04

jul13

Daniela Andrade: Privilégios das pessoas que não são trans*

Mais um texto interessante de Daniela Andrade, militante pela visibilidade trans*. Ela já teve um outro texto publicado por aqui.

 

Privilégios das pessoas que não são trans*
por Daniela Andrade

Antes de mais nada, vamos aos termos:

identidade de gênero: com qual gênero você se reconhece (masculino, feminino…)

expressão de gênero: com qual gênero o mundo externo te identifica (por conta da sua aparência física e/ou roupas e acessórios)

Agora, os privilégios:

– entrar em banheiro público sem temer agressão verbal, física ou expulsão

– estranhos não te perguntam como são seus genitais e como você faz sexo

– não passam a achar que você é homem ou mulher pelo número de cirurgias que você fez ou por “não se parecer” com alguém transexual (a famosa frase: “mas você nem se parece trans”)

– você pode andar como anônim@ pelas ruas sem ser surpreendid@ com cochichos, ser apontad@ ou rirem de você por conta da sua expressão de gênero

– você pode participar de concursos para homens ou mulheres sem temer ser excluíd@ por conta da sua identidade de gênero

– estranhos chamam você pelo nome que você diz ter, e não perguntam qual seu “nome verdadeiro”, passando a chamá-l@ por um nome que não é o que você se identifica

– você pode conseguir um emprego, alugar um apartamento ou fazer um empréstimo no banco sem que isso seja negado com base na sua expressão/identidade de gênero

– você pode paquerar ou pensar em namoro com alguém sem temer que seu sexo biológico seja o motivo para ser rejeitado, ou para que você seja atacad@, ou mesmo que seu parceir@ venha a questionar sua orientação sexual

– em casos de emergência, você não precisa temer que seu gênero irá privá-l@ de receber o tratamento adequado, ou que os cuidados médicos respeitarão seu gênero

– sua identidade não é considerada patologia (“desordens da identidade de gênero” no DSM IV [Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais] e no CID-10 [Catálogo Internacional de Doenças]) por psicólogos e médicos

– você não precisa temer ser colocad@ em um centro de detenção que não corresponda ao seu gênero

– você não é abordad@ na rua por pessoas que acham que você é um/a profissional do sexo, por conta da sua expressão de gênero

– você não precisa responder diversas perguntas de cunho psicológico para receber os cuidados médicos básicos

– você não precisa defender o tempo todo que não é gay ou lésbica por conta da sua expressão de gênero; e gays, lésbicas e feministas não irão excluí-l@ ou esquecer de você na luta que empreendem por direitos iguais

– se você for assassinad@ ou sofrer qualquer crime, a sua expressão de gênero não será usada como a justificativa para isso, tampouco para quase eximir ou eximir totalmente o criminoso da culpa

– você pode facilmente encontrar pessoas que partilham da mesma expressão/identidade de gênero para se espelhar

– filmes, novelas, peças de teatro, livros estão o tempo todo retratando pessoas com a mesma expressão/identidade de gênero que você, ao invés de te retratarem apenas como alguém caricato ou em filmes dramáticos.

– você tem a segurança de que qualquer um que encontrar irá entender sua identidade, e não irá pensar que você está confus@, enganad@ ou precisando de ajuda

– pode comprar roupas de acordo com sua identidade de gênero sem temer que @ atendente ache estranho o que você está procurando e sem ser questionad@ em relação aos seus genitais quando for usar o provador

– não precisar perguntar por tamanhos especiais de sapatos ou precisar mandar fazê-los por conta da sua expressão de gênero

– nenhum estranho que pedir seu RG ou carteira de motorista irá insultá-lo, rir discretamente ou desconfiar de você por conta do seu nome ou da sua aparência

– você tem a certeza que ninguém irá lhe negará atendimento em hospitais, bancos ou qualquer outra instituição por não acreditar que você seja a pessoa que possui os documentos de identidade que está apresentando

– ter de assinalar um gênero que não corresponde ao seu, em formulários, não é algo pelo qual você passe e, se marcar o seu gênero, não haverá quem diga para você “consertar” e dizer que não pode mentir

– não precisa temer batidas ou blitzes policiais por conta da sua identidade de gênero, tampouco ser tratad@ em desacordo com o seu gênero por esses profissionais

– tem sempre a certeza de que não passará por embaraços ao usar banheiros quando sair com seus amig@s para diversos lugares

– você não precisa convencer os seus pais acerca do seu gênero e nem temer a falta de respeito e consideração dos mesmos por conta disso

– você não precisa lembrar a todos o tempo todo para que flexionem as palavras no masculino ou feminino quando se referirem a você, de acordo com seu gênero

– você não irá nunca dar de cara com velhas fotografias que não exprimem sua real identidade de gênero

– ninguém irá querer encontrar-se com você ou ter um relacionamento sexual por conta da curiosidade sobre sua identidade de gênero (a velha história do “tenho curiosidade de como é fazer sexo com vocês”)

– fica satisfeit@ com a explicação de que gênero e anatomia são duas coisas irremediavelmente unidas ao falar para as crianças sobre “partes do corpo de meninos e meninas”, ao invés de explicar que nem sempre meninos possuem pênis e nem sempre meninas possuem vagina

– mulheres trans* não poderem prestar um concurso público ou tirar um passaporte sem ter um documento que comprove que foi submetida ou está quite com o serviço militar obrigatório.

Você que é trans*, tem mais algum item a acrescentar?

Texto adaptado do seguinte site: http://itspronouncedmetrosexual.com/2011/11/list-of-cisgender-privileges/

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Luz 13

agosto 29 2014 Responder

Gostei do blog! “Não tema nada nem a ninguém só sua própria consciência. ”
Aline – De Olho no Mundo https://www.youtube.com/watch?v=5P3Bv6j7dRs

alice

julho 29 2013 Responder

interessante o post, gostei de ouvir a voz de alguem trans, mas se me permite, vou apontar alguns pontos que temos em comum.

mulheres cis altas tambem nao encontram sapatos grandes. mulheres cis gordas tambem nao encontram roupas. alias, sobre gordas eu posso escrever mais coisas:

nao compro roupa ha 3 anos pq nao encontro do meu tamanho, nao existe nem em loja plus size, só mandando fazer e eu nao tenho grana.
mesmo quando eu era menos gorda e vestia um tamanho que ainda se encontra em lojas, era muito dificil achar, muito mesmo. e quando achava, mesmo que eu nao achasse muito bonita, eu comprava, pq era o que servia, eu nao tinha escolha.
se entro numa loja, sou mal atendida, me olham com cara de nojo ou ja saem dizendo que nao ha nada ali pra mim (mesmo que eu tenha entrado pra comprar um presente). quando experimento algo que nao cabe, fazem piada tb, dizem que a culpa é minha que nao fecho a boca.

a atençao masculina é extremamente negativa, me xingam de todos os apelidos de gordo na rua (mulheres encaram e cochicham tb, mas quem xinga em voz alta geralmente é homem), dizem que nao sou desejavel, nao sou mulher, me chamam de sapatao (nao que ser lesbica seja ofensa, mas usam com esse intuito), que nao deveria ocupar espaços publicos.
os que afirmam gostar de gordas me tratam como um fetiche, uma tara, algo bizarro, diferente, algo pra se fazer sexo quando nao ha nenhuma mulher disponivel.
nao flerto nem tomo a iniciativa pq ja fui alvo de apostas e brincadeiras entre amigos, sobre quem teria coragem de chegar na gorda. alguns fazem piada de longe, outros conversam comigo como se tivessem algum interesse pra logo em seguida me xingarem e ridicularizarem juntos com os outros. enfim, nao frequento baladas pq la nao é lugar pra mim.

nao tiro fotos desde que entrei na adolescencia e passei a sofrer bullying. nao tiro a roupa na frente dos outros. nao vou a praia ou piscina.
nao posso ir a qualquer lugar pq nem todo assento serve na minha bunda ou tem corredores tao estreitos que nao consigo passar.

atendimento em hospital é horrivel, tanto que eu parei de ir. nao só pela gordofobia dos funcionarios, mas pela falta de preparo e estrutura para lidar com obesos (que nao cabem em maquinas de tomografia, por exemplo, e nao sao diagnosticados com exames de imagem simples, como ultrassom, pela camada de gordura espessa).

obesidade é considerada patologia tb, um mal a ser combatido, uma epidemia, uma praga. culpam as pessoas obesas por custos do sistema de saude e preços de passagens aereas. pessoas estranhas se aproximam de mim na rua me dizendo para emagrecer, pra malhar, me perguntando pq eu nao faço cirurgia no estomago, deduzindo qual a minha alimentaçao e meus habitos.

algo em torno de 60 a 70 por cento dos empregadores assume publicamente que nao contrata gordos, pq gordos seriam preguiçosos e uma serie de outros esteriotipos. gordos tambem sao eliminados de concurso publico por nao serem “saudaveis”.

representaçao feminina na midia em geral já é podre e insuficiente, altamente sexualizada, papeis rasos, secundarios, esteriotipados. gordos nem se fala, nao existem. quando estao la, é pra fazer papel de ridiculo sempre.

lidar com a policia machista, racista e classista é dificil pra qualquer mulher, especialmente as vitimas de violencia sexual, domestica, as negras e as pobres. é dificil para homens negros e pobres.

mulheres cis sao assassinadas pelo simples fato de serem mulheres (e sao julgadas pela sociedade, que tenta aliviar o lado dos assassinos, chamando a vitima de puta, por exemplo. se a vitima for realmente prostituta, entao, nem se fala).

mulheres cis sao confundidas com prostitutas, ainda que nao sejam, pelas roupas que vestem, ou por andarem a noite na rua sozinhas, ou por nao terem parceiro fixo e levarem muitos homens diferentes pra casa. mulheres solteiras tambem tem dificuldade de alugar apartamento pq assumem que ela é prostituta. maes solteiras sao muito estigmatizadas tb.

mulheres cis nao podem abortar (mesmo quando a lei autoriza) sem passar por atendimento medico e psicologico, que vai avaliar se elas realmente estao falando a verdade e estao preparadas. nao podem decidir tambem pela laqueadura, ainda que preencham os requisitos legais impostos, sem autorizaçao do medico e do marido. precisam tomar hormonios para nao engravidar, quando tem vida sexual ativa, e isso exige visitas periodicas a medicos.

a questao do banheiro é realmente complicada, eu jamais expulsaria uma moça trans, elas tem todo direito de usar o banheiro feminino. mas nao sou a favor de banheiro misto pq a propria concepçao de banheiros e vestiarios femininos se deu para proteger as mulheres de assedio e violencia constante dos homens. vejam um filme chamado north country, ele explica isso.
eu frequento uma academia só para mulheres justamente pq em ambientes mistos os homens nao nos respeitam, ficam olhando pra nossa bunda, rindo, é constrangedor.

abraços

Johnny F.

julho 7 2013 Responder

Boa noite,

Eu não entendo muito bem essa questão da transexualidade.

Você teria algum livro ou artigo de introdução sobre esse tema?

agradeço desde já

    Robson Fernando de Souza

    julho 7 2013 Responder

    Livro ou artigo não tenho de cabeça. Mas indico que procurar conteúdo no Google com a expressão-chave “visibilidade trans” vai lhe fornecer muito conteúdo sobre o problema da opressão contra pessoas trans*.

~epix

julho 4 2013 Responder

Triste, mas fiquei pensando em uma coisa agora.

“você pode paquerar ou pensar em namoro com alguém sem temer que seu sexo biológico seja o motivo para ser rejeitado”

Por “sexo biológico”, quer dizer “sexo que você nasceu ‘com'”? Não vejo problema em rejeitar alguém por esse motivo. Eu, heterossexual, não devo ser respeitado se eu não me sentir confortavel mantendo relações sexuais com alguém trans?

Concordo que pessoas cis tem muito mais privilégios, mas não vi discriminação no ato de não querer me relacionar com alguém trans.

    Fernanda

    julho 7 2013 Responder

    Sem dúvida você deve ser respeitado, você se relaciona com quem você quiser, mas não querer se relacionar com alguém por essa pessoa ser trans é preconceito sim, assim como não querer se relacionar com uma pessoa por ela ser negra também é. E essa passagem do texto se refere a problemas pelos quais nós, pessoas cis, não passaremos, um deles é ser rejeitado pela nossa identidade de gênero.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo