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O racismo da defesa exclusivista do molde “cristão” de família
A família "cristã" idealizada pelo imaginário conservador: branca, com poucos filhos e amparada por remuneração robusta

A família “cristã” idealizada pelo imaginário conservador: branca, com poucos filhos e amparada por remuneração robusta

Um detalhe que poucos percebem nos esforços do fundamentalismo cristão de “defender a família” é o caráter racista dessa defesa e o eurocentrismo do modelo familial dito “cristão”. Os militantes conservadores consideram “pecaminosos” e “desviados” aqueles modelos de família que destoem do padrão branco-europeu e burguês de um casal heterossexual monogâmico acompanhado de poucos filhos.

Esse racismo pode ser percebido por pelo menos dois meios: primeiro, a negação e demonização de padrões africanos, ameríndios e asiáticos de família em promoção do padrão típico da burguesia euro-americana; segundo, a própria exibição imagética de “famílias cristãs” quase sempre brancas e vestidas de acordo com os costumes europeus modernos em qualquer um dos membros da família.

Não se enxerga nessa “defesa da família” a diversidade de organizações familiais ao redor do mundo. A África por exemplo, com seu enorme universo de culturas e etnias, conta com inúmeros modelos de composição familial, sendo mais conhecido o modelo de família estendida assim descrito pelo site de Ifatolà:

“O sistema modelo de família, para o africano, normalmente é a numerosa. Onde normalmente vivem juntos, pai, mãe, tios, tias, primos e primas e outros parentes em um mútuo amor e respeito.”

Além disso, eram comuns na África Subsaariana pré-colonial e colonial as relações homoafetivas, com direito a relações conjugais entre pessoas do mesmo sexo em determinadas situações e culturas, conforme relata Stephen O. Murray neste texto.

Entre os povos nativos das Américas, também  há uma considerável diversidade familial, tendo destaque também o modelo extenso, mencionado em documento da Secretaria de Educação do Paraná:

“Em geral, a base da organização social de um povo indígena é a família extensa, compreendida como uma unidade social articulada em torno de um patriarca ou de uma matriarca por meio de relações de parentesco ou afinidade política ou econômica.

Uma família extensa indígena geralmente reúne a família do patriarca ou da matriarca, as famílias dos filhos, dos genros, das noras, dos cunhados e outras famílias afins.”

Da mesma forma, a homoafetividade era, e em alguns casos ainda é, comum entre os nativos da América do Norte, conforme nos mostram os winkte dos povos Sioux e os “duplos espíritos” de diversas culturas daquele subcontinente, estes últimos miticamente dotados ao mesmo tempo de um espírito feminino e um masculino e presumivelmente bissexuais.

Por isso, negar a validade de famílias que não correspondem ao padrão cristão burguês euro-americano e considerá-las “pecaminosas” é inferiorizar e demonizar as culturas praticadas e trazidas por pessoas de raças não brancas.

Por outro lado, é curioso que, quando procuramos por imagens de “família cristã”, mais de 80% das fotos e desenhos de famílias estereotipicamente cristãs sejam de famílias brancas, de classe média ou alta e vestidas conforme os costumes europeus contemporâneos. Em pesquisa quantitativa feita no Google Imagens por essa expressão, das primeiras 50 fotos e desenhos de famílias cujos indivíduos podiam ter sua raça identificada, apenas seis tinham pelo menos um membro negro, e todos estavam vestidos como integrantes de famílias endinheiradas típicas da Europa e da América Anglo-Saxônica.

À primeira vista, não parece haver relação entre essa breve pesquisa e o modelo dito “cristão” de família. Mas, quando conhecemos um pouco da organização familial e da homo e bissexualidade entre povos nativos da África e da América, passa a fazer sentido o caráter alvi-eurocêntrico e burguês da tal “família cristã”.

A imagem mental que temos é que esse modelo defendido como “único aprovado por Deus” atende aos parâmetros etno-raciais da burguesia urbana da Europa moderna – brancos, vestidos como possuidores de alta remuneração e com poucos filhos. Não se identifica com os tantos modelos familiais africanos e ameríndios nem com as famílias de numerosos filhos dos meios pobres rural e urbano dos próprios países cristãos.

Percebendo todos esses detalhes de como é idealizada a “família cristã” no imaginário popular, acabamos por constatar que a tal “defesa da família”, além de ter caráter racista, é etnofóbica, eurocêntrica e elitista. Ela nega a validade das famílias de outras culturas e herdadas ao mundo ocidental moderno pelas raças não brancas, além de excluir do seu imaginário “modelo ideal de família” aqueles conjuntos familiares pobres das cidades e do campo.

Ou seja, a “defesa da família” por parte dos cristãos conservadores é nada menos que a própria ameaça à família, além de ameaçar aquelas culturas e subculturas que divirjam dos padrões europeus. Ela própria periga condenar à assimilação cultural eurocêntrica, e à consequente aniquilação das suas culturas, os não brancos.

imagrs

13 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Liliane

julho 28 2015 Responder

Ora, quanta bobagem! Quanto racialismo, esquizofrenia e loucura! ATÉ ONDE VÃO OS ESQUERDISTAS para jogar uns contra os outros? Quer um modelo “anti-eurocêntrico” de família??? Vá morar na África, de preferência num país comunista. Vá para a Rússia. Vá para um país islâmico. Porque aqui no Brasil temos de tudo, meu chapa, desde negros, mulatos, brancos, morenos-claros, índios, amarelos, ruivos… até os branquelões estilo bem europeu, lá no sul. E para seu governo, somos uma maioria de cristãos, sim senhor. Nada contra nenhuma raça, mas contra o COMUNISMO sim! A maior praga da humanidade.

ABSURDO. Nunca li tanta abobrinha num único artigo!!!

    Robson Fernando de Souza

    julho 30 2015 Responder

    Gostaria de saber onde estão o “esquerdismo” e o “comunismo” no texto (considerando que há pessoas cuja posição é de direita mas não se impedem, por isso, de defender liberdades individuais civis). Ou melhor, se e por que ele está, como vc parece alegar, errado.

William de Jesus Silva

novembro 4 2013 Responder

Boa tarde, Robson. Eu li o texto e concordo contigo em tudo. Eu gostaria que você fizesse uma reflexão em cima do que o Vice-Pres. Nacional e pré-candidato a presidente da Repúiblica pelo PSC, Pr. Everaldo, disse a respeito de quem vive nas ruas: “Devemos educar nossos filhos em casa para não aprenderem o que não presta na rua.” Não seria uma forma subliminar de chamar as tribos urbanas de ‘criminosos’ ou apelar para um discurso fascistoide-racista contra os skatistas, rappers, tribos urbanas ligadas à música atual (rock, pop, Electromusic, Axé, Funk, Rap, Hip-Hop e afins) e cosplayers?
Será que ele usou a referida frase pra chamar todo mundo de bandido ou batedor de carteira?
Se puder fazer uma análise acerca do assunto, fico grato.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 5 2013 Responder

    Obrigado, William. Vc tem o link desse discurso desse cara?

Daniel

abril 27 2013 Responder

Excelente texto, Robson.

    Robson Fernando de Souza

    abril 28 2013 Responder

    Valeu, Daniel =)

Raphael

abril 8 2013 Responder

Robson,

Li o seu texto e, não pela primeira vez, creio que há um pouco de exagero.

Não sou conservador ao ponto de ir ao encontro do padrão que você está criticando. Entretanto, acredito que quem defende esse tipo de coisa está pensando somente no modo de viver típico ocidental e burguês – não que queira estendê-lo aos índios, ameríndios, africanos e considerá-los inferiores só porque estão fora do padrão.

Os africanos e indígenas têm o seu modelo de família extensa, como você adequadamente ilustrou. Porém eu pessoalmente não creio que tal coisa daria certo entre nós, caraíbas. As famílias mais numerosas, veja você, são justamente as mais pobres. Seja porque o pobre quer mais gente para ajudar no sustento da casa no futuro, seja por causa da bolsa que recebe para cada filho que tem, seja porque não recebeu orientação sobre sexo seguro e métodos contraceptivos, enfim.

Ademais, você criticou levemente a monogamia, embora não se tenha demorado sobre esse item particular. Defende o ninguém-é-de-ninguém, então? Espero estar equivocado, partindo do pressuposto que foi o mesmo Robson que criticou duramente o comercial da Skol do carnaval.

Despeço-me por aqui.
Abs

    Robson Fernando de Souza

    abril 8 2013 Responder

    Oi, Raphael.

    “não que queira estendê-lo aos índios, ameríndios, africanos e considerá-los inferiores só porque estão fora do padrão.” – Aí é que tá o problema. Grande parte dessa mesma turma pró-“família tradicional” defende também a evangelização desses povos, e isso fatalmente incluiria a substituição de modelos familiais como o comunal pelo modelo nuclear burguês.

    “Porém eu pessoalmente não creio que tal coisa daria certo entre nós, caraíbas. As famílias mais numerosas, veja você, são justamente as mais pobres.” – E não precisamos ter esse modelo de família no nosso contexto social. O problema abordado é considerar um único modelo cultural de família o “correto” enquanto todos os demais, ainda que atendam a contextos socioculturais diferentes, são “errados” e “pecaminosos”. O problema não é que o modelo burguês seja errado, mas sim que os conservadores não respeitam a diversidade de famílias. E isso sim é uma ameaça à família.

    “Ademais, você criticou levemente a monogamia, embora não se tenha demorado sobre esse item particular.” – Em que trecho do texto houve essa crítica à monogamia?

      Vinícius

      abril 8 2013 Responder

      Creio que o Raphael se referiu a essa parte:

      “Os militantes conservadores consideram “pecaminosos” e “desviados” aqueles modelos de família que destoem do padrão branco-europeu e burguês de um casal heterossexual monogâmico acompanhado de poucos filhos.”

      Mas eu discordo que tenha sido uma crítica sua. Apenas foi uma afirmação clara de que monogamia não é o único modelo familiar possível, assim como o modelo burguês também não.

      E, embora não sejam problemas intrínsecos, a família modelo burguês-cristão tem uma grande incidência de opressão através do patriarcalismo ou do matriarcalismo (bem mais raro), ou seja, o conceito de que há chefes na família e que ela não deveria ser gerida diretamente por cada um de seus integrantes.

        Robson Fernando de Souza

        abril 8 2013 Responder

        Valeu, Vinícius =)

          Raphael

          abril 23 2013

          Pronto, era justamente isso. Eu é que interpretei errado. A observação do Vinícius foi impecável.

Vinícius

abril 7 2013 Responder

Ótimo texto! Vou mandar o link dele em todo post que vier defender esse modelo de família conformista, conservadora e eurocêntrica. Bem comum a defesa dessa idiotice em páginas de “orgulho hétero”, que na prática são páginas “anti-homossexualidade”.

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