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Complexo de vira-lata: imagem falaciosa compara “sensualidade” de danças para criticar funk
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Falácias são comuns nos argumentos de quem deprecia o funk carioca, usa de complexo de vira-lata contra o povo brasileiro e faz as duas coisas ao mesmo tempo. Não foi diferente na imagem acima, que acabei de ver sendo compartilhda no Facebook. Ela “compara” a “sensualidade” das danças típicas da Argentina, da Espanha, de alguns países do Oriente Médio e do Brasil, ridicularizando o último.

A falsa analogia é patente: baseia-se nas premissas de que não existem danças extravagantes nas outras três localidades e não existe nenhuma outra dança sensual típica brasileira fora o quadradinho de oito. Além disso, é evidente o elitismo, usando ritmos dançantes apreciados pelas elites de outros países para, na falsa comparação em questão, ridicularizar as danças do funk carioca, muito apreciado por pessoas das classes econômicas mais humildes no Brasil.

Percebe-se que há uma carga não só de elitismo na imagem, como também de racismo velado – aliás, de ambos fundidos num preconceito só. Isso porque o quadradinho de oito é uma dança performada pela banda Bonde das Maravilhas, formada por meninas negras e de origem pobre, e a banda vem sendo exaustivamente ridicularizada desde que começou a fazer sucesso nas periferias brasileiras, enquanto a embranquecida e elitizada cantora Anitta, que mescla funk carioca com pop, não vem sendo alvo de quase nenhuma hostilidade fora do escopo machista – pelo menos não se vê nenhuma, ou quase nenhuma, imagem viral descendo a lenha nela e no “show das poderosas”.

E fica visível também o complexo de vira-lata presente na mentalidade de muitos brasileiros, principalmente nas classes média e média-alta: exalta-se outros países e povos como “civilizados” e “limpinhos”, enquanto o Brasil seria um país “sujo”, “incivilizado” e “repulsivo”. Esquece-se que todos os países do mundo têm problemas internos graves e o Brasil tem sim suas inúmeras qualidades.

Não que isso seja uma crítica minha a uma suposta “falta de patriotismo” – sou contra o nacionalismo e o patriotismo -, mas isso descamba no preconceito de brasileiros contra brasileiros. E esse preconceito muitas vezes é orientado por elitismo, condenando-se a “sujeira” que os pobres estariam fazendo no Brasil e glorificando-se a “limpeza” e “civilidade” dos países de “primeiro mundo”, tradicionalmente admirados por serem “ricos”, “cultos” e de “gente bonita” – e iludidamente imaginados como se não tivessem pobreza -, ou dos bairros das classes mais elevadas nas cidades do Brasil e dos demais países do “terceiro mundo”.

Perceber a origem e as razões das hostilidades contra o funk não branco-elitizado – hostilidade essa que não é dirigida com a mesma força contra outros ritmos que  também possuem letras tão polêmicas quanto as do funk – é perceber também como a sociedade brasileira ainda é bastante racista e elitista.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Tenebrifer

setembro 19 2013 Responder

Quanto eufemismo. Chamar essa dança de “extravagante” é pouco. Ela reflete o gosto da população que você chamou de “humilde”. Lembrando que, esse povo “humilde”, é também pobre. E não tem acesso a educação de qualidade e tem pouco acesso à cultura internacional.
A mídia direcionada para a “camada humilde” da população é estritamente sensorial. Gente pelada, bunda balançando. Os prazeres visuais, os prazeres da carne são fáceis de serem entendidos e é por isso que dão audiência: Porque os humildes são também imediatistas e não tiveram educação de qualidade que os ensinasse a pensar como as partes mais desenvolvidas da sociedade.
Como os “humildes” são também pobres, moram nas favelas, e é na camada pobre do Brasil que se nota o maior grau de miscigenação, enquanto que nas classes dominantes, ela é quase inexistente. E por isso, se conclui que a herança cultural e genética da galera “humilde” possui mais África. Algumas expressões culturais africanas têm esses mesmos pontos em comum com os nossos “humildes”: Essa sensualidade que você chamou de “extravagante”.
Para a parcela dos brasileiros que está às margens de toda essa “humildade” e “extravagância”, é natural que não se sintam representados por essa cultura. Afinal, a única coisa que possuímos em comum com nossos compatriotas mais humildes é a nacionalidade. Apenas nascemos em território brasileiro, mas poderia ter sido no Japão, na Itália, na Alemanha, em Portugal e etc.
Ao fazer essa comparação entre culturas asiáticas e européias com a cultura brasileira que tem um “pé na África” e raízes indígenas, tudo misturado com sabe mais o que, estamos rindo do que você chamou de “extravagância” justamente por causa do contraste.
O tango também tem raízes africanas, e daí? Não possui nenhuma extravagância da qual possamos (nós, de uma cultura às margens da nata brasileira) rir.
Por isso não há racismo, estamos apenas rindo da diferença cultural, da extravagância. Mostre uma dança típica européia tão extravagante quanto essa, e garanto que iremos rir. Quem nunca riu daquela dancinha russa? Todos sabem a qual dança estou em referindo…

Felipe Andrade

setembro 18 2013 Responder

Então, cara, foi só uma piada… Relaxa. As piadas só podem ser feitas de falsa analogia, sarcasmo, hipérboles, enfim, do uso extensivo do sentido figurado. Esperar rigor científico de uma piada é uma piada já. Vai analisar a piada do Fiat 147 dizendo que ela é elitista também?

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