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Daniela Andrade: Sobre a obrigatoriedade de terapia psicológica para pessoas trans* mudarem de sexo

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Daniela Andrade, uma conhecida minha do Facebook, costuma escrever em seu perfil textos sobre a dureza pela qual as pessoas trans* (transsexuais, transgêneros, crossdressers, queers etc.) passam no dia-a-dia. Coagidas por uma sociedade que tenta lhes impor que sabem mais do que elas próprias quem elas são – inclusive pela ciência, que, mesmo mais de 20 anos depois de ter deixado de encarar a homoafetividade como doença, ainda reserva esse tratamento patologizante à qualidade de alguém ser trans* -, essas pessoas pertencem a uma das últimas minorias, sendo discriminadas até por muit@s homossexuais. Tão comum quanto o preconceito contra ateus, é o preconceito contra pessoas trans*, a transfobia.

Admiro muito os textos de Daniela, e fui autorizado por ela para trazê-los para o Consciencia.blog.br.

 

Sobre a obrigatoriedade de terapia psicológica para pessoas trans* que querem fazer cirurgia de mudança de sexo
por Daniela Andrade

Eu falo de que a cirurgia de transgenitalização precisa de laudo com acompanhamento OBRIGATÓRIO de NO MÍNIMO 2 anos de terapia com psicólogo (isso é exigência do Protocolo Transexualizador e exigido pelo Ministério da Saúde) e, me dizem que cirurgia bariátrica também precisa de acompanhamento psicológico.

Eu falo que pessoas transexuais são COMPULSORIAMENTE obrigadas a se tratarem com psicólogo e me dizem que não por conta de uma reversão ou reorientação em relação à identidade delas, mas para que pensem e repensem melhor se querem mesmo a cirurgia.

Eu tenho a dizer para essas pessoas:

As pessoas transexuais SÃO OBRIGADAS a fazerem terapia não só para que lhe permitam fazer a cirurgia, mas também por que as identidades das pessoas trans* são questionadas o tempo todo, sabe por que? Pois a transexualidade está no CID (Catálogo Internacional de Doenças) e no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) (ser trans* é algo patológico pelo consenso científico). Eu CANSEI de ver pessoas trans* me dizendo que o psicólogo que consultaram dizia quem era ou quem não era trans*, e esses “profissionais” não são questionados quanto a isso, pois desde sempre a transexualidade é vista como doença.

E se você, pessoa que tem absoluta certeza que é hétero, chegasse ao consultório do psicólogo e ouvisse: “olha, nem adianta tentar enganar, você não é hétero.”. Como seria?

Ou, você que sempre soube, desde que nasceu, de que é gay e o psicólogo lhe informasse: “não, esqueça, você não é gay”. E aí?

Mas isso é muito frequente com as pessoas trans*, e ninguém se importa, pois quem vai dar ouvido a quem a medicina está dizendo que são TODAS transtornadas mentais?

Conheço caso de pessoas trans* que o psicólogo afirmou para a pessoa que ela era um gay com roupa de mulher. Como se faz o diagnóstico de uma pessoa trans*? É usando os “sintomas” do transexualismo (SIC) que está no CID? Jura que preciso mesmo do diagnóstico de alguém externo para dizer para mim que eu sou mulher? E veja, é esse diagnóstico que vai permitir ou não que eu tenha o direito de dispor do meu corpo como bem me convier, já que dispor do meu corpo deveria ser direito irrestrito meu. É esse diagnóstico que em muitos casos vai me possibilitar ou não que algum juiz dê a mim o “privilégio” de participar disso que se chama cidadania ao permitir que eu altere meus documentos. Lembrando que há juízes transfóbicos que com ou sem diagnóstico, não permitem a alteração; ou dão decisões ridículas do tipo: “Olha, eu permito que você se chame Maria, mas nos seus documentos vai continuar sexo masculino tá? Por que dignidade da pessoa humana, no seu caso, é uma dignidade gambiarra, pela metade”.

Sabe por que há alguns psicólogos descredenciando as pessoas trans*? Pois, não se dá credibilidade às vozes das pessoas trans*. Ao contrário de qualquer outra pessoa procurando outro tipo de cirurgia, NINGUÉM é desacreditado quanto aquilo que é, que sempre soube que era pelo saber médico, como é o caso da pessoa trans*. É a identidade das pessoas trans* que está o tempo todo submetida à aprovação dos demais. Não dá mesmo para comparar a cirurgia de transgenitalização com a cirurgia bariátrica; no Brasil, para se fazer uma transgenitalização você é obrigado a ter laudo do psicólogo, do psiquiatra, do assistente social, do endocrinologista. Qualquer um desses profissionais pode negar o laudo com base em um diagnóstico estapafúrdio (como por exemplo responder testes do estilo Revista Capricho em que você marca sim ou não para no final ver se as respostas dizem que você é trans* [dica: leia o que é ser trans* em casa, para se engessar o máximo possível. ex: se você se disser trans*, está OBRIGAD@ a dizer que odeia o próprio genital, em hipótese alguma diga que suporta o genital ou então será desacredita@) ou transfobia, sim, há profissionais transfóbicos atendendo pessoas trans* e sendo legitimados, já que a transfobia é legitimada socialmente.

O que é isso de um psicólogo virar para uma pessoa trans* e dizer: você não é trans* em poucas consultas, senão um agressão ao autoreconhecimento dessa pessoa, forçar que ela se enquadre dentro um padrão cis (não trans*)?

Esses profissionais não viram (ou não o fazem com tanta veemência) para uma pessoa que se diz mulher e possui uma vagina e profetizam em poucas sessões: “VOCÊ NÃO É MULHER, VOCÊ É UM HOMEM COM VAGINA”. Até por que, é a transexualidade que é desconhecida e patologizada, é a transexualidade que é vista como anormal, que deve ser segregada e isolada dentro do campo das monstruosidades. A cissexualidade está salva como identificação meritosa dentro dessa sociedade onde nós, as pessoas transexuais, somos SEMPRE doentes mentais.

Por que uma pessoa que mata outra não é forçada a fazer uma terapia? Penso que isso deva causar ou ser sintoma de algum distúrbio, a consequência também é irreversível. Mas, nesse caso, o governo não as obriga, nós é que somos as pessoas obrigadas a isso, caso queiramos dispor APENAS e TÃO SOMENTE do nosso próprio corpo.

Como dizia a Legião Urbana: “os assassinos estão livres, nós não estamos”.

* Há psicólog@s, graças a Deus, maravilhos@s; ainda que eu raramente ache os que podem se enquadrar assim, que reconhecem a transexualidade como mais uma das possíveis identificações da diversidade humana e tratam a nós com todo respeito, empatia e profissionalismo que os demais deveriam seguir.

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18 comentário(s). Venha deixar o seu também.

karine

novembro 28 2016 Responder

Ola,bom dia!!!
Achei muito interessante sua abordagem sobre um tema tao pouco falado ainda nos dias de hoje.
Estou fazendo um Projeto de Iniciação Cientifica sobre o tema na área de Fisioterapia,e gostaria de saber se poderia me ajudar com isso.Favor me enviar e-mail para melhor esclarecimento.
Obrigada e sucesso!!!!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 29 2016 Responder

    Oi, Karine. Peço que vc entre em contato com a própria Daniela, pelo Facebook. Abs

Bruna Reis

outubro 18 2016 Responder

Bom, eu faço o acompanhamento à mais ou menos 7 meses no Hospital das Clínicas da UFG em Goiânia-GO e ainda não sofri de forma nenhuma com profissionais transfóbicos, não pelo menos os da área ginecológica, pois ainda não iniciei a terapia com a Piscicologa, porém já está marcada, creio também que as outras meninas também não se sentem contrangidas e nem tratadas de forma diferente, pelo contrário, quando estou no ambiente do ambulatório a sensação é que sou simplesmente uma dos vários pasciêntes, onde incluem, homens, mulheres gestantes ou não, transexuais , crianças, idosos. Não há separação , e sempre tenho a impressão de que a equipe de profissionais de lá se preocupam muito em se colocarem no lugar do(a) pasciênte, e até hoje nunca tive uma consulta desmarcada ou se quer voltei pra casa desmotivada e transtornada, mas sim sei a cada dia mais, quem sou e o que eu quero pra mim, gostaria de parabenizar todo o pessoal do ambulatório de Ginecologia do HC, e dizer o meu muito obrigado todos, assim que tiver as minhas primeiras consultas de pscicologia ppstarei o meu comentário. Boa Tarde !!!!

Marina Luz

agosto 28 2016 Responder

Olá, gostaria de conseguir contatos de psicólogos que não sejam transfóbicos, por favor.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 30 2016 Responder

    Oi, Marina, isso vc só conseguirá com a própria Daniela – e não sei se ela tem essa informação. Abs

Maria Helena Santos Dias

julho 23 2015 Responder

Olá, como posso identificar Daniela Andrade no Facebook?
E, sou Transexual a mais de 18 anos, mas hoje por motivo religioso teria que mudar minha aparência física para masculino.
Tirar meus seios e os quadris e assumir uma postura masculina. Além de mudar meu nome em todos os documentos civis.
Tenho que encontrar acompanhamento psicológico para o antes das cirurgias, mas só encontro psicólogos dispostos ao pós-cirurgia. Como posso resolver isso?
Por minha fé e por obediência eu quero fazer as mudanças, mas tenho que encontrar o tratamento correto, para ter ajuda psicológica para recomeçar uma nova etapa e minha vida!
Quem pode me dar orientação de quem e onde procurar os profissionais certos?
Obrigada!!

    Robson Fernando de Souza

    julho 23 2015 Responder

    Olá, Maria Helena. Acredito que a Daniela Andrade com mais contatos e seguidores seja ela =) Abs!

Marcela

julho 2 2015 Responder

Ola!
Sou uma transex
Preciso de orientações de como proceder para conseguir a cirurgia..
Tive acessos a vários artigos, mas o estado onde moro parece dos conhecer de informações q possa me ajudar..
Peço carinhosamente a ajuda de vcs pois n aguento mais..

    Robson Fernando de Souza

    julho 2 2015 Responder

    Olá, Marcela. Acredito que vc pode perguntar a Daniela Andrade no Facebook (é fácil encontrá-la por lá). Caso ela não possa no momento ajudar vc, uma alternativa é procurar grupos transfeministas/intersecionais por lá.
    Abs!

    Andy Cordeiro

    setembro 1 2015 Responder

    Oi,

    Procure um psiquiatra na sua cidade ou um psicologo. No órgão publico mesmo e ele pode lhe encaminhar para um centro de tratamento em São Paulo – o melhor lugar. O sistema público de saúde paga até sua passagem mensalmente de avião para as consultas. E na sua cidade voce também pode se hormonizar com um endocrinologista. Público ou do sistema privado, mas ele vai lhe pedir um laudo do psiquiatra antes.

    Boa sorte, corra atrás e não desista nunca.
    Andy

fabiana

março 18 2015 Responder

sou psicóloga e infelizmente ha colegas que ainda seguem esses padrões heteronormativos para avaliar pacientes, juntamente com um colega minha monografia da graduação foi exatamente sobre a transsexualidade e do questionamento desse modelo avaliativo e estigmatizante de laudos para a cirurgia. como psicólogos temos que estar ao lado dos pacientes, sem estabelecer rótulos, mas fortalece-los para ser quem eles querem e podem ser.

Ana Beatriz

dezembro 13 2014 Responder

Sou uma pessoa que aos 42 anos resolvi encarar o que eu sempre escondi de todos, a minha sexualidade ou seja a minha transexualidade., mas mesmo assim demorei alguns anos até a total liberdade.
Moro em São Paulo _ Osasco – Gde.SP., e preciso de ajuda, e não possuo condições financeira para pagar um profissional para me ajudar a enfrentar isso.
Hoje tenho 59 anos, me hormonizo faz 6 anos, gostaria de poder contar com a ajuda de alguém que possa me ajustar, pois estou passando por uma turbulência
Agradeço a quem queira me ajudar.

bernadete

outubro 28 2014 Responder

Cada vez que me proponho a participar de um curso ,seminario ,roda de conversa ou algun evento neste seguimento ,é sempre com o propósito de ampliar meu olhar sobre o mundo real de pessoas reais,e, fico chocada quando vejo ou leio pessoa s que tiveram acesso a instruçao e nao avançam em nada suas ideias.ESTAS MESMAS PESSOAS QUE SE DIZEM LETRADAS SE VESTEM DE UMA CAPA QUE NAO SEI DE ONDE TIRAM MAS OFATO E QUE SE INVESTEM DE UM PODER QUE NAO EXISTE CONSISTENCIA: O PODER DE JULGAR OUTRO SERES POR QUALQUER MOTIVO PRINCIPALMENTE SE SAO DIFERENTES.Aí pergunto o que de fato voce conhece sobre TRANSEXUAL,quanto voce ja discutiu,já leu ,já conheceu sobre a história real dessas pessoas que lutam tanto para coisas que parecem tao óbvias para outros ,como por exemplo, serem chamadas pelo nome de sua preferencia????????? ACORDE ,VOCE QUE SO CRITICA .VA I ESTUDAR ANTES DE ESCREVER BOBAGENS ESTA M…… QUE SAI DA SUA BOCA E MORA NA SUA CABEÇA NAO AJUDA EM NADA A CAUSA DAS PESSOAS TRANSEXUAIS.

luciana villareal

setembro 15 2014 Responder

Olá, eu sou psicóloga e digo todos os dias para as minhas pacientes trans: esqueçam os rótulos, sejam vcs mesmas e pronto. ninguém tem uma sexualidade cristalizada. ninguém! Entao eu posso dizer: a terapia não é obrigatória para que o psicólogo diga se o paciente é ou não é trans. A terapia vai ajudar essa pessoa, trabalhando as suas expectativas. Muitas meninas trans acreditam que no dia que elas fizerem a cirurgia elas serão felizes para sempre, que todos os seus problemas acabarão depois da retirada do pênis e, infelizmente não é assim. Depois da cirurgia, os outros problemas ainda existem e elas podem ficar muito frustradas com isso. O papel do psicólogo é de ajuda nesse momento de grandes mudanças. Isso tbm deve acontecer com a cirurgia bariatrica: a pessoa obesa que come em exagero(muitas vezes descontando frustrações na comida), faz a cirurgia e depois da operação não pode mais comer o que comia antes… ai já viu, né?
A grande verdade é que é sempre bom ter alguém para nos ajudar nos momentos difíceis. E um bom psicólogo pode ser fundamental nesses momentos!
Um beijo grande e continuem com essa trabalho lindo!
Luciana Villa Real

Marcelo

dezembro 29 2013 Responder

Comentário transfóbico apagado. Esse tipo de conduta desrespeitosa e patologizante do direito alheio à identidade de gênero não é permitido por aqui. Gente preconceituosa é que precisa de assistência psicológica. RFS

Jones

junho 29 2013 Responder

Tratamento psicológico antes da mudança de sexo é fundamental. É necessário o tratamento para reafirmar a convicção de quem passará por uma mudança importantíssima na vida, não é apenas uma mudança física, é uma mudança na identidade cívil e existêncial.

Katarina

junho 28 2013 Responder

Vejam o que esta na coluna : http://www.folhabv.com.br/Editorias.php?Col=7

A colunista se posiciona a favor do projeto de cura gay.
E posiciona-se da pior forma possível, pois coloca-se como simpatizante para em seguida fazer uma defesa ridícula do projeto de lei.

Façam um comentário lá…ajudem..a cidade é pequena e a coluna é muito lida…

    Robson Fernando de Souza

    junho 29 2013 Responder

    Obrigado, Katarina =) Tem post chegando hoje às 8h sobre isso.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo