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set13

O chauvinismo elitista nas coberturas de tragédias nos EUA, na Europa e em partes da Ásia
Folha de Pernambuco de 17/09/2013, abordando o ataque contra uma base da Marinha dos EUA com letras garrafais. Ao mesmo tempo, tragédias de igual ou maior magnitude ocorrem em países de poder geopolítico inferior mas são tratadas com pequenas matérias ou simplesmente ignoradas.

Folha de Pernambuco de 17/09/2013, abordando o ataque contra uma base da Marinha dos EUA com letras garrafais. Ao mesmo tempo, tragédias de igual ou maior magnitude ocorrem em países de poder geopolítico inferior mas são tratadas com pequenas matérias ou simplesmente ignoradas.

Sempre que uma tragédia, como um massacre, uma catástrofe natural ou um acidente com dezenas ou centenas de vítimas, acontece nos EUA ou nos países mais “importantes” da Europa e da Ásia, os jornais impressos brasileiros estampam tal acontecimento numa área grande da primeira página, senão como manchete principal, da edição do dia seguinte, e os noticiários online lhe dedicam letras garrafais e, às vezes, até uma série especial de páginas. Não seria isso nada merecedor de críticas – pelo contrário, seria inquestionavelmente digno de nossa comiseração pelas vítimas –, se não fosse por um detalhe.

Repare-se que nunca vemos nessa mesma mídia tragédias de igual ou maior proporção em países latinoamericanos (exceto o próprio Brasil*), africanos e asiáticos (exceto talvez Japão, China e Coreia do Sul) e em algumas nações do leste europeu tendo o mesmo destaque enorme. Eventos com relativamente numerosa perda de vidas humanas na Síria (exceto talvez o recente ataque com armas químicas), no Afeganistão, no Chade, na Uganda, em Laos, no Cazaquistão, no Equador, na Sérvia, em El Salvador etc. são relegados a notícias ridiculamente resumidas na seção “Internacional”, senão em pequenas notas ou simplesmente ignoradas. As exceções, talvez, são tragédias de enorme escala, com milhares de mortes humanas, como em terremotos, tsunamis e alguns genocídios.

Isso caracteriza um verdadeiro chauvinismo em favor dos países mais desenvolvidos e geopoliticamente poderosos do Norte. É como se a vida de um americano, de um francês ou de um inglês fosse superior e mais importante do que a de um chadiano, um afegão ou um salvadorenho. Aliás, as tragédias em diferentes regiões do mundo são tratadas como se a vida de um americano ou inglês valesse o mesmo que a de dezenas de africanos, asiáticos, europeus orientais ou latinoamericanos.

Metade inferior da capa do Jornal do Commercio (Pernambuco) de 17/09/2013, reservando uma vasta área da primeira página para o mesmo massacre a que a Folha de Pernambuco se referiu

Metade inferior da capa do Jornal do Commercio (Pernambuco) de 17/09/2013, reservando uma vasta área da primeira página para o mesmo massacre a que a Folha de Pernambuco se referiu

Pode-se dizer, por que não, que há uma forma velada de elitismo, falando-se de pessoas e países, nessa cobertura desigual de tragédias em diferentes regiões do mundo. Isso porque fica aparente que os critérios de importância dada a cada evento do tipo são o poder geopolítico da nação onde aconteceram as mortes em série e o percentual de pessoas não pobres que a habita. Quanto mais poderoso em relação ao mundo é o país e mais pessoas não pobres houver em relação à população nacional total, mais valor é dado às vidas ceifadas. Por outro lado, quanto maior o percentual de pessoas pobres e menos notoriedade internacional, menos dignos e mais irrelevantes à imprensa daqui os seres humanos mortos parecem.

A imprensa brasileira precisa perceber isso, entrar em autorreflexão e ver o quanto está sendo elitista e, por que não, pauperofóbica quando dá muito mais valor à vida de quem mora nos EUA e na Europa Ocidental do que em outras regiões mais pobres e menos geopolitizadas do mundo. Verá que está tratando vidas humanas com uma hierarquia em que as “superiores” seriam as únicas dignas do luto dos brasileiros enquanto as “inferiores” só estariam merecendo desprezo.

 

*A atribuição de importância relativamente maior aos eventos brasileiros do que os de mesma magnitude em outros países não foi levada em conta neste artigo, visto que é “natural” que a prioridade da imprensa nacional sejam os acontecimentos de seu próprio país.

imagrs

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Jones

setembro 19 2013 Responder

A mídia destaca aquilo que é conveniente para os poderosos. O mais estranho foi o evento catastrófico ter ocorrido numa hora decisiva para os EUA em relação a Síria, será apenas uma coincidência, uma forma de “desviar a atenção” do mundo ou uma fatalidade? Aposto na programação Monarca. Enfim, a mídia clássica é mais uma ferramenta das elites com o propósito claro de controle e manobra do povo. O que ocorreu foi uma tragédia, mas, e o sofrimento de países menos afortunados que muitas vezes sofrem coisas mais terríveis, muitas vezes (senão todas) causados pelos países poderosos?………………………………………………………………………………………………………….Repito: Números e valores. Quem tem mais se destaca melhor, e quem tem menos limpa a bu**a dos poderosos.

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