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A não solução da retrogradação política brasileira
Protestos como os atuais no máximo só poderão cortar folhas doentes, deixando a raiz da doença política brasileira intacta.

Protestos como os atuais no máximo só poderão cortar folhas doentes, deixando a raiz da doença política brasileira intacta.

Brasília se degenera a um ritmo mais assustador do que em outras épocas. Enquanto a população protesta contra Marco Feliciano, Renan Calheiros e outros personagens bizarros da política brasileira, o regressismo (forma fortalecida do conservadorismo, que não simplesmente conserva o que não presta, mas também revoga avanços nos direitos humanos e socioambientais) corporativo, empreiteiro, latifundiário e teocrático vem completando sua dominação sobre os poderes Executivo e Legislativo federais e de diversos estados e cidades. Os protestos empreendidos hoje em dia podem até derrubar os nomes mais podres, mas infelizmente não conseguirão fazer nada além disso, nada que vá cortar a raiz do mal que ronda a capital federal e impedir de verdade a escalada da direita retrógrada.

Nesses dias cada vez mais nebulosos, donos de grandes terras, teocratas evangélicos e empresários poderosos se aliam com o Governo Federal e impõem seus interesses privados goela abaixo da sociedade. Hidrelétricas destruidoras avançam com o apoio repressor da polícia militar e das forças armadas, destruindo rios, florestas e culturas indígenas e ribeirinhas. . Corruptos condenados e internacionalmente procurados brindam no alto escalão do poder. Leis antiambientais e antilaicas passam a despeito dos protestos populares e fazem o Brasil correr cada vez mais o risco de virar uma teocracia pentecostal e ruralista…

A direita se renova, se reforça e triunfa tanto subjugando, por via de facções internas e da realpolitik, partidos que outrora eram reconhecidos como de esquerda, como PT e PSB, como ameaçando lançar ou ressuscitar partidos assumidamente de direita, como PMB e Arena. Enquanto isso, a esquerda restante, confinada no Congresso ao PSOL e a poucos nomes sobreviventes de partidos ex-esquerdistas, de tão pouco numerosa, não consegue exercer uma oposição suficientemente eficiente sobre os abusos da fortalecida direita.

Nesse contexto, o grito do povo parece não ter efeito. Protesta-se muito, mas os políticos, sejam eles parlamentares ou governantes, não estão nem aí. Mensaleiros continuam com seus mandatos. Ruralistas marcam presença forte na Comissão de Meio Ambiente do Senado. Opositores dos Direitos Humanos dominam a Comissão de DH e Minorias da Câmara, O desenvolvimentismo da ditadura é desarquivado e posto em prática. Tudo isso acontece a despeito de tantos protestos.

E aliás, mesmo se os protestos conseguirem derrubar Feliciano, Renan Calheiros e alguns outros nomes, a doença brasileira da política imoral vai continuar. Mesmo as mais fortes manifestações têm-se destinado apenas a tentar corrigir absurdos graves, a aliviar feridas e sintomas dessa patologia. Nada, nada mesmo, tem sido feito pelas massas indignadas para mudar de verdade o estado de coisas, curar essa doença, fazer que a mudança seja algo maior do que a troca de uma pequena parcela dos parlamentares.

Mesmo se esses nomes abjetos caírem, absolutamente nada vai impedir que novos nomes igualmente corruptos surjam. E o governo Dilma, conservador até o talo, vai continuar forte. E, do jeito que está hoje, não teremos nenhum nome de esquerda, eticamente idôneo, para impedir que, em 2014, a Margaret Thatcher brasileira se reeleja ou que algum outro nome bizarro também de direita, como Eduardo Campos, Aécio Neves, José Serra ou mesmo o infame Jair Bolsonaro, corra o risco de ultrapassá-la no segundo turno.

Além do mais, ainda que Marco Feliciano, Renan Calheiros, Blairo Maggi e os mensaleiros com mandato acabem não sendo reeleitos, nada vai impedir que as bancadas ruralista e teocrática sejam mantidas poderosas, novos personagens absurdos estreiem e as grandes empreiteiras envolvidas com violações dos direitos humanos e do meio ambiente venham a comprar o próximo governo através do financiamento da campanha eleitoral do vencedor.

E mesmo se algum nome forte surgisse na esquerda (leia-se PSOL) e derrotasse a direita nas urnas no ano que vem, as condições de governabilidade seriam limitadíssimas e inviabilizariam qualquer projeto progressista e socialista de poder, porque não teremos deputados e senadores de esquerda em número suficiente para vencer quedas-de-braço contra os parlamentares conservadores que hoje são, no mínimo, 90% do Poder Legislativo brasileiro. Mesmo hoje não há mais tempo de aparecer um número grande o bastante de potenciais candidatos vitoriosos a deputado federal e senador esquerdistas, admiráveis e confiáveis aos olhos da população.

Ou seja, nada hoje tende a curar a doente política brasileira a partir da raiz. Reiterando esse fato, nada vem sendo proposto para se conseguir algo além de cortar folhas doentes – e nada impede que mais folhas doentes nasçam no lugar. Nem o velho sonho da revolução socialista parece fazer sentido no contexto brasileiro de hoje, com a população pobre e de classe média-baixa hipnotizada pelo sonho do consumo e desprovida, em sua maioria, da consciência de classe necessária para ver Dilma Rousseff e o PT como o que realmente são – traidores que tornaram o poder político federal ainda mais apodrecido e precisam ser derrubados do poder em favor de um governo realmente popular.

Além disso, a precariedade e conservadorismo da educação pública e privada brasileira* impede a conscientização de classe necessária às massas mais jovens para desencadear insurreições revolucionárias contra a ordem mais que injusta que está aí. Não é à toa que até a juventude, numa parcela notável, vem sendo contaminada por uma onda de alienação e conservadorismo político e religioso.

A abolição desse Estado, por sua vez, mesmo defendida por cada vez mais pessoas de esquerda, é na realidade de hoje apenas um sonho distante. Isso porque os brasileiros ainda estão muito longe do amadurecimento ético que lhes permita viver tendo como sua única “polícia” os princípios éticos e a consciência. Ainda é fortíssima a cultura de só saber viver em ordem sob a coerção da polícia e do poder judiciário, tanto que o Brasil é um dos países cujas populações mais recorrem aos meios judiciais ou à ameaça de processo para resolver contendas.

Com tudo isso, precisamos pensar, debater e planejar: como podemos curar as doenças da imoralidade política e do regressismo no Brasil? Como incitar a população brasileira a não só protestar com exigências, mas também a se insurgir e revolucionar? Como fortalecer a esquerda antes que ela seja criminalizada por uma eventual teocracia fascista ou tenha sua já pequena representação parlamentar completamente aniquilada pela realpolitik que endireitou o PT e possivelmente vai endireitar até o PSOL, último bastião da esquerda no Congresso, no futuro?

Precisamos curar a árvore a partir da raiz e do tronco, porque só cortar as folhas secas e os galhos podres não cura essa doença. Soluções precisam ser discutidas já, nos momentos em que não estivermos ocupados trabalhando, estudando ou protestando contra Feliciano, Calheiros e outros nomes escrotos.

*Ao contrário do que muitos direitistas dizem sobre apenas a pedagogia de esquerda ser uma doutrinação ideológica, a escola conservadora também é uma potente doutrinadora, por sua vez de direita, ao reproduzir a ideologia dominante.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Danizita L.

março 29 2013 Responder

O PT hein…Quem diria, um partido que sempre levantou a bandeira da igualdade, da luta contra a repressão e opressão, agora se tornou vergonhosamente um tremendo reacionário,estranhamente e ironicamente se aliando a partidos conservadores,fazendo com que uma direita teocrata destruidora de direitos humanos e ambientais ganhe cada vez mais força. Esse partido nunca cheirou a coisa boa mesmo, pra se manterem no poder são capazes de virar os maiores conservadores do mundo e trair a própria ideologia como de fato já fizeram,mas é claro que esses fundamentalistas não vão se contentar em ficar nas sombras desse governo, como os outros, já deram provas que querem alçar vôos cada vez mais altos a presidência é só uma questão de tempo…

Tanira Azevedo

março 29 2013 Responder

Textos de falsa autoria também não são permitidos aqui, exceto se for pra me mostrar pra eu desmentir.

Arnaldo Jabor negou a autoria desse texto fascista: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ha-um-sub-eu-rolando-na-internet,190734,0.htm

Além disso, textos que depreciem o povo brasileiro não são bem vindos por aqui.

RFS

Tanira Azevedo

março 29 2013 Responder

Alto lá, não é Brasília que degenera não … quem degenera e está degenerando o BRASIl são os maus eleitores, pois toda essa podridão não dá em árvores na Esplanada dos Ministérios… essas frutas podres são enviadas para Brasília na maior sem vegonhice e cara de pau… e quem faz essa pouca vergonha: o eleitor que quer se locupletar, tirar muitas casquinhas e mamar o sangue e leite contaminado da mãe pátria… Quem manda essa sujeirada prá cá? – podia mandar pra Curitiba, Belém, Campo Grande se lá fosse a “capital da república” – é eleitor sem vergonha… Então, senhores, alto lá, vamos colocar essa “sarna” no seu devido lugar e deixem Brasília em paz, uma bela e maravilhosa cidade que nada tem a ver com essa degenerecência da raça humana.

    Robson Fernando de Souza

    março 29 2013 Responder

    Não falei da cidade de Brasília, mas sim de Brasília como sede do poder político brasileiro.

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