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set13

Fanpage de construtora que destruiu prédio histórico do Recife é bombardeada de protestos

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Obs.: Este post entra na categoria Direitos Humanos porque o direito do ser humano à memória do seu passado e de sua história enquanto sociedade também pode ser considerado um direito humano.

A Construtora Rio Ave tornou-se inimiga pública oficial da população do Recife depois de ter destruído hoje de manhã o histórico Edifício Caiçara, na Avenida Boa Viagem, na beira-mar da cidade. Revoltados, recifenses que têm conta no Facebook estão bombardeando a fanpage da empreiteira com protestos inflamados que agora e para sempre deporão contra a reputação e a imagem institucional da empresa.

Alguns das centenas de protestos de recifenses revoltados com a destruição do patrimônio histórico promovido pela empresa. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

Alguns das centenas de protestos de recifenses revoltados com a destruição do patrimônio histórico promovido pela empresa. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

A revolta é totalmente justificável, quando consideramos que o Edifício Caiçara foi construído na década de 1940 e era um dos últimos edifícios de arquitetura pré-contemporânea de toda a orla do Recife. Até hoje, vinha sobrevivendo à sistemática destruição de todos os casarões e edifícios antigos que vem se desenrolando desde algumas décadas atrás.

A empresa tentou se safar com essa nota de “esclarecimento”:

Tentativa da Rio Ave de justificar a injustificável agressão contra o patrimônio histórico recifense. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

Tentativa da Rio Ave de justificar a injustificável agressão contra o patrimônio histórico recifense. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo.

Mas tanto essas desculpas, pautadas na falácia “legalidade = moralidade”, não aplacaram a revolta das pessoas como sequer explicam a suposta legalidade da destruição cometida. Tanto que a Prefeitura do Recife e a Fundarpe negaram que a demolição esteja amparada pela lei e agora a destruição foi embargada, proibida de ser completada, e a Rio Ave pode ser multada em até 50 milhões de reais.

Esse autêntico vandalismo contra o patrimônio histórico do Recife me lembrou de um triste testemunho meu de duas outras demolições de prédios antigos na orla do bairro de Boa Viagem. Uma não lembro mais em que ponto da orla foi, mas lembro nitidamente que era um casarão com uma linda arquitetura que se podia considerar clássica, lembrando o Recife da primeira metade do século 20, e estava sendo destruído por uma construtora local, que havia fixado uma placa ao lado da demolição, escrita “Em breve, mais um clássico”. O ano desse acontecimento era 2004, e eu até hoje lamento por não ter tido na época uma câmera digital ou um celular com câmera para flagrar tal absurdo.

Em resumo, um prédio verdadeiramente clássico estava sendo destruído e varrido para sempre para a construção de um edifício com cara de qualquer outro que apenas a construtora que a destruiu consideraria um “clássico” – e da mesma forma, se a destruição for concluída, teremos ali mais um prédio com cara de qualquer outro, ou, como dizem, com “cara de nós todos”.

A outra demolição foi de alguns edifícios baixos ao lado da Pracinha de Boa Viagem. Já pareciam abandonados e mal conservados e, ao invés de restauração, só receberam mesmo os buldôzeres arautos da destruição. Essa agressão também aconteceu na década passada.

A destruição sistemática do patrimônio histórico não tombado do Recife se configurou como uma tendência, e vem acontecendo com a total conivência da prefeitura e também dos órgãos que deveriam zelar pelos prédios antigos da cidade. E a Rio Ave adicionou mais um capítulo a essa ópera-horror de aniquilação da história da cidade.

Voltando aos protestos na fanpage, denuncia-se no grupo Direitos Urbanos – Recife que os gerenciadores de redes sociais a serviço da construtora estão, num gesto de censura, apagando os comentários um por um. Mas isso não tem adiantado, já que os protestos deverão continuar nos próximos dias.

Endosso todas as mensagens de revolta que vêm sendo dirigidas a essa empresa que cometeu um autêntico vandalismo, cometido na premissa de que as pessoas engoliriam a falácia “legalidade = moralidade”. Só espero que esses protestos continuem pelo menos até resultarem em algum movimento de caráter permanente que lute contra a destruição do patrimônio imóvel do Recife e o regime de império das construtoras imobiliárias que tem feito a cidade de playground.

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