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O mal das certezas precipitadas

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Um dos grandes motivos das brigas de casais, das desavenças entre as pessoas e da intolerância contra as diferenças é a certeza precipitada. É tomar a priori como certo um acontecimento ou característica que não se sabe se realmente condiz com a realidade ou é apenas uma crença infundada. É, aliás, transformar meras crenças factuais em certezas absolutas que resultarão em conflitos muitas vezes desnecessários.

Isso acontece muito, por exemplo, quando o namorado ciumento diz, com raiva, à moça: “Não, você está é procurando macho na academia!”, numa situação em que o homem da academia com quem ela teria se “relacionado” era simplesmente o instrutor dela e estava treinando-a. Ou quando a diretoria da empresa pune um empregado que acabou impedido de ir ao trabalho e avisar a tempo por que não pôde comparecer, como se considerasse de antemão que a falta teria sido por “vagabundagem” ou descompromisso com a missão da companhia. Ou então quando alguém, diante de uma catástrofe natural, arroga que “foi castigo de Deus” sem ao menos saber as causas geológicas ou climáticas por que tal cataclismo aconteceu.

A certeza precipitada também parece ser a força motriz da opinião de conservadores que acreditam, por exemplo, que os pobres o são porque “são preguiçosos” ou todos os criminosos o são por serem “intrinsecamente maus”, sem nem mesmo terem o interesse de verificar se suas crenças constituem a verdade. Assim como impele a polícia a prender um indivíduo que, do alto de sua miséria, furtou do supermercado alguns pacotes de arroz, como se tal furto tivesse sido indiscutivelmente movido por um “instinto criminoso” a ser implacavelmente combatido com a força da lei.

Da mesma forma, é o impulso que move todos os preconceitos. Racial, quando brancos racistas acreditam que negros, pela cor da pele, tendem à bandidagem ou à incapacidade de vencer na vida. Religioso, quando, por exemplo, cristãos intolerantes prejulgam ateus como se sua descrença os fizesse ser pessoas más e infelizes. Homofóbico, quando um intolerante crê que uma pessoa amar outra do mesmo sexo a predispõe a ser sedenta de sexo homoerótico a todo momento e em qualquer lugar. Entre tantos outros casos em que certezas infundadas rotulam minorias como se fossem “ruins” por sua(s) característica(s) que as torna(m) minoritárias, ou um indivíduo prejulga outro por características físicas ou de personalidade.

Graças a esse comportamento infeliz, brigas movidas por ciúme destroem relacionamentos, vítimas das injustiças sociais são tratadas como bandidos, o preconceito desgraça a vida de inúmeras pessoas, políticas sociais são desdenhadas e desvalorizadas, entre tantas outras consequências perniciosas que poderiam ser evitadas com uma reflexão humana sobre a precipitação em dar uma certeza apriorística.

Para evitar tal mal, é necessário questionarmos firmemente toda e qualquer crença precipitada que apareça em nossa mente, antes que ela se firme como uma certeza a motivar brigas, preconceitos e demais injustiças. Por exemplo, antes de acreditarmos que nosso(a) namorado(a) estava nos traindo, vamos verificar se isso é verdade ou é apenas uma impressão infeliz nossa.

Antes de acharmos que pobres são preguiçosos e “vagabundos”, procuremos estudar as causas (não só individuais, mas também sociais) de sua pobreza. Antes de julgarmos uma minoria como se fosse dotada de uma característica odiosa, vamos conhecer de verdade essa minoria, em seus costumes e crenças, antes de darmos qualquer julgamento precipitado sobre ela. Antes de pensarmos que veganos são subnutridos por não consumirem nada de origem animal, leiamos sobre nutrição vegetariana primeiro.

Antes que as certezas precipitadas nos levem a cometer injustiças muitas vezes irreversíveis, adotemos para nossas vidas a filosofia por trás do seguinte ditado atribuído a Aristóteles: “O ignorante afirma. O sábio duvida. O sensato reflete.” Ao invés da certeza a priori, vamos dar lugar à dúvida sobre se aquela crença que nos tenta a uma conclusão apressada condiz com a realidade, se a impressão que temos sobre algo ou alguém representa uma verdade ou é só uma impressão preconceituosa.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernando Soares

maio 4 2013 Responder

“Assim como impele a polícia a prender um indivíduo que, do alto de sua miséria, furtou do supermercado alguns pacotes de arroz, como se tal furto tivesse sido indiscutivelmente movido por um “instinto criminoso” a ser implacavelmente combatido com a força da lei.”

A polícia não precisa saber as motivações ou instintos que fazem alguém cometer um crime para prender alguém que cometeu um crime, e não tente relativizar moralmente o furto.

    Robson Fernando de Souza

    maio 5 2013 Responder

    Ou seja, o furto de um pacote de comida por motivos de miséria é igual ao furto de um carro de luxo. É isso?

Fernando Cônsolo Fontenla

maio 4 2013 Responder

Quem tem paciência para responder a cada bobagem dita? Chega uma hora em que falta energias para explicar o veganismo. Exemplo:

http://www.youtube.com/watch?v=gleL6gAw0e4

Este video é um monte de senso comum que ninguém vai rebater…

    Robson Fernando de Souza

    maio 4 2013 Responder

    O problema é que esse é em inglês =/

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