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Por que os Direitos Animais são ideologicamente esnobados por alguns esquerdistas (Parte 1 de 3)
Elefante símbolo do Partido Republicano: de certa forma, um símbolo do conservadorismo de muitos que dizem defender os animais

Elefante símbolo do Partido Republicano: de certa forma, um símbolo do conservadorismo de muitos que dizem defender os animais

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Da parte de alguns esquerdistas que manifestam pensamentos e costumes especistas, vem ocasionalmente a acusação de que os Direitos Animais seriam uma causa de direita, tendente a um conservadorismo reacionário. Pode-se perceber que as maiores razões para essa difamação ideológica são seu próprio especismo de não enxergar dignidade moral nos animais não humanos, o que lhes legitima o costume despreocupado do consumo de produtos de origem animal, e o preconceito contra o veganismo e seu fundamento ético abolicionista.

Porém, tal visão preconceituosa muitas vezes acaba encontrando “confirmação” nas posturas equivocadas, ainda que não generalizadas, de alguns indivíduos que se dizem veganos. Estes acabam se comportando como autênticos conservadores, opostos às bandeiras humanistas da esquerda, ao separarem, em seus discursos, a libertação animal da humana; tacharem a humanidade de “câncer” e desejarem sua extinção; manifestarem descrença na libertação consciencial da humanidade e acreditarem numa aliança entre o veganismo e o capitalismo, entre outras posturas.

Tais atitudes não pertencem aos princípios dos Direitos Animais, muito pelo contrário. O abolicionismo é uma causa essencialmente canhota, tendo muitos aspectos em comum com as variadas bandeiras históricas da esquerda libertária, em especial os Direitos Humanos. O comportamento e a convicção dessas pessoas, que deformam o próprio ideal da libertação animal, acabam suscitando nos esquerdistas não veganos a impressão de que os DA são dotados de um anti-humanismo e pró-capitalismo reacionários.

Vale portanto diagnosticar os desvios ideológicos que, cometidos por quem se diz vegano mas negligencia a libertação humana, acabam criando um espantalho direitista dos DA e afastando da luta abolicionista o grosso da militância de esquerda. Nisso se inclui uma análise crítica sobre como cada um deles deforma a imagem do abolicionismo, repele muitos esquerdistas e, no final das contas, prejudica a própria causa animal ao anular seu caráter e poder libertários e limitar o declínio da exploração animal.

 

1. Separação forçada entre libertação animal e libertação humana

Não são poucos os “veganos” que separam forçadamente a libertação dos animais não humanos da dos humanos. Dizem defender a abolição da escravidão animal, mas se esquecem da necessidade de agir na dimensão sociopolítica dessa opressão e, por tabela, contra a servidão humana. É como se os seres humanos não fossem animais e assim seu sofrimento na mão de dominadores não fosse contabilizado como uma forma de exploração de animais, não havendo nenhuma relação dialética entre as explorações animais humana e não humana.

Ignora-se que o sistema político-econômico do capitalismo respaldado pela política neoliberal potencializa a escravidão animal e o número e a miséria de suas vítimas. No sentido contrário, negligencia-se também que esse mesmo ciclo de exploração também inflige alienação (em todos os sentidos sociopolíticos dessa palavra), miséria e sofrimento a muitos seres humanos, através tanto do regime de trabalho escravo ou semiescravo que degrada peões, operários de frigoríficos e funcionários de redes de fast-food como dos prejuízos à saúde de milhões de pessoas.

Nessa postura, a fragmentação disciplinar é evidente. Diversas pessoas defendem os animais não humanos e/ou a melhoria das condições de vida dos vegetarianos e veganos de tal forma como se fosse algo separado, por exemplo, dos Direitos Humanos, das lutas dos trabalhadores rurais e urbanos, dos direitos indígenas e do ambientalismo.

Tal compartimentalização das causas libertárias acaba inibindo-as de compreender as ligações carnais existentes entre o antropocentrismo, a destruição ambiental, a escravidão animal, o autoritarismo, a exploração trabalhista, o capitalismo, o neoliberalismo, a concentração agrária, a violação dos direitos indígenas, as doenças decorrentes do consumo de alimentos de origem animal etc. E isso limita muito a eficácia da própria luta dessa gente pela abolição da escravidão animal.

Isso acaba tornando uma notável parcela da militância vegano-abolicionista politicamente inócua e, em última análise, conservativa, visto que passa longe de desafiar o sistema sócio-político-econômico vigente mesmo quando ele é um dos grandes responsáveis por potencializar e agravar a exploração animal. Em outras palavras, conserva a ordem injusta que explora animais humanos e não humanos e, de quebra, diminui de menos os números da matança animal.

Essa mansidão política da parcela da militância que separa a libertação humana da animal é exemplificada pelo movimento de defesa animal chinês. Este é autorizado a atuar por um regime ditatorial que já sabe que ele não irá nem tocar na dimensão anti-humanista da exploração animal. Protesta-se lá, por exemplo, contra as fazendas de peles, a produção e consumo de carne de cachorro e talvez a criação intensiva de mamíferos e aves, mas presumivelmente não se pode atuar contra a exploração trabalhista e a negação de direitos humanos, ambas as quais permitem a existência dessas atividades. No final das contas, a libertação animal não humana na China será apenas parcial e desprovida de uma libertação humana.

 

2. Misantropia e descrença na humanidade

Um grave desvio de consciência de algumas pessoas no meio vegano é a misantropia, uma revolta radical contra a humanidade que, extrapolando a indignação por ações de crueldade contra outros animais, chega ao ponto de generalizar a perversidade daqueles que agridem e matam animais não humanos e tachar a espécie humana inteira de “câncer” da Terra, uma “doença” que precisa ser “eliminada”. Seguindo a linha de separar libertação animal de libertação humana, descarta qualquer esperança no ato de conscientizar as pessoas e libertá-las da ignorância especista e carnista.

Curiosamente, desejam o mal para uma categoria de pessoas à qual já pertenceram um dia –não veganos que (ainda) desconhecem a importância de se respeitar os Direitos Animais – e ignoram que elas próprias haviam sido libertadas do desconhecimento sobre a dignidade animal. Mas contraditoriamente não acreditam que a consciência vegana vá se massificar a ponto de as sociedades modernas vivenciarem uma guinada ética semelhante à que acabou com a aceitabilidade moral da escravidão humana. E aproveitam essa descrença para expressarem um desejo de ver o planeta “purificado” da presença da humanidade.

Essa tendência é basicamente anti-humanista e não só inibe que a totalidade do movimento abolicionista ajude também na libertação humana e a esquerda compreenda que os Direitos Animais precisam dela do mesmo jeito, como também atrapalha a própria causa animal, ao limitar a conscientização da sociedade e “confirmar” o preconceito de muitos não veganos, que tiveram seu primeiro contato com a militância vegana com misantropos, contra o veganismo.

 

O artigo continua na sua segunda parte

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Maurício T.

agosto 26 2015 Responder

Olá. Gostaria de convidar o autor a comentar a relação entre agricultura familiar e veganismo. Mais especificamente, qual a diferença entre participar do movimento vegano, e defender a agricultura familiar, com condições de criação animal livres de crueldade? Presumo que a resposta viria ressaltando o aspecto da exploração. Mas mesmo os veganos não pretendem eliminar a exploração, no presente. Grato.

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