14

abr13

Por que os Direitos Animais são ideologicamente esnobados por alguns esquerdistas (Parte 2 de 3)
Elefante símbolo do Partido Republicano: de certa forma, um símbolo do conservadorismo de muitos que dizem defender os animais

Elefante símbolo do Partido Republicano: de certa forma, um símbolo do conservadorismo de muitos que dizem defender os animais

Parte 1 | Parte 3

Prosseguem aqui as razões que levam alguns esquerdistas a esnobarem os Direitos Animais como se fossem uma ideologia de direita.

 

3. Especismo invertido: dizer que “prefere bicho a gente”

Essa misantropia anda de mãos dadas com uma forma invertida de especismo, simbolizada pela infame frase “Prefiro bicho a gente”. Também concorda com a tendência de separar as libertações animais humana e não humana como se não tivessem a ver uma com a outra.

Talvez a maioria daquelas pessoas que a proferem o faça inocentemente e sem a intenção de considerar a espécie humana moralmente inferior às não humanas ou digna de ser escravizada e massacrada, mas é difícil de negar que tal ditado seja um tiro no pé contra a reputação da causa animal e reflita de fato um desinteresse em tornar a espécie humana mais ética.

Primeiro, porque reflete a compaixão seletiva de quem leva tal ditado ao pé da letra, deixando no escanteio da consideração moral e empática humanos que padecem de sofrimento parecido com o de, por exemplo, cães abandonados e vacas exploradas na pecuária leiteira e manifestando misericórdia e empatia apenas por animais não humanos. Segundo, por refletir  um preconceito antissocial que inibe seus proferidores de investir na educação ética das pessoas ao seu alcance.

E terceiro, por “dar razão” a quem diz preconceituosamente que o veganismo é indesejável por ser “anti-humanista” e “misantrópico”, inibindo assim a própria propagação da consciência vegana.

 

4. Fatalização da crueldade de algumas pessoas como se fosse uma inerência humana

Já foram vistos casos de esquerdistas que confessaram ter antipatia pelo veganismo por terem visto “veganos” julgarem a espécie humana como tendo uma “natureza cruel e corrupta” – e generalizado indevidamente esse desvio como se fosse algo inerente ao vegano-abolicionismo. Tal abordagem fatalista do que se convenciona como “natureza humana” leva os seus adeptos a não terem esperança na conscientização ética da humanidade, em vê-la amadurecer a ponto de não precisar mais de leis para não escravizarem e maltratarem animais.

Além, claro, de fazerem deles autênticos conservadores, que, por causa de um suposto instinto cruel supostamente inerente aos humanos, deixam de acreditar que a humanidade pode se tornar mais empática, ética e consciente. Isso acaba dando vazão a desvios ideológicos como a misantropia, o especismo reverso e a separação entre libertação animal – que, sob esse olhar, consistiria em nada além de deixar os animais não humanos em paz, separados da “ferocidade” humana pela força legal da vigilância policial – e libertação humana.

E, como fica evidente, fatalizar a humanidade como intrinsecamente cruel e feroz, ao invés de socioculturalmente acostumada a ser violenta, desestimula os esforços de mudar a orientação ética da relação entre animais humanos e não humanos através da educação e de outras formas de ativismo abolicionista.

 

5. Desprezo à necessidade de se libertar os seres humanos da qualidade de opressor

O ditado “Libertação animal também é libertação humana” também implica libertar os seres humanos da sua qualidade de opressores dos animais não humanos e do ciclo moral, cultural e econômico de tradições violentas que, resultante desse atributo, ameaça a integridade também dos humanos. Isso inclui, como já foi mencionado neste texto, uma educação vegana que leve as pessoas a refletirem sobre a necessidade de começar uma guinada ética a partir da mudança de consumo alimentar e não alimentar. Porém, há gente que se diz vegana e não leva a sério esse princípio.

É o caso dos misantropos, que reiteram o desejo pela extinção da humanidade e, baseados na já mencionada crença fatalista da “natureza humana cruel”, não lhe reconhecem a capacidade de vivenciar mudanças éticas humanitárias. Novamente tem-se aqui uma atrapalhação formidável à causa animal, que tem como um de seus princípios a conscientização pela educação e o estabelecimento de uma cultura de paz.

Promover uma defesa dos Direitos Animais sem valorizar a obrigação do movimento abolicionista de educar para a paz e a igualdade é algo totalmente contraproducente, ainda mais por interferir negativamente na própria expansão da população vegana.

 

6. Defesa da coerção policial como único meio de proteger os animais da violência humana, em detrimento da conscientização

Acredita-se que esse pensamento é cultivado por aqueles que incidem nos cinco desvios mencionados. Vai na mesma tendência da fatalização da “natureza humana” como se fosse inerentemente cruel. Nessa linha de raciocínio, a “única” solução para libertar os animais não humanos da violência promovida pelos humanos seria proteger os primeiros com leis rigorosas, asseguradas por uma força policial que induziria as pessoas pelo medo a pararem de explorar, agredir e matar os últimos.

Assim como os demais itens, tem-se aqui uma distorção do abolicionismo, com a violação dos princípios da educação conscientizadora e da harmonização ética da convivência entre animais humanos e não humanos na mesma biosfera. Os Direitos Animais pretendem (ajudar a) transformar as sociedades baseadas em cultura de violência, exploração e coerção em comunidades pautadas na paz, na harmonização entre os sujeitos de direito (incluída aí a biosfera) e na consciência ética não estritamente dependente de coação legal. E esse ideal é o oposto do desvio aqui descrito.

Deve-se considerar também que nenhuma sociedade, até hoje, conseguiu se tornar realmente pacífica apenas com o uso de força policial para controlar pessoas de modo a impedi-las de cometer crimes contra a vida e a integridade física. Portanto não será a lei que irá sozinha acabar com a exploração animal. Mesmo num contexto de necessidade de leis, a educação ética é sempre requerida para que a sociedade encontre na paz e na harmonia a solução para uma existência sadia.

O abolicionismo não quer uma sociedade de controle e medo, e sim de consciência ética e paz. Não dispensam a ajuda da lei no atual contexto de sociedades estatistas, mas é rejeitável que a polícia e o poder judiciário sejam mais importantes do que a educação e a conscientização em garantir o respeito aos direitos dos animais não humanos.

 

O artigo continua na sua terceira e última parte

Parte 1 | Parte 3

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo