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Aplicativo de celular escancara falência do modelo convencional de relacionamento

monogamia-possessiva

Atualização (17/08/13, 16h53): O link do aplicativo no Google Play está dando erro 404, dando a entender que o Google Play excluiu de seu catálogo o aplicativo. Mas o site do app continua no ar e é possível ver sobre em que o app consiste ou consistia lendo as seguintes reportagens: O Globo / Tecmundo / O Povo

Lançado há duas semanas, um aplicativo de celular chamado “Rastreador de Namorado” escancara alguns absurdos caros ao modelo monogâmico tradicional de relacionamentos afetivos: o sentimento de posse de um dos lados ou dos dois sobre o outro lado, a falta de confiança, a paixão possessiva em detrimento do amor companheiro. É um indicativo da falência dos relacionamentos não livres, do acoplamento da relação conjugal à lógica capitalista de ver ao outro como uma ameaça ou uma propriedade em detrimento da fraternidade/sororidade e do próprio amor.

Com tal app, é possível saber a localização da pessoa com quem o indivíduo namora ou está casado, as pessoas para quem ela ligou, o histórico de SMSs da pessoa “companheira”, entre outras “facilidades”. Desde a descrição, o aplicativo mostra a quem atende – a relacionamentos já falidos cujo amor, se sequer existia, já se degenerou em possessividade e ciúme e cujo término é mera questão de tempo:

“Quer rastrear seu namorado? Acha que ele está aprontando? Tem certeza que ele foi mesmo fazer uma entrevista de emprego às 11 da noite? Será que ele é tão ruim de inglês pra essa aula particular demorar tanto? Aquela mancha era ketchup ou batom?”

O abuso possessivo sobre o qual tal aplicativo se sustenta foi moderado pelas políticas da loja de aplicativos do Google, o Google Play, que não permitiu o modo escondido, ou seja, a permissão de ser executado sem o consentimento da pessoa vigiada.

Do desenvolvimento e distribuição desse app, avaliado até este momento por 37 pessoas e baixado por um número desconhecido delas, podemos atestar que a monogamia de posse, o modelo tradicional de relacionamentos afetivos mais comum pelo menos na sociedade brasileira, está a anos luz de um amor autêntico e, enquanto fator de união de casais, é um paradigma falido. É o aplicativo “ideal” para casais cuja confiança mútua é inexistente ou se destruiu com o tempo, e cujo “amor” nada mais é do que paixão obsessiva, uma relação possessiva ao invés de amor igualitário.

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É dedutível que tal modelo destrutivo de relacionamento é um fruto da lógica capitalista de relações humanas, baseada em ver ao outro como adversário/rival, como alguém indigno de confiança, como um indivíduo que pode trair o outro a qualquer momento, como alguém que precisa ser vigiado a todo o momento por inspirar o risco de trapacear. E também, complementarmente, como um pertence seu, sua propriedade, quando “seu namorado(a)” é literalmente “seu” e está sob seu poder. É uma tradição relacionamental tão nociva quanto o capitalismo, por causa de suas semelhanças e também das consequências psicológicas de ambos.

É algo que, desprovido de senso de fraternidade e igualdade, transforma o que deveria ser uma troca igualitária de amor, carinho, confidência, confiança e cumplicidade em uma relação desigual, baseada em posse, poder, conflito, disputa, desconfiança e, como o app escancara, vigilância e controle de um sobre o outro. É uma relação em que o amor não existe mais – se é que sequer existiu em casos assim –, tendo sobrado ao invés a dependência afetiva, a infelicidade – ou uma versão parcial de “felicidade” – e talvez algum resquício de atração físico-sexual.

Em nome dos relacionamentos felizes, tudo que leva a esse tipo destrutivo deve ser peitado e tornado coisas do passado em nossa sociedade, como o machismo, os papéis de gênero, a extensão da moral capitalista à relação afetiva, a cultura de violência, o autoritarismo, as relações de poder e tudo mais que fomente a desigualdade e a dominação/submissão nas relações humanas. Assim aplicativos como o “Rastreador de Namorado” perderão o sentido de existir e os seres humanos serão muito mais felizes juntos.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Tarantino

agosto 6 2015 Responder

O sentimento de posse não tem nada a ver com monogamia. Isso é um problema psicológico, e pode ocorrer em quaisquer modalidades de relacionamento.

Aliás, se for para ficar com alguém e ficar vigiando, é melhor ficar sozinho.

vivianne

outubro 3 2013 Responder

Loucura, esse aplicativo é louco e criminoso. Mas para boa parte da sociedade existe beleza nesses comportamentos… O pessoal que compartilha ‘namorada sinistra’ no Facebook deve ter adorado. Fala-se de rastreador de namoradO, como se só mulheres heterossexuais fossem desconfiadas. Além de ser um app invasivo, é sexista. Ainda bem que não tenho essa mente doentia, não pretendo usar isso com ninguém, meu namorado sabe por onde anda, e isso basta.

Jhonny F.

agosto 18 2013 Responder

Olá Robson,
não concordo com algumas coisas que você escreveu:

1.‘’Lançado há duas semanas, um aplicativo de celular chamado “Rastreador de Namorado”escancara alguns absurdos caros ao modelo monogâmico tradicional de relacionamentos afetivos…’’
R:Com certeza é um absurdo o sentimento de posse por parte de um dos parceiros,mais será que é um absurdo digno apenas do modelo monogâmico tradicional?Não existem casais gays possessivos?

2.‘’É um indicativo da falência dos relacionamentos não livres, do acoplamento da relação conjugal à lógica capitalista de ver ao outro como uma ameaça ou uma propriedade em detrimento da fraternidade/sororidade e do próprio amor.’’
R:lógica capitalista?isso é taaao manifesto do partido comunista.
Me responda uma coisa:
Você já teve uma namorada/namorado?você acha que a sua relação era uma relação de posse e pautada em interesses econômicos, ou era apenas a livre associação de duas pessoas que tinha afinidade e amor?
A questão é que a maioria das pessoas não se comporta conforme sua descrição.

3. É algo que, desprovido de senso de fraternidade e igualdade, transforma o que deveria ser uma troca igualitária de amor, carinho, confidência, confiança e cumplicidade em uma relação desigual, baseada em posse, poder, conflito, disputa, desconfiança e, como o app escancara, vigilância e controle de um sobre o outro. É uma relação em que o amor não existe mais – se é que sequer existiu em casos assim –, tendo sobrado ao invés a dependência afetiva, a infelicidade – ou uma versão parcial de “felicidade” – e talvez algum resquício de atração físico-sexual.
R:Voce percebe que partiu de um fato (a criação desse aplicativo)e daí deduziu que toda a sociedade(ou pelo menos uma boa parte) tem de agir do modo esperado pelos criadores do tal produto?

    Robson Fernando de Souza

    agosto 18 2013 Responder

    1. Repare que eu não falei “monogamia heterossexual tradicional”, e sim “monogamia tradicional”.
    2. Dizer que minha menção à lógica capitalista “é taaao manifesto do partido comunista” não refuta o argumento.
    2a. Estou namorando e é a segunda opção.
    3. Sim (em termos de boa parte), e o que tem isso?

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