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mar13

“Pastor cachorro”: imagem compartilhada contém violência simbólica contra cães

pastor-cachorro

A imagem acima vem circulando no Facebook, em referência a pessoas preferirem um cão pastor-alemão a pastores “tudofóbicos” como Marco Feliciano. Ela afirma que, entre um e outro, a existência do cachorro é mais digna do que a do pastor intolerante por o primeiro não ser racista nem homofóbico nem intolerante contra outras religiões. A intenção da imagem é ótima, mas eticamente, numa grave contradição, atira nos próprios pés de quem escreveu, por incitar, atráves de uma violência simbólica que passou despercebida na criação da imagem, o preconceito contra cães.

O que é o adjetivo “cachorro” usado no contexto da figura, senão uma coleção de desqualidades – intolerante, corrupto, desonesto, odioso, hipócrita etc.? Fica claro que alguém ser “cachorro” é ser uma pessoa ruim. Pela lógica, indivíduo cachorro = indivíduo intolerante, odioso, idiota etc.; logo, cachorro = intolerante, odioso, idiota etc. A imagem mental do cachorro acaba sendo gravemente depreciada, numa violência simbólica que estimula o preconceito contra cães.

Da mesma forma que ser negro se torna socialmente um verdadeiro fardo por causa, entre outros problemas, da associação cultural da palavra “negro(a)” a coisas consideradas ruins, relacionadas às trevas e ao mal, usar “cachorro” como adjetivo depreciativo acaba reforçando uma péssima imagem de como os cães são, totalmente avessa ao verdadeiro caráter desses animais – que são fiéis, carinhosos, brincalhões, carentes etc. E isso corre o risco de ter como efeito prático a inibição, até certo ponto, das adoções de cães abandonados.

A imagem combate intolerância com preconceito, e isso não é nada razoável para os movimentos de emancipação humana e não humana.

A saber: Violência simbólica é um fenômeno social que consiste em acostumar pessoas a se acondicionarem a um sistema opressor, “lembrando” às categorias dominadas que “o lugar delas” é a subserviência às dominantes, e “lembrando” às dominantes de que “seu lugar” é no alto da hierarquia social, oprimido os dominados. Inclui, por exemplo, naturalizar desigualdades sociais e associar imagens negativas a minorias políticas preconceituadas e subjugadas, como mulheres, negros, LGBTs, minorias (ir)religiosas e também animais não humanos.

imagrs

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Horácio

abril 5 2013 Responder

Meu fox paulistinha ficou extremamente sensível em relação a violência simbólica depois de fazer pós graduação em semiótica ele irá contratar um siamês amigo nosso para entrar co uma representação legal contra esta charge.

João

março 30 2013 Responder

Nossa nessa você forçou a mão hein? Terrível texto.

    Robson Fernando de Souza

    março 30 2013 Responder

    Por quê?

Luiz Silveira

março 30 2013 Responder

Achei que usou cachorro apenas para relacionar com pastor alemão. Ainda bem que não existe burro alemão ou jumento alemão. Seria chato, já são tão injustiçados.

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