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Por que os Direitos Animais são ideologicamente esnobados por alguns esquerdistas (Parte 3 de 3)
Elefante símbolo do Partido Republicano: de certa forma, um símbolo do conservadorismo de muitos que dizem defender os animais

Elefante símbolo do Partido Republicano: de certa forma, um símbolo do conservadorismo de muitos que dizem defender os animais

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Prosseguem aqui as razões que levam alguns esquerdistas a esnobarem os Direitos Animais como se fossem uma ideologia de direita.

 

7. Tratamento do capitalismo não como um problema, mas como aliado permanente do veganismo

O conservadorismo capitalista é outro problema que, cometido por alguns veganos juntamente ou não com a negação da ligação entre libertações humana e não humana, acaba por afastar grande parte da esquerda da solidariedade com a causa abolicionista. De fato são muitos ainda os que não veem o capitalismo como um aliado muito mais da exploração animal do que do veganismo.

Para muitos, veganismo e capitalismo podem conviver em simbiose, pela idealizada valorização do público vegano como um nicho de mercado valioso para empresas de variados portes e pelo lucro que elas poderão angariar ao melhorar sua imagem institucional. Isso pode se tornar parcialmente uma verdade à medida em que os veganos sejam cada vez mais numerosos em dados relativos (porcentagem) e absolutos (população), mas não deveria ser o foco do vegano-abolicionismo.

Inclusive na lógica da unidade das libertações animais humana e não humana, o capitalismo é, a longo prazo, um problema a ser enfrentado. Tanto por explorar seres humanos e lhes negar a dignidade, como por ser uma das forças motrizes do desenvolvimento da pecuária moderna, da pesca industrial, indiretamente da Bioética antropocêntrica e de tantos outros meios de exploração animal.

O modo capitalista de funcionamento econômico também limita o poder do veganismo de forçar pelo boicote as empresas a pararem de testar seus produtos em animais e utilizar neles ingredientes de origem animal. Isso porque a o êxodo da demanda vegana tende a baixar ou estabilizar os preços daqueles produtos, que serão então comprados pelos consumidores não veganos antigos (a maiores quantidade e frequência) ou novos, tornando o simples boicote inócuo.

Nisso a solução no contexto capitalista é boicotar alardeando à sociedade os motivos da ação. Porém, a longo prazo, será justo manter um veganismo capitalista, que não vise a subversão dessa ordem que talvez pare de explorar animais não humanos mas continuará explorando pessoas? Ou, ao mesmo tempo em que se use os mecanismos capitalistas para forçar o mercado a parar de usar os corpos dos não humanos, vale estabelecer uma frente paralela de veganismo anticapitalista, que reforce a agricultura familiar e orgânica e o consumo de produtos de fabricação alternativa às grandes empresas exploradoras de humanos?

 

8. Divulgação de alimentos veganos caros: dá a impressão de elitismo à causa vegano-abolicionista

Um dos maiores motivos de críticas ao vegano-abolicionismo por parte da esquerda, até certo ponto socadoras de espantalho, é a imagem elitista que se desenha dele. Mesmo muitos veganos acabam cometendo o vacilo de divulgar o veganismo majoritariamente com receitas alimentares a conter ingredientes cujos preços escapam ao poder aquisitivo da maioria da população.

Não que essa divulgação seja inerentemente errada, mas poucos pratos veganos costumam ser divulgados em larga escala na internet, em contraste com iguarias como queijo vegetal de custo e frete altos, hambúrgueres e salsichas vegetais que ainda custam o dobro ou o triplo de suas contrapartes de origem animal e pratos típicos de restaurantes onde não se pode comer todos os dias.

Esse vício de comunicação vegana acaba dando uma impressão forte de que o veganismo não seria acessível às classes populares e, por isso, caracterizaria uma causa elitista que não poderia integrar as lutas dos mais humildes por um mundo mais justo. A solução nesse caso é divulgar prioritariamente pratos cujos ingredientes sejam baratos e fáceis de se encontrar e que possam ser comidos todos os dias nas casas das classes C, D e E.

 

Considerações finais

Os Direitos Animais são progressistas, reivindicadores de mudanças, essencialmente radicais em sua exigência de igualdade e empatia, sendo assim uma bandeira esquerdista por excelência. Mas ainda há muitos que se dizem veganos mas manifestam uma convicção ideológica bastante anti-humanista e conservadora das injustiças humanas e acabam-na amarrando à causa animal.

E é esse conservadorismo que, mesmo sendo algo de cunho individual ao invés de uma característica vegano-abolicionista, acaba passando a muitos militantes de esquerda a impressão de que o veganismo e o abolicionismo são causas de direita tanto quanto o Estado Mínimo e a (falsa) “defesa da família”.

Tendo em vista isso, é razoável convidar aqueles que dizem abraçar o veganismo mas adotam uma postura ideológica conservadora, anti-humanista e, por tabela, antiabolicionista a uma revisão de atitude. Não para abandonarem o veganismo, mas sim para descobrirem que o ser humano também é um dos animais incluídos no ideal da libertação animal – e nisso perceberem que posturas misantrópicas, fatalistas, capitalistas e estritamente legalistas não convêm na defesa dos animais.

Duas coisas precisam acontecer então: a esquerda abraçar os Direitos Animais, reconhecendo-os e adotando-os como uma de suas tantas bandeiras, e os defensores do abolicionismo animal contemplarem-no como ele realmente é: um ideário esquerdista e libertador de todos os animais sencientes humanos e não humanos.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Kreator

abril 18 2013 Responder

Como comentei num outro post, o problema não é o mercado em si o capitalismo (sic), mas sim as pessoas que QUEREM consumir produtos animais, este é o ponto.

O mercado simplesmente atende uma demanda, que é fornecer às pessoas o produto que elas desejam consumir, o mais barato possível, onde está o erro aí?

A teu segundo ponto, sobre os produtos veganos serem muito mais caros que as alternativas tradicionais é exatamente o reflexo da “falta de capitalismo”. Não há forte demanda e a produção deste tipo de produto é mais complexa por envolver processos não tão comuns (adubação orgânica, não-uso de agrotóxicos, etc.) o que acaba por deixa-los mais caros, para agravar o problema dos preços, não há economia de escala.

    Fernando Soares

    abril 21 2013 Responder

    exatamente, capitalismo não é imoral, é a-moral, depende das pessoas que estão no processo de mercado demandar algo que é “bom” ou “mau”.

Fernando Soares

abril 18 2013 Responder

Você precisa rever seus conceitos sobre capitalismo. Capitalismo não explora ninguém, leia um pouco mais, se informe, estude a respeito da Escola Austríaca de economia.

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