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Daniela Andrade: A ignorância transfóbica da Igreja Católica na Jornada Mundial da Juventude
Imagem de protesto faz montagem de cartilha preconceituosa distribuída na JMJ

Imagem de protesto faz montagem de cartilha preconceituosa distribuída na JMJ

A Igreja Católica está revoltando xs humanistas com seu “kit do peregrino”, que, distribuído na Jornada Mundial da Juventude, divulga material homofóbico, transfóbico e antiescolha para alienar os católicos em torno de seus dogmas morais sobre temas como homoafetividade, aborto, reprodução assistida e identidade de gênero. Daniela Andrade, a ativista trans* que vem marcando presença aqui no Consciencia.blog.br nas últimas semanas, escreveu algo sobre esse absurdo propagado pela ICAR.

 

A ignorância transfóbica da Igreja Católica na Jornada Mundial da Juventude
por Daniela Andrade

Segundo a Igreja Católica, na cartilha distribuída aos fieis para explicar seus dogmas, pessoas trans* estão invalidadas – pecadoras que são por… serem trans*.

A cartilha mostra um desenho de uma pessoa se perguntando: “Que gênero escolherei ter esse ano?” e um outro desenho com um menino nu dizendo que não se pode negar a biologia.

Pois bem, a Igreja propaga a ignorância (como se essa já não fosse generalizada) ao condicionar genital a gênero. Ninguém nasce homem ou mulher, as pessoas nascem com determinado genital (ou sem nenhum, uma condição rara) ou determinados genitais (caso das pessoas intersexuais).

A identidade de cada pessoa é constructo social, com evidente participação de disposições psíquicas. Ainda que o fato de um ser humano ter nascido com um pênis leve a sociedade a compulsoriamente designar essa pessoa como homem, e os pais e a sociedade a tratar essa pessoa como homem a fim de se criar aqui um homem, alguns corpos “escapam” (já dizia Berenice Bento). Algumas dessas pessoas não vão se identificar como homem, e isso é normal, e não se trata de escolha consciente – ou deveria ser encarado como normal, já que se trata aqui de mais uma das multiplicidades do que significa existir como pessoa.

Ninguém ESCOLHER ser homem, mulher ou o que seja; isso, via de regra, nos é imposto. Mas as identidades que fogem à compulsoriedade do binário cissexista pênis/homem e vagina/mulher estarão com toda certeza condicionadas à forte violência e opressão social.

Não, eu não escolhi ser mulher ou homem, apesar de ter nascido com um pênis. E caso eu tivesse escolhido ser o que sou: mulher, seria no mínimo uma escolha burra, vivendo em um sociedade machista que só legitima o homem como superior, detentor dos espaços públicos e de poder. A mulher deve se recolher à subserviência, ao espaço íntimo e doméstico, ao seu destino de mãe e esposa. Nada mais.

Como escolher ser alguém que a sociedade está o tempo todo castrando a liberdade? Se eu pudesse escolher, eu me reconheceria como homem e como homem é que eu gostaria que a sociedade me visse. Afinal, o homem pode ter a liberdade total, a mulher não. Se um homem transar com 10 mulheres por dia, ele será visto como um homem experiente, garanhão e gostosão; mas a mulher é a vagabunda, vaca e vadia.

Homens não correm muito risco de estupro – mulheres sim, afinal de contas, um grande grupo de homens acha que o corpo feminino é propriedade deles: as mulheres nasceram para servi-los.

Homens não são chamados de vulgares por que andam por aí com roupa curta: no caso deles, é apenas calor.

Homens não precisam estar depilados, maquiados, asseados, embalados e colocados em fita de presente para serem considerados adequados, para não acharem que eles são relaxados, afinal de contas, isso é coisa de mulherzinha – e ai da mulher que esquecer de fazer a sobrancelha ou a unha, isso é crime.

Se um homem não puder ter filho, ninguém se importará, mas se uma mulher não puder ser mãe, ela inclusive deixa de ser considerada “mulher de verdade”, afinal de contas, dentro dessa sociedade patriarcal, esse deve ser o destino de toda mulher: a maternidade.

Homens não correm tanto risco dos reveses da violência doméstica, as mulheres sim. Afinal de contas, muitos homens também pensam que a mulher precisa obedecê-los e se não o fizer, também é direito deles endireitá-la à força.

Se uma mulher trair, ela é a vagabunda mor, mas se um homem trair, ele apenas está seguindo seus instintos de macho. Sabe como é né? Ele é homem, e homem é assim mesmo, nós que aceitemos isso de bom grado.

É por tudo isso que eu escolhi ser mulher, afinal de contas, ser mulher é muito fácil dentro dessa sociedade, sobretudo quando a sociedade está o tempo todo deslegitimando a sua identidade e tratando você como um minotauro: metade gente, metade animal. Essa mesma sociedade que diz que pênis farão homens e vaginas farão mulheres, é a sociedade que não me vê como cidadã. E se tiver de ver, eu terei que aguentar tudo o que já disse e um tanto mais, pois esbarro aqui nas regras cissexistas que se amparam nas leis de gênero escritas na pedra.

Eu tenho a dizer para a Igreja Católica que eu escolhi ser mulher pois é muito bom ser uma pária na sociedade, ser tratada como lixo e não ser vista como gente. É por isso que nós, mulheres trans*, escolhemos ser o que somos: o masoquismo corre em nossas veias!

Burras somos nós e inteligentes são eles, amparados por um livro onde a mulher é subproduto do homem, vinda da costela de Adão. O mesmo que diz que a mulher precisa se calar e consentir com os mandos e desmandos do marido: aliás, ela que não ouse negar a instituição do casamento em sua vida. É, realmente é muita inteligência deles e escolha minha.

imagrs

7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Isabelle

agosto 2 2013 Responder

Marcelo, eu que sou trans bissexual não tenho nada contra religiões desde que a religião respeite o Estado laico, sem intromissão de leis religiosas no Estado. Eu tenho certeza que no Brasil quem ameaça um domínio na sociedade são uma parte dos evangélicos, não os católicos (bancada evangélica no senado etc) que visa barrar toda lei anti discriminação a LGBT’s mentindo que o Brasil não é um país homofóbico (ou transfóbico) e inclusive quis aprovar a “cura gay”. Outra bronca que nós temos é que eles nos demonizam dizendo que praticamos coisas “abomináves” o que é estigmatizador e reforça o preconceito. É de bom tom evitar atos e palavras como essas que estimulem discriminação.

Marcelo

julho 31 2013 Responder

Senhores, eu sou ateu e apesar disso penso que a igreja cristã (católica ou não) possui seus dogmas, princípios e diretrizes. Infelizmente homossexualismo, transsexualismo etc, não está em consonância com estes princípios (talvez até por terem sido concebidos em uma época tão remota), e obviamente a igreja vai pregar seus dogmas e não o contrário. Contudo, pelo o que sei, igreja não orienta ninguém, seja em sermão, cartilha, bíblia etc, a matar, agredir, marginalizar um homossexual, e mais do que isso, ninguém é obrigado a ser católico, assim sendo eu gostaria de saber: Qual o motivo da revolta dos homossexuais com a igreja? Eles querem fazer parte da igreja e não se sentem em consonância com seus princípios? Se não for isso, não consigo entender. Sinceramente!

Isabelle

julho 30 2013 Responder

Maria José eu concordo que temos que respeitar a religião alheia mas uma crítica respeitosa como da Daniela é sempre válida. Ser gay, lésbica ou bi não é moda, faz parte da sexualidade humana que é essência do ser humano, não uma moda. Mas não se esqueça: ser trans não tem nada a ver com ser gay. Ser trans é identidade de gênero, como vc se sente, mulher, homem, os dois (bigênero) ou nenhum (agênero). Ser gay ou bi é orientação sexual, a quem vc sente atração, por homem, por mulher ambos ou nenhum (assexual). Pessoas agêneras e assexuais são mais raras eu penso. Uma pessoa trans pode ser heterossexual, bissexual, homossexual, assexual, etc. E há de se respeitar a identidade de gênero, chamando pessoas trans femininas no feminino. Ex: a travesti

maria jose santos

julho 29 2013 Responder

ser guei ou não ser eis a questaõ ate hoje espero a resposta para mim ser guey hoje não e mas coisa desde o nascimento para mim isso e só para convencer as pessoas pois para mim isso e mas questão de moda

maria jose santos

julho 29 2013 Responder

achei um desrespeito muito grande não com a visita do papa mas sim com a igreja catolica e a deus deveriam ter um dia que não fosse a jornada mundias para esse tipi de protesto que fizeram depois querem respeito se são vcs mesmo que não se da ao respeito cada qual no seu quadrado se querem respeito deveriam respeitar a visita do papa e das pessoas que estavam la

Simone

julho 28 2013 Responder

Não sou preconceituoso, mas tem umas coisas que não me entram na cabeça, por exemplo um causo que aconteceu comigo, eu as vezes, ann… contrato serviços profissionais de acompanhantes e algumas delas são transgêneros, e uma vez eu não consegui dizer se ela/ele era travesti, transgênero ou apenas homem homossexual fantasiado, então chamei ele com pronomes masculinos e na dúvida perguntei se ele/ela preferia usar feminino (tipo “gostosa”), perguntei como devia tratar e ele/ela disse “com respeito”. Achei extremamente anti-profissional isso, sei lá, só queria desabafar que isso de gêneros é uma encheção de saco e ser extremamente ético enjoa. Talvez só a mim. Sei lá… :)

Edson

julho 24 2013 Responder

A igreja sempre será ignorante em relação à esses assuntos. Isso não mudará pelo menos pelos próximos 500 anos.

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