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maio13

Artigo diz que violência é “sintoma da falta de Deus no coração e na mente das pessoas”
barbaros

Artigo intitulado “Bárbaros intramuros” investe no conservadorismo moral e culpa “falta de Deus” por violência urbana

Um artigo intitulado “Bárbaros intramuros”, publicado na última quinta no portal do Diário da Manhã (DM.com.br) por Valmor Bolan, investiu no apelo conservador à “educação moral” e culpou a “falta de Deus no coração e na mente das pessoas” pela violência urbana.

O trecho preconceituoso foi esse:

Falta moral! É isso do que precisamos recuperar urgentemente. “A sociedade precisa de mais educação moral”, afirma Peter Kreeft, em seu livro Como vencer a guerra cultural, pois estamos em guerra, segundo o autor. Ao contrário do que pensa o ateu Richard Dawkins, Kreeft diz que “a religião sempre foi a fonte primária do conhecimento que a humanidade tem da moralidade”. E toda esta violência é sobretudo sintoma da falta de Deus no coração e na mente das pessoas. O bombardeio midiático diário só fala de violência e de consumismo, com apelos de hedonismo, individualismo e permissividade. Daí então a frieza do coração, que leva muitos a insanidades como as que temos tido notícias ultimamente, e que tem causado dor e consternação. 

O último parágrafo ainda urge:

Por isso, sentimos, cada vez mais a urgência da afirmação de uma cultura da vida, com os valores de Deus, para que a moral com base nos princípios e valores religiosos possam nos dar uma consciência de maior amor à vida, ao mútuo respeito, à dignidade da pessoa humana. Sem isso, os bárbaros continuarão, cada vez mais, intra-muros.

As únicas “provas” do que diz sobre a ligação entre religião e moralidade são citações de Peter Kreeft, apologista cristão, que teriam refutado os dizeres de Richard Dawkins sobre a inexistência de ligação essencial entre a moralidade/ética de uma sociedade e a religião que ela (não) adota. Kreeft afirma que “a religião sempre foi a fonte primária do conhecimento que a humanidade tem da moralidade”, insistindo tanto na valorização da moral estanque em detrimento da ética como defendendo que a moralidade humana continue se baseando num jogo de punições e recompensas – em que as pessoas só são “boas” por causa das recompensas pós-morte e evitam ser “ruins” pelo medo da punição divina.

O texto insiste que a “moral de Deus” é “a melhor”, esquecendo-se tanto que existem várias morais diferentes (com diferentes níveis de intolerância, dogmatismo e liberdade) partindo-se da crença no mesmo deus como que essa mesma divindade é cruamente cruel no Velho Testamento bíblico. Negligencia também o fato de que o Brasil, que tem a maior população cristã do mundo, fracassou em ser uma sociedade pacífica. E, claro, joga nos ateus, pagãos e outras pessoas que não acreditam no deus do autor a culpa pela violência urbana.

Esse tipo de conservadorismo, centrado na falácia da “moral cristã” como solução para tudo, não tem mais vez nas sociedades em evolução ética. Estagnador, intolerante e preconceituoso, não merece mais espaço nas discussões sobre cultura de paz, tolerância e liberdade.

Protestos devem ser enviados aos comentários do texto (requer conta no Facebook) e ao e-mail dmonline@dm.com.br.

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