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A missão impossível do Ministério da Agricultura

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Uma placa figura em cada sucursal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), revelando a “missão” da instituição: “promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do agronegócio em benefício da sociedade brasileira”. Aos olhos do senso comum, são palavras bonitas que, se fossem postas em prática, fariam do Brasil rural uma maravilha. Só que tem um problema: é impossível, ao mesmo tempo, sustentabilizar a agricultura, respeitando-se o triângulo ambiental-social-econômico, e valorizar o agronegócio a ponto de torná-lo ainda mais rico e poderoso.

A cultura socioeconômica do latifúndio é quase polarmente oposta à sustentabilidade. Quanto mais territorialmente extenso, economicamente rico e politicamente poderoso é o agronegócio, mais agredida e degradada a Natureza se torna. Sendo a tendência natural da competitividade econômica fazer as empresas mais aptas crescerem e as mais simples e tradicionais sucumbirem à falência ou ao desfazimento do patrimônio, e sabendo nós de em qual desses dois lados está o agrobusiness e onde está a agricultura familiar, o latifúndio se torna ainda mais rico e próspero, e isso influi positivamente em seu poder político local e até nacional.

Levando-se isso em consideração, o crescimento econômico do agronegócio implica também seu empoderamento político, e este aumenta o número de parlamentares da bancada ruralista estadual e federal e também de aliados dos interesses latifundiários. E um dos grandes motes dos parlamentares e governadores ruralistas é o desmonte da legislação ambiental, vide o Código Florestal e diversos outros projetos de lei que visam diminuir proteções ambientais e cassar os direitos dos povos indígenas.

Alguns podem afirmar que o agronegócio tenderá, nos próximos anos ou décadas, a mudar seu paradigma agronômico de modo a tender mais ao respeito ao meio ambiente. Porém isso tem seus limites, como o alcance de um máximo de produtividade por hectare/ano, cujo alcance reviveria nos latifundiários a intenção de expandir territorialmente suas terras por meios escusos, e o uso excessivo de fertilizantes químicos e meios biotecnológicos de multiplicação da produção agrícola, que poderá degradar os solos – cuja recuperação sairia cara demais – e aumentar a incidência de doenças humanas como o câncer.

Além da questão ambiental, agronegócio e justiça social são frontalmente opostos, uma vez que a glória latifundiária depende essencialmente da manutenção do status quo de concentração fundiária extrema. E isso vem atrelado ao desestímulo à atividade camponesa, à grilagem, à coação de pequenos proprietários que se recusem a entregar suas terras a grandes donos de terras, entre tantos outros meios de opressão social.

A reforma agrária, leia-se a desaproriação de grandes propriedades de terra em favor da redistribuição de seu terreno para camponeses, tenderá a ameaçar o poder do agronegócio, e isso vai contra a segunda metade da missão do MAPA, de promover a competitividade dos latifúndios. O mesmo se aplica em relação ao incentivo á agricultura orgânica, sem agrotóxicos e transgênicos: os latifundiários não querem parar de usar venenos e organismos geneticamente modificados em suas plantações, e abrir mão de ambos lhes implica perder competitividade, pelo menos dentro do mercado interno e em relação às exportações a países que não proíbem a transgenia.

Trabalhar pela transformação da agricultura brasileira em atividade sustentável, ou seja, pela agricultura camponesa, orgânica, sem agrotóxicos, sem transgênicos, sem opressão e violência rural, sem grilagem, sem desmatamento, sem degradação do solo, sem interesses privados, sem desvalorização do cultivo familiar e com democratização, vai contra o favorecimento do agronegócio. Atenta diretamente contra os interesses dos grandes donos de terra. E isso torna impossível e extremamente ingênua a missão do MAPA.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Heloisa Helena

outubro 11 2013 Responder

Robson, as suas análises são impecáveis! Descobri o seu blog há pouquíssimo tempo (há dias) e estou realmente encantada e “viciada” em consulta diária. Muito prazer em conhecê-lo!!

    Robson Fernando de Souza

    outubro 11 2013 Responder

    Obrigado, Heloisa! =D

Elias Henrique

outubro 10 2013 Responder

Um primor, Robson. Como sempre. É ótimo passar por aqui.

    Robson Fernando de Souza

    outubro 10 2013 Responder

    Valeu, Elias =)

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