravos, mas sim uma administração a ser levada a cabo por um bom governante.

A tradicional interpretação escravista desse governo humano sobre a Natureza vem tendo consequências perniciosas e ameaçando a existência da própria humanidade, além de dar vazão ao absurdo ético de a humanidade escravizar seres vulneráveis agindo como cruéis donos de escravos – algo que Jesus, se não chegou a condenar direta e explicitamente no contexto do século I da Era Comum, repudiaria com toda a força no contexto sociocultural de hoje. Daí vem ganhando força a leitura alternativa humanitária desse trecho da Gênese.

Não convém celebrar a ressurreição de Jesus, o triunfo do Divino sobre a sofrida morte na cruz, alimentando-se de algo que veio diretamente da miséria, sofrimento e morte violenta de tantos animais, tratados como se fossem meros objetos de se comer. É preciso abandonar a crença, cada vez mais convencionada como anticristã, de que o ser humano é autorizado a tratar os animais não humanos como seus escravos. O ideal é que, ao menos nessa Semana Santa, o prazer egoísta do paladar dê lugar à empatia compassiva e a imagem da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil que ilustra este artigo realmente faça sentido e seja seguida à risca.

Se você é cristão ou seguidor de religiões que celebram as estações do ano, é hora de fazer o que diz a mensagem da igreja mencionada e celebrar de verdade a vitória da vida sobre a morte, aplicando-a à nossa relação com os animais não humanos. Vegetarianizar o equinócio setentrional de primavera e a Semana Santa será de verdade uma vitória da vida simbolizada pelos vegetais comestíveis sobre a morte imposta aos animais vítimas da pecuária e da pesca.

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