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Folha de S. Paulo cria enquete malfeita e reducionista sobre perfil ideológico do indivíduo

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O portal da Folha de S. Paulo criou uma enquete sobre perfil político-ideológico individual que vem despertando muitas críticas. O survey virtual tem apenas dez perguntas, cada uma com apenas duas respostas bastante descontextualizadas e sem margem para interpretações múltiplas e justificativas que fujam de uma bizarra lógica binária imaginária pela redação do jornal.

Englobando assuntos como drogas, criminalidade, homossexualidade e pobreza, a mutienquete não permite que o indivíduo, por exemplo, questione ou rejeite a tradição de desenvolvimento capitalista, seja contra o uso de drogas legais (principalmente cigarro e bebidas alcoólicas) e aponte na gênese da pobreza questões muito mais profundas do que a mera distribuição de oportunidades ou a preguiça individual. Além disso, assuntos cruciais da inclinação ideológica do indivíduo, como a aceitação (condicional ou incondicional) ou rejeição do capitalismo, a abordagem da tradição moral nacional, a visão da pessoa sobre a ordem pública e social, a problematização ou justificação da hierarquia de classes socioeconômicas, a naturalização ou problematização cultural dos papéis de gênero, a função da polícia numa sociedade estatista, a valorização ou desvalorização de ídolos cívico-patrióticos, entre muitas outras, foram completamente ignoradas.

No mais, o survey inteiro é um compêndio de dez falácias mistas de falsa dicotomia e dicto simpiciter (ignorar a possibilidade de exceções).

Abaixo comento cada uma das dez perguntas e dicotomias:

1. Posse de armas
a) Arma legalizada deve ser um direito do cidadão para se defender
b) Deve ser proibida, pois ameaça a vida de outras pessoas

O falso dilema é claro: ou aceita incondicionalmente ou rejeita incondicionalmente. Não é permitido ao indivíduo responder, por exemplo, que a posse de armas deveria ser condicionada a testes como de destreza e de equilíbrio psicológico e à verificação de antecedentes criminais e fiscalizada com rigor máximo.

2. Migração
a) Pobres que migram contribuem com o desenvolvimento
b) Pobres que migram acabam criando problemas para a cidade

A pessoa não é permitida a pensar sobre questões como uma eventual imigração em massa, o medo da pessoa nativa de vivenciar mudanças culturais muito radicais e a adaptação ou inadaptação de imigrantes de sociedades teocráticas a um país de leis laicas, e nem mesmo sobre a fundação de colônias rurais por imigrantes que venham em grandes números – já que a enquete só menciona a cidade. E é obrigada a aceitar o conceito capitalista de “desenvolvimento”, não podendo imaginar, por exemplo, uma eventual imigração de ativistas de esquerda que sejam contra o desenvolvimento capitalista e queiram, além de um novo lugar para viver, ajudar a esquerda militante brasileira a aprimorar suas lutas.

3. Homossexualidade
a) Deve ser aceita por toda a sociedade
b) Deve ser desencorajada por toda a sociedade

A questão é reduzida a uma mera dicotomia “aceitar ou encorajar”. Não há opções como “Deve ser proibida por lei” (que, ainda que seja absurda, deveria estar presente na enquete para fins de pesquisa), “Casais homossexuais deveriam ter todos os direitos que os heterossexuais possuem” ou “Casais homossexuais deveriam ter apenas alguns direitos em comum com os heterossexuais” (que também é absurda, mas deveria estar presente para fins de pesquisa). Aliás, não existe apenas uma única questão dentro do tema homossexualidade, mas sim uma subdivisão com diversas questões distintas mas associadas, como casamento, direitos, aceitação social, depreciação etc.

4. Pobreza
a) Boa parte está ligada à falta de oportunidades iguais
b) Boa parte está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar

Assim como na enquete sobre migração, aqui a pessoa está presa à não problematização do capitalismo e do liberalismo. Ela é “obrigada” a pensar que muitos casos de pobreza serão resolvidos com a genérica e vaga providência de “prover oportunidades iguais a todxs”. Não pode trazer com sua resposta uma abordagem que coloque a pobreza como fruto da essência capitalista – considerando-se que o capitalismo depende que haja pessoas ricas e pessoas pobres, ainda que os critérios de pobreza possam variar de país para país.

5. Pena de morte
a) Não cabe, mesmo que a pessoa tenha cometido um crime grave
b) É a melhor punição para indivíduos que cometem crimes graves

Aqui não há outras saídas: ou é incondicionalmente contra ou incondicionalmente a favor. Não é permitido à pessoa responder ser apenas condicionalmente a favor da pena de morte – para casos como crimes hediondos com alto risco de a pessoa condenada reincidir neles depois de encerrada sua pena de prisão – ou opinar sobre o uso da pena de morte como punição contra certos crimes militares – levando-se em conta que o Brasil ainda admite pena capital no meio militar em situações de guerra para casos como traição ou desobediência no campo de batalha.

6. Sindicatos
a) Servem mais para fazer política do que para defender os trabalhadores
b) São importantes para defender os interesses dos trabalhadores

Ou é um instrumento apenas de politicagem ou é um meio exclusivamente de atuação trabalhista. Nada de terceiras opções ou alternativas mistas, como “Teoricamente são importantes para a luta dos trabalhadores, mas muitos sindicatos têm servido como instrumentos políticos”.

7. Criminalidade
a) A maior causa é a falta de oportunidades iguais para todos
b) A maior causa é a maldade das pessoas

Assim como na enquete sobre pobreza, a pessoa fica presa à aceitação tácita da tradição capitalista e resignada a escolher que uma sociedade com “oportunidades iguais para todxs” será inquestionavelmente livre da maioria da sua criminalidade. Nada de pensar na resposta sobre o racismo, o elitismo, a tradição brasileira de um mandar e a outra pessoa obedecer, a cultura de violência, a ausência de políticas públicas de valorização da cultura popular, a criminalização do consumo de drogas hoje ilegais, a precariedade da educação etc.

8. Adolescentes
a) Aqueles que cometem crimes devem ser re-educados
b) Aqueles que cometem crimes devem ser punidos como adultos

A imposição dicotômica aqui é similar à da enquete sobre pena de morte. Não dá para responder com meios-termos como “O tratamento de adolescentes infratores deve depender do crime” ou “Apenas aqueles que cometem crimes hediondos devem ser punidos como adultos”.

9. Drogas
a) Uso não deve ser proibido, pois o usuário é o mais penalizado
b) Uso deve ser proibido, pois a sociedade é a mais penalizada

A primeira alternativa ignora que a sociedade não usuária também é muito penalizada com a criminalização de muitas drogas, por causa da guerra permanente entre polícia e traficantes, que arrasta muitos jovens para o tráfico e favorece a tradição do poder paralelo em diversas comunidades muito pobres abandonadas pelo poder público. E novamente, nada de terceiras opções ou meios-termos, como “Depende da droga, já que muitas delas têm efeitos extremos no corpo humano” ou “As drogas legais também deveriam ser proibidas”.

10. Religião
a) Acreditar em Deus torna as pessoas melhores
b) Acreditar em Deus não necessariamente torna uma pessoa melhor

Essa questão foge do espectro político-ideológico, porque há muitos ateus de direita por aí, que defendem incisivamente que a crença em Deus não é necessária para uma pessoa ter bom comportamento moral. Seria mais conveniente, à luz de uma pesquisa sociopolítica, que a pergunta sobre religião fosse sobre se a pertença a uma religião dotada de uma hierarquia clerical (fiéis na base; papa, aiatolás ou rabinos no topo) é necessária para a retidão moral do indivíduo, ou sobre o caráter do código moral religioso preferido – um autoritário, baseado em recompensas e punições, ou um mais liberalizado, que tenda à consciência ético-espiritual.

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