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jun13

[OFF] Mobilizações de junho: o Brasil “acordou”?

Os protestos se espalham pelo Brasil. Muitos entoam que “o gigante acordou” e fazem loas nacionalistas ao possível abandono do tradicional conformismo por parte de milhares de pessoas. Mas será que esses protestos representam mesmo uma perspectiva de mudança para o Brasil? Tenho minhas dúvidas.

Sou cético em relação à organização e tendência das marchas, e às vezes elas me dão não esperança, mas medo. Medo de ver uma mobilização originalmente empreendida pelas esquerdas ser quase que literalmente tomada de assalto pela direita, representada pelos cada vez mais comentados “coxinhas” – jovens de classe média de ideologia política conservadora mas que vivem reclamando dos problemas do país sem tomar ações concretamente modificadoras.

Como todos devem saber, originalmente os protestos eram contra os aumentos das passagens em todo o Brasil, e tinha-se, pelo menos da parte de alguns, a perspectiva de que, à medida que fossem conquistando vitórias em forma de cancelamentos de reajustes, fossem avançar para reivindicações mais estruturais sobre reconfigurar o transporte público e acabar com a priorização dos carros e a cumplicidade governamental com a “oligarquia” das empresas de ônibus nas políticas públicas de mobilidade.

Mas depois das cenas abjetas de repressão fascista em São Paulo em 13 de junho, a qual atacou inclusive jornalistas da mídia tradicional, a população resolveu ir às ruas para engrossar os protestos e assim fez com que a política governamental repressiva perdesse parcialmente seu gás. A esperança estampou o rosto dos brasileiros: enfim parece que o Brasil está começando a buscar sua mudança e extirpar suas doenças políticas – corrupção, políticas públicas elitistas, obras faraônicas superfaturadas, desprezo governamental a setores básicos como educação e saúde, entre outras.

Esse repentino despertar está tendo um preço infeliz, no entanto: a causa da redução das passagens (ou do fim dos aumentos de passagens), que tem uma meta clara definida, está forçadamente perdendo seu foco e dando lugar a um mosaico excessivamente heterogêneo de causas, muitas delas difusas e genéricas demais para serem realmente consideradas causas políticas atendíveis.

Combate à corrupção, fim da submissão do governo federal à FIFA, mudanças nas políticas de saúde e educação, respeito ao Estado laico, entre tantas outras “causas”, passaram a dominar os protestos. E o pior, estão sendo acompanhadas por demandas típicas da tradicional direita neo-udenista – redução da maioridade penal, impeachment de Dilma Rousseff, intervenção (golpe) militar, redução de impostos para eletroportáteis etc.

E para piorar ainda mais, a mobilização que tinha a essência da militância de esquerda vem sendo corrompida por nacionalistas de classes média e média-alta que saíram das suas tocas. Bandeiras vermelhas e partidos que tradicionalmente se envolvem em manifestações anticapitalistas estão sendo literalmente expulsos das passeatas e dando lugar aos ídolos cívicos do Estado opressor, como a bandeira nacional e o cantar do hino.

E com esse endireitamento gradual dos protestos, a mídia vem se aproveitando e insuflando a consolidação da sua transformação numa “insurreição dos coxinhas”. Comentaristas de direita como Pondé e Arnaldo Jabor passaram a apoiar a mobilização que havia surgido dos “vagabundos baderneiros” que até pouco tempo atrás criticavam agressivamente. Artistas da Globo posaram de olhos pintados de roxo incentivando que a sua audiência vá às ruas.

E outras cidades estão aderindo à série de manifestações, numa reação em cadeia ao que aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília e outras cidades. E geralmente sem metas claras que indiquem que os protestos continuarão até que elas sejam integralmente atendidas.

Com isso, as esperanças de muitos esquerdistas, que se acenderam no último dia 17 – que até o momento foi o dia de maior manifestação nacional – duraram pouco, tornando-se desalento em ver a manifestação originalmente antiaumento estar se transformando numa mobilização de direita e politicamente inócua.

As opiniões se dividem entre os simpatizantes originais da mobilização. Uns afirmam que esse é só o começo de uma tendência a longo prazo de o povo começar a realmente protestar com reivindicações objetivas e focadas. Outros dizem que é o ensaio para algo ainda maior que poderá acontecer no futuro. E tem aqueles que, desesperançosos, acreditam que o “coxinhismo” tomou de assalto as marchas, desvirtuou as causas e reivindicações originais e, sem metas definidas, tende a esfriar gradualmente ao longo das próximas semanas até o retorno ao estado de normalidade e corromper também futuras mobilizações.

Eu pessoalmente fico dividido entre as três hipóteses. A primeira se sustenta porque, pelo menos aparentemente, a carga de revolta acumulada se tornou volumosa demais para voltar ao estado anterior de conformismo e reclamações inócuas, e isso aumenta as chances de que, por exemplo, o próximo escândalo de corrupção realmente estimule a população internauta a ir às ruas, dessa vez com a meta de proporcionar a cassação e condenação dos corruptos envolvidos.

A segunda complementa a primeira, visto que é possível que esta onda de protestos seja um ensaio geral, um exercício, e nos próximos escândalos de corrupção ou estopins relacionados ao transporte urbano, realmente haja algo melhor organizado e direcionado, com metas e persistência.

E a terceira hipótese toma força quando pensamos que a exclamação “Não é por vinte centavos!” foi tão repetida que se tornou literalmente uma verdade. A demanda por passagem de ônibus/trem/metrô barata ou gratuita acabou ofuscada, e é possível que não tenhamos mais, pelo menos a curto e médio prazos, a perspectiva de que os governos federal, estaduais e municipais sejam pressionados a elaborar políticas públicas de barateamento das passagens, expansão das frotas de ônibus, investimento em transporte metroferroviário etc.

Além disso, há um perigo que tange a radicalização do endireitamento dos protestos. É a massificação de demandas conservadoras, como a oposição ao casamento igualitário, o apoio a um eventual segundo golpe militar, o impeachment de Dilma – mesmo ela atendendo fielmente a todas as demandas dos grandes empresários, ruralistas, empreiteiras etc. –, além da possibilidade de ascensão de alguma liderança interesseira que queira incitar as multidões a tais demandas buscando ser eleito como um presidente de direita.

E um outro detalhe que incomoda aos tradicionalmente engajados é que dizem que “o país acordou”, quando na verdade milhares de pessoas jamais estiveram “dormindo”, ao contrário dos tantos novatos que foram às ruas e acabaram desvirtuando os protestos. Quem dormia não era o Brasil, e sim os outrora conformistas que agora vão às ruas como se mobilização social fosse novidade no país.

A desesquerdização dos protestos me faz ser cético e não ter mais tanta fé, pelo menos no momento, de que o Brasil vá começar a mudar por causa especificamente deles. Mas uma coisa é certa para mim: o Brasil em geral e a militância de esquerda estão aprendendo muito com esse acontecimento histórico. A princípio sobre como é bom ir às ruas, e mais adiante sobre o que é necessário fazer em mobilizações para serem atendidos ou mesmo causarem revoluções.

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Bruno Gonçalves

junho 19 2013 Responder

Concordo com o que você diz,o movimento perdeu o foco,e o mais engraçado disso tudo que a partir do momento que o movimento começou a ficar mais heterogêneo e perdendo cada vez mais o foco das reivindicações e principalmente incitando reivindicações mais conservadoras e do status quo mais a mídia reacionária ficou ao lado da manifestação.
Eu pessoalmente me envergo mais a segunda opção, mas acredito que sera um processo lento.

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