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Daniela Andrade: quando a sociedade não acredita na pessoa trans* que se revela trans*

simbolo-trans-1Mais um texto da ativista Daniela Andrade, uma das mais engajadas militantes pelos direitos das pessoas trans*.

 

Quando a sociedade não acredita na pessoa trans* que se revela trans*
por Daniela Andrade

Às vezes eu me pergunto, por qual motivo será que, quando um homem diz para a sociedade que é gay, NINGUÉM costuma desacreditá-lo, a não ser, basicamente e geralmente, os próprios pais dele e familiares próximos.

Ele conta que é gay para QUALQUER pessoa e, por via de regra acreditam imediatamente, ninguém o questiona achando que ele não seja gay, os questionamentos são geralmente sobre como é a vida de um homem gay.

Mas, se eu digo que sou trans*, não só preciso de uma série de laudos médicos que comprovem que sou trans* (emitidos por pessoas cis, diga-se de passagem), como tenho de passar a vida explicando que sim, sou mulher, e que não, não sou louca – posso até ser ou ficar por outros motivos, a violenta discriminação que as pessoas trans* sofrem dentro da sociedade é um deles, mas não o fato de eu ser trans*.

Geralmente sou desacreditada quando digo que sou mulher trans*, pela sociedade e pelas instituições governamentais, e geralmente quem se diz gay não é visto como alguém que tem um sério distúrbio mental e por isso está se dizendo gay – a menos, claro, que quem vá analisar o caso seja um evangélico fundamentalista.

Essa é uma fina distinção entre as pessoas trans* e as pessoas (cis) gays – no primeiro caso, há um pressuposto de que somos doentes mentais (com aval do consenso científico atual e mundial, afinal, veja, os doutos e ilustres cientistas CIS categorizaram as pessoas trans* como transtornadas mentais tanto no DSM – Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais e no CID – Catálogo Internacional de Doenças), e no segundo caso, a homossexualidade deixou o DSM em 1978 e o CID em 1990.

Pois bem, pessoas cis decidem que as pessoas trans* possuem transtorno mental e não podemos questionar? “Ah não, pois quem está dizendo isso é a ciência. E se a ciência disse, não podemos questionar”. Devem pensar alguns né? Geralmente pensa isso quem não é trans* – afinal, não os prejudica (diretamente, geralmente) as identidades trans* serem consideradas patologia, dado que não é a identidade deles que está patologizada.

Pensava eu que a ciência não fosse dogmática, e que tudo que se configura saber científico possa ser contestado, sobretudo quando esses saberes são materializados por meio de pessoas que em nome da ciência praticaram toda sorte de violência contra seres vivos, e que em nome de um consenso científico inclusive já premiaram com nobeis coisas que hoje em dia são consideradas aterradoras (Egas Moniz recebeu o Nobel de Medicina por uma “grande invenção”: a lobotomia, uma cirurgia que de tão popular, foi praticada inclusive em crianças com mau comportamento, e atualmente é considerada um dos feitos mais perversos da psiquiatria – creio que considerar todas as pessoas trans* como doentes é outro). Há muita coisa aterradora sendo produzida por cientistas, que é sempre bom lembrar, não são deuses e sempre podem ser contestados, já que, apesar de óbvio, é bom lembrar que também eles podem errar.

E, quanto a quem cobra títulos de mestrado, doutorado, pHD para falar sobre determinado trabalho científico; bem, há pessoas ao longo da história que sem título algum produziram trabalhos científicos que modificaram o curso da humanidade. Aliás, falando da própria área das ciências psi, Melanie Klein nunca fez qualquer curso de medicina (psiquiatria)/psicologia quando criou a técnica da análise de crianças por meio do brincar – o que revolucionou a análise de crianças muito pequenas e causou muitas dissidências dentro da psicanálise, dado que muitos achavam que Klein estava indo longe demais com suas ideias que ousavam contestar o mestre Freud e, na verdade, não é que Klein estava indo longe demais, ela apenas estava chegando muito rapidamente a caminhos obscuros inclusive para psiquiatras, e defendendo com muita veemência seus pontos de vista. Klein foi um marco dentro das ciências psi e deixou saberes que até hoje são utilizados inclusive na psiquiatria.

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