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set13

A falsa dicotomia militarista “Não gosta da polícia? Liga pro Batman”

Autoria mantida em sigilo para preservar o autor da crítica

Escrito originalmente em 12/11/2012, atualizado em 08/09/2013 nacionalizando as críticas que originalmente tinham como autores os paulistas

Como tendência de reação à cada vez mais comum posição dos brasileiros contra as polícias militares, estão aparecendo contra-argumentos de defesa à instituição, como “A quem você vai recorrer então se for roubadx/sequestradx/agredidx/estupradx?”. A imagem acima é um exemplo de argumento defensor da polícia, ou ao menos da necessidade dela num contexto em que a sociedade ainda não aprendeu a viver eticamente sem precisar de uma polícia para mantê-la disciplinada.

A figura em questão, porém, cai em duas falácias: a falsa dicotomia e a falácia do espantalho.

A falsa dicotomia está em tentar impor o raciocínio “Ou aceita a polícia do jeito que ela é, sem reclamar dela, ou se vire sem recorrer a qualquer instituição policial”. Deixa de lado que o que a esquerda não anarquista quer não é a extinção da polícia, mas sim a sua desmilitarização e desfascistização.  É muito menor a probabilidade de os policiais demonstrarem convicções ultra-autoritárias quando livrados do controle disciplinar e ideológico militar e do histórico pró-ditatorial e elitista das atuais instituições militares.

Uma nova polícia desmilitarizada e desfascistizada dificilmente herdaria, por exemplo, o orgulho da Polícia Militar de São Paulo de ter participado de forma opressora e repressora na História do Brasil, colocando como estrelas de brasão acontecimentos repressivos e genocidas como a Guerra do Paraguai, a Guerra de Canudos, a repressão da Revolta da Chibata e o Golpe de 1964 (chamado pelo site da PMESP de “Revolução de Março”), ou o orgulho dos bandeirantes do passado, que não eram muita coisa além de escravizadores e assassinos de índios e negros quilombolas. Dificilmente herdariam também valores típicos das ditaduras, como a ordem a todo custo e a criminalização de manifestações da população pobre que supostamente desafiam leis arbitrárias de disciplinamento urbano.

A polícia desmilitarizada teoricamente condiria com o atual contexto político não autoritário (que eu não reconheço como propriamente democrático), em que há uma disposição e esforço crescente entre os movimentos sociais de buscar o respeito dos Direitos Humanos para todos. Não seria disciplinada e treinada com base numa ideologia fascista herdada da ditadura militar. Seria, ao invés, instruída e formada de modo a respeitar a população humilde e suas manifestações culturais e econômicas, tolerar protestos pacíficos das categorias sociais e profissionais necessitadas (como os professores e os estudantes) e a zelar não pela “lei e ordem a todo custo”, mas pelo cumprimento dos Direitos Humanos e dos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal – visto que a segurança pública, no contexto estatista, ainda é necessária para o zelo aos direitos de cada pessoa numa sociedade que não sabe se comportar sem coerção policial e legal.

E a falácia do espantalho é justamente em recorrer à falsa premissa de que as críticas às PMs são com o intuito de extinguir qualquer forma de polícia e fazer a sociedade viver sem segurança pública, e não de humanizá-las e civilizá-las (no duplo sentido de substituí-las por instituições civis e também civilizadas).

Todo o Brasil – exceto os anarquistas, que defendem a abolição do Estado e das suas polícias a longo prazo – deseja que as PMs estaduais sejam desmilitarizadas, fundidas com as atuais Polícias Civis e reconstituídas para que seu valor supremo não seja mais “a lei e a ordem”, mas sim a proteção aos Direitos Humanos. Mas o movimento que reinvidica essa humanização das polícias precisa se organizar, crescer mais, tornar-se mais visível à população e adquirir poder político de modo a emendar à Constituição a substituição da Polícia Militar por uma polícia inteiramente civil e adaptada à nossa teórica “democracia”.

imagrs

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Marcos

setembro 15 2013 Responder

https://www.youtube.com/watch?v=l5BXyvMU80Q

Sobre direitos humanos esse vídeo é bom, vcs de esquerda tem muito o que aprender ainda sobre a direita e a real liberdade.

Jones

setembro 11 2013 Responder

Facepalm…disse “expande idéias” para ironizar um comentário desnecessário. Nem todo maconheiro é um inútil e desprovido de idéias, assim demonstrei, utilizando-me de grandes “idealizadores” da humanidade que usavam e/ou defendia o uso.

Leandro

setembro 11 2013 Responder

Queimar um baseado “expande as idéias”
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Facepalm.

Jones

setembro 9 2013 Responder

O brasil deveria ter uma policia semelhante a dos Estados Unidos, não que eu seja “americanizado”. Lá a policia é uma só, tem os uniformizados que são como a nossa policia preventiva (militar…blah!) e os à paisana (distritais) que são como nossa policia judiciária (cívil), porém a policia é uma só. Lá o chefe geral não é o governador e sim o prefeito. Enfim, uma policia unificada semelhante ao modelo americano além de ser mais econômico é muito mais eficiente. Valdemir, sabe porque nossa policia preventiva é militar? Estude um pouco a história da instituição “Policia Militar” . Me diga senhor Valdemir qual policia é mais eficiente e disciplinada a americana unificada não militar, ou as nossas divididas e muitas vezes rívais uma da outra? Talvez o nosso país seje melhor se trocarmos os “velhos ladrões corporativistas” por “jovens maconheiros” que baseiam suas idéias em livros e adimiram modelos sociais existentes que, de fato, são eficientes…Queimar um baseado “expande as idéias”, Carl Sagan, William Shakespeare, Oscar Wilde e Sigmun Freud que o diga!

UNIFIÇAÇAO JÁ

julho 10 2013 Responder

FORA MILITARISMO.. DITADURA NUNCA MAIS!!

Valdemir Souza

novembro 16 2012 Responder

Estava procurando algumas notícias em blogs sobre a posição de militares das Forças Armadas em meio ao caos vivido a onda de violência em São Paulo quando acabei encontrando esse blog… depois de o ler achei muito importante fazer alguns esclarecimentos:

1. O autor comente um ERRO GRAVE de interpretação da imagem e do texto, a frase “Não gosta de polícia? liga pro Batman.” pode se referir a qualquer polícia, então porque a perseguição textual com a Polícia Militar? e a Polícia Civil? a Federal? a Rodoviária Federal? será que eles são tão melhores assim por exemplo que a PM-SP citada em seu texto?

2. O Autor mostra desconhecer totalmente o que é disciplina militar e como ela é empregada nas Policias e Corpo de Bombeiros estaduais quando tenta rotular o modo de agir desses órgãos como fascistas e/ou autoritários.

A disciplina militar nada mais é que o exato cumprimento dos deveres, traduzindo-se na rigorosa observância e o acatamento integral das leis, regulamentos, normas e ordens, em suma, não tem ligação com o desrespeito aos direitos humanos (na cabeça do autor só a PM desrespeita os direitos humanos?) ou qualquer outro tipo de legislação. O treinamento da PM é específico para sua finalidade (combater o crime e proteger o cidadão), as técnicas, que alguns momentos se assemelham a das forças armadas, são assim porque o combate ao crime no Brasil é complexo e perigoso (como em uma guerra mesmo) e essa ideologia fascista o qual se refere simplesmente não existe, nem na cabeça dos profissionais, tão pouco quando eles estão em cursos de formação (na dúvida? visite o site da ACIDES)

3. No trecho: “E a falácia do espantalho é justamente em recorrer à falsa premissa de que as críticas à PM paulista são com o intuito de extingui-la, fazer a sociedade paulista viver sem polícia e sem segurança pública, e não de humanizá-la e civilizá-la” o autor tira conclusões estranhas, não existe menção de extinguir a polícia na imagem e sim de passar a sua atribuição ao Batman, que nesse caso, seja somente para aquelas pessoas que não “gostam” da polícia (criminosos, políticos corruptos, etc.).

Resumindo, a polícia militar possui suas virtudes e seus defeitos, é o órgão de maior efetivo e que possui a missão mais árdua, talvez por isso seja o alvo mais fácil de ser questionado. Muitos estudiosos gostam de apontar críticas ou sugerir melhorias, porém, poucos realmente conhecem seu funcionamento, sua legislação, as dificuldades do Estado e da corporação e se limitam a sentar em uma cadeira (as vezes fumando um belo baseado), e digitar o que pensa de acordo com um mundo idealizado em livros ou soluções práticas baseadas em sociedades existentes.

Não estendendo mais o assunto, não estou querendo fazer apologia ao militarismo, nem dizer que sua aplicação tem feito bem ou mal as instituições mencionadas (PM e CBM), só acho que as pessoas devem tirar suas conclusões de acordo com a verdade e não serem “influenciadas” a acreditar nos outros.

Valdemir J. S. Filho

    Robson Fernando de Souza

    novembro 17 2012 Responder

    1. A PM é de longe a mais criticada. Por isso.
    2. Me referi especificamente à de São Paulo.
    3. Você entendeu exatamente o contrário. Não é a imagem que quereria extinguir a política, e sim supostamente as críticas que ela rechaça.

Vinícius

novembro 13 2012 Responder

A frase mais burra que ouvi na minha vida é “Quem não gosta de polícia é bandido”…

Parabéns pelo post!

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