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Direitos e libertação só para humanos: o estranho caso dos esquerdistas especistas

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Obs.: Antes que alguém venha se queixar, este artigo não se refere indiscriminadamente a “quem come carne”, e sim especificamente àquelas pessoas que se dizem de esquerda mas são abertamente especistas (e conservadoras) contra os animais não humanos.

Recentemente falei dos veg(etari)anos reacionários, que dizem querer a libertação animal mas ora não dão a mínima para as causas de libertação humana (como o feminismo, a causa LGBT e a luta de classes), ora dizem explicitamente ser contrários a elas. Concluí, ao terminar esse primeiro texto, que nada seria mais justo do que falar também do outro lado da moeda dos libertadores seletivos: aqueles que se dizem de esquerda mas assumem uma visão de mundo francamente conservadora para com os animais não humanos e notavelmente reacionária para com a luta dos defensores da Libertação Animal – eu os chamo aqui de “esquerdistas seletivos”.

Assim como no caso dos veg(etari)anos conservadores, vi uma razoável variedade de opiniões entre os esquerdistas seletivos. Costumam ser pessoas fechadas ao debate sobre como veem os animais, muito embora isso não os impeça de alfinetar ou mesmo desqualificar a causa de quem respeita os animais. Veem-nos como seres que não merecem a inclusão moral apesar de sua capacidade de manifestar sofrimento e sentir dor – ou seja, sua vulnerabilidade a ações morais destrutivas. E não aceitam a possibilidade de rever esse pensamento.

Justificam esse preconceito de formas variadas. Uns falam que, como os animais não podem assumir deveres nem têm discernimento moral sobre suas ações, não podem ser considerados sujeitos morais de direito. Outros esnobam a Ciência (que prova que muitos animais sofrem com ações morais negativas), creem que plantas também são sencientes e usam essa crença, sem ao menos querer provar sua coerência, para dizer que animais e plantas merecem os mesmos direitos – nenhum.

Alguns usam, como todo carnista, inúmeras falácias e preconceitos para tentar desqualificar o veganismo e negar a necessidade de reconhecer direitos aos animais não humanos. Tem também aqueles que acusam o veganismo de ser uma causa burguesa e conservadora – talvez por terem presenciado manifestações reacionárias de alguns dos veganos criticados no meu outro texto e acharem que o veganismo implica necessariamente comprar, por exemplo, cogumelos caros, tofus idem e hambúrgueres de soja que atualmente custam o dobro do preço dos de carne. Tantos outros simplesmente não se importam com os animais que não sejam seus cães e/ou gatos.

E todos eles detestam quando o vegetarianismo e o veganismo demonstram ter alta possibilidade de se massificar no futuro, visto que perderão, pelo menos socioculturalmente, o direito de comer carne, laticínios, ovos e mel tão logo as espécies dos animais que originaram esses alimentos passem a ser integralmente incluídas na esfera moral humana.

Curiosamente sua tentativa de justificar seu especismo lança mão de bases argumentativas similares e, por que não, equivalentes àquelas milenarmente usadas para excluir outros seres humanos da esfera de consideração moral. Basicamente transformam diferenças em motivos para desigualdades, como ser mulher, ser estrangeiro, ser de culturas tachadas de “atrasadas” e “primitivas”, ser de “raças inferiores”.

É basicamente a mesma estrutura de pensamento dos conservadores humanos, dicotomizando Cultura X Natureza para rejeitar a alteridade, negar direitos, discriminar e explorar, distinguindo aqueles julgados como mais próximos da Natureza “dominável” (animais não humanos, mulheres, negros, indígenas, estrangeiros, pagãos etc.) daqueles mais “próximos” da Cultura que quer dominá-la (humanos, homens, brancos, “civilizados”, compatriotas, cristãos etc.)

Outra linha argumentativa deles é negar o respeito aos animais por pretextos relativos a atributos supostamente intrínsecos à sobrevivência humana, como sermos “naturalmente onívoros”, o argumento da “cadeia alimentar”, a “lei da vida”, a “lei do mais forte”, entre tantos outros cujas bases compartilham com a direita a “natureza humana” segundo a qual o ser humano teria uma natureza corrupta, violenta e egoísta da qual seria impossível ou inviável escapar.

Se por um lado essa visão distorcida dos Direitos Animais é realmente devida ao conservadorismo animal/ambiental de muitos desses esquerdistas seletivos, por outro há muitos que tiveram uma má impressão do veganismo enquanto implicação prática dos DA porque infelizmente o pouco contato que tiveram com o ideário abolicionista foi justamente com os veg(etari)anos reacionários.

Vendo-os afirmar coisas como “O ser humano é inerentemente cruel”, “A raça humana deveria ser extinta” ou “Chamar alguém de ’humano’ deveria ser uma ofensa” e fazer pouco caso de lutas sociais como a feminista, a LGBT e a de classes, os esquerdistas em questão veem neles um poço de conservadorismo, de descompromisso em libertar também os seres humanos da condição de pessoas desconhecedoras da ética expandida não antropocêntrica. E quando o primeiro contato do indivíduo com determinada causa é através de representantes reacionários e/ou mal comportados dela, a primeira impressão é tão ruim que se perde o interesse de procurar conhecê-la e estudá-la melhor e daí tirar uma conclusão realmente racional e bem concebida sobre ela.

Quando se tem contato com o veganismo através de veganos reaças e misantropos, é quase natural que a pessoa acredite que está lidando com uma causa de direita, conservadora e anti-humanista, e vá fazer o possível para desqualificar os Direitos Animais como se fosse uma causa que não combina com o humanismo da esquerda libertária e olhar com preconceito para os veg(etari)anos como se fossem todos reacionários que desprezam o humanismo secular.

Mas voltando ao lado dos que realmente trazem consigo uma visão conservadora sobre o (não) merecimento de direitos básicos pelos animais não humanos, nada justifica racionalmente, fora às vezes o desconhecimento, o uso de falácias e a exposição de preconceitos (por exemplo, de que comer carne seria essencial à saúde humana) e a distorção de discursos sociológicos (como o de Foucault sobre verdade e poder) na tentativa de se construir uma realidade em que os animais não humanos não merecem direitos, nada contesta isso “e ponto”.

Nem é justificável a manifesta falta de empatia e sensibilidade de muitos esquerdistas seletivos para com seres que sofrem, sentem dor e não gostam de ser mutilados, aprisionados, explorados e assassinados. Pelo que vários deles falam sobre apenas seres humanos merecerem consideração moral, parecem ser capazes de matar seus cães e gatos a pauladas e facadas a qualquer momento e não sentir qualquer remorso por isso, ou de apoiar a revogação de todas as leis municipais, estaduais e federais existentes de proteção animal que não sejam diretamente ligadas à questão ambiental.

Porém, curiosamente, essas pessoas não conseguem assumir explicitamente essa postura de insensibilidade transformada em crueldade, “precisando” enrolar e encher o interlocutor de “veja bem’s” para não confessarem explicitamente que não dão a mínima para o sofrimento animal.

Devo relembrar o mesmo que falei no artigo sobre veg(etari)anos conservadores: mesmo existindo veganos que, sendo reacionários, violam o princípio da libertação animal humana e não humana, os Direitos Animais são uma causa libertária e de esquerda. Contêm diversos pontos em comum com todas as demais causas da esquerda emancipacionista, como o questionamento de uma ordem social e moral injusta, a luta pela substituição de códigos morais e legais injustos e desigualitários por princípios éticos pautados na igualdade e na alteridade, a rejeição de ideologias legitimadoras de desigualdades morais e de sistemas de exploração, o reconhecimento da dignidade inerente aos sujeitos morais vulneráveis e a libertação dos mesmos de contextos socioeconômicos de injustiça e dominação, entre tantos outros.

Portanto, reitero também o que foi colocado no outro texto, dessa vez no sentido inverso: dizer-se de esquerda mas ser um especista que não aceita a necessidade de libertar os animais não humanos da exploração por mãos humanas, é tão incoerente quanto um veg(etari)ano querer a libertação animal mas esnobar e se opor a causas de libertação humana. Ambos legitimam formas muito semelhantes de exploração de sujeitos morais vulneráveis e acabam por defender, querendo ou não, a continuação de um contexto de injustiça e dominação, muitas vezes violenta, dos mesmos.

Convido os esquerdistas seletivos que eventualmente leiam este artigo à seguinte reflexão: qual o sentido de ser esquerdista para com seres humanos em situação de vulnerabilidade sociopolítica mas, ao mesmo tempo, ser um direitista radical para com animais não humanos submetidos a situações muitos semelhantes de dominação e antialteridade?

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9 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernanda

abril 8 2013 Responder

Curso Ciências Biológicas e confesso que me surpreendo com a falta de espaço destinado a discutir o veg(etari)anismo na minha universidade. Era de se pensar que, por serem profissionais que ensinam que não somos superiores aos outros animais, também trariam à discussão a questão dos direitos dos animais não-humanos, mas não é o que acontece .-.

camila

abril 4 2013 Responder

muito bom!
não tem nada mais ultrapassado do que antropocentrismo…

Vinícius

abril 1 2013 Responder

Ótimo texto, complementa muito bem o anterior.

Mas acho que faltou algumas informações cruciais sobre senciência animal, por exemplo aquele parecer de Cambridge sobre a mesma ter sido suficientemente evidenciada.

Outro argumento bom é denunciar a analogia apresentada por alguns carnistas de que “não temos certeza se animais são MESMO sencientes, logo é plausível ignorar qualquer evidência e fazer as mais diversas atrocidades com eles”. Ela não faz o menor sentido já que é impossível ter certeza absoluta de senciência real em qualquer ser que não seja nós mesmos. Na filosofia, isso chama-se “problema de mentes”. Mesmo assim, visto que temos diversos sinais evidenciados de senciência (embora nunca certeza) humana, não costumamos escravizar humanos. Por que exatamente o mesmo raciocínio não pode ser aplicado a uma imensa quantidade de animais com evidências plausíveis de senciência?

Acho que irei redigir algo a respeito desse raciocíno pró direitos animais num futuro blog meu :P

    Robson Fernando de Souza

    abril 1 2013 Responder

    Valeu, Vinícius. Se bem que não entrei tão a fundo nessa parte da senciência porque ela não se aplica especificamente aos esquerdistas especistas, mas sim a todo aquele que nega os Direitos Animais, incluindo direitistas.

Flavio

abril 1 2013 Responder

Alguns usam, como todo carnista,…

Generalizando ??

    Robson Fernando de Souza

    abril 1 2013 Responder

    Infelizmente é sim uma generalização aos carnistas. Todos eles, sem nenhuma exceção, defendem o consumo de alimentos de origem animal recorrendo a falácias e ao preconceito. Não se sabe de nenhum que não tenha usado ambos os recursos sujos pra fazer essa defesa.

    Vinícius

    abril 1 2013 Responder

    Carnista significa alguém que usa falácias argumentativas para argumentar pró-consumo de carne. Não é generalização. Seria generalização se o Robson tivesse dito “Todos os que consomem carnes”. Há uma confusão nos termos de sua parte.

Fábio

abril 1 2013 Responder

“nada justifica racionalmente (XYZ) na tentativa de se construir uma realidade em que os animais não humanos não merecem direitos, nada contesta isso “e ponto”. Cara, isso não tem um pingo de objetividade. É achismo puro e absoluto. Assim como é puramente subjetivo dizer que o homem é mais importante que as demais espécies. Você está fazendo exatamente a mesma coisa, só que pro outro lado.

Uma coisa importantíssima é reconhecer a dose fatal de subjetividade que todas essas afirmações categóricas que você fez, têm, invariavelmente. Se você me disser “Animais sofrem”, eu vou concordar. Isso é ciência. Animais têm sistema nervoso e sentem dor… chega de Descartes. O resto é sua opinião (e por ser sua opinião, ela pode estar tão errada ou tão certa como a de outra pessoa – veja bem, PODE) e só. Não fale pelo mundo objetivo. Ou pelo menos saliente a subjetividade das suas afirmações… os desavisados podem não saber.

E uma pergunta: uma vez que o leão não sabe estar machucando a zebra, mas NÓS sabemos, não estamos sendo coniventes com o sofrimento animal ao deixá-lo comê-la? É como deixar a criança colocar a mão no fogo por ela não ter consciência de que o fogo machuca. Um pai tem a responsabilidade de cuidar de seu filho bebê assim como temos, então, a responsabilidade de zelar pelos animais, irracionais. Por que deveríamos refrear nossos impulsos carnívoros, mas não o de outras espécies? Não vai me dizer que só não fazemos isso para não impor nossa maneira de ser aos outros animais, ein?

    Robson Fernando de Souza

    abril 1 2013 Responder

    ““nada justifica racionalmente (XYZ) na tentativa de se construir uma realidade em que os animais não humanos não merecem direitos, nada contesta isso “e ponto”. Cara, isso não tem um pingo de objetividade. É achismo puro e absoluto. ” – Substitua o XYZ pelo trecho certo e vai ver que eu não fiz nenhuma estipulação de verdade a priori, e sim critiquei as formas dos especistas de declarar algo verdade por meios falaciosos e preconceituosos – ou seja, ilógicos.

    “Não fale pelo mundo objetivo. Ou pelo menos saliente a subjetividade das suas afirmações… os desavisados podem não saber.” – Isso eu sei. O problema é quando os especistas impõem uma realidade objetiva segundo a qual animais não merecem direitos – e note que em nenhum momento eu falei diretamente de uma realidade objetiva.

    “E uma pergunta: uma vez que o leão não sabe estar machucando a zebra, mas NÓS sabemos, não estamos sendo coniventes com o sofrimento animal ao deixá-lo comê-la?” – Se o leão não comer a zebra, morrerá de fome.

    “Por que deveríamos refrear nossos impulsos carnívoros, mas não o de outras espécies?” – Porque animais carnívoros não podem se alimentar de vegetais. Seus corpos são preparados pra comer apenas carne e vísceras, e não outros alimentos.

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