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nov13

Daniela Andrade: Lulu, reclamações dos homens e a desproporção do julgamento entre os sexos
Imagem usada como divulgação do polêmico app Lulu, que deu às mulheres o poder de fazer um pouco do que os homens fazem, e bem pior, com elas

Imagem usada como divulgação do polêmico app Lulu, que deu às mulheres o poder de fazer um pouquinho do que os homens já fazem, e bem pior, com elas

Daniela Andrade, militante pela visibilidade trans e feminista, escreveu o texto abaixo como comentário a esse post, sobre o polêmico app Lulu, usado por mulheres para avaliarem homens – ou seja, para fazer uma fração do que os homens fazem todos os dias com as mulheres nas ruas, nos bares, nas faculdades, no transporte público, em todo lugar.

Deixo claro que o ideal seria não existir nem o assédio dos homens contra as mulheres, nem o app Lulu. Antes de declararmos que o Lulu é um absurdo, que é uma objetificação desnecessária, é necessário dizer que ele é inspirado em nada menos do que o costume dos homens machistas de avaliarem as mulheres e assediá-las nas ruas, inclusive com ameaça de violência física – costume esse que, além de não precisar de um app para acontecer, ainda é bem pior do que tudo o que o Lulu faz. Se esse costume tivesse deixado de existir, dificilmente estaríamos vendo esse aplicativo ser lançado.

 

Lulu, reclamações dos homens e a desproporção do julgamento entre os sexos
por Daniela Andrade

Há uma diferença gritante entre o que o LULU tem causado para alguns homens e o que a vida real tem causado para todas as mulheres.

Mulheres têm levado “cantadas” nojentas, extremamente invasiva do tipo:

“Quero te chupar toda”.
“Êta capô de fusca”.
“Vamos apagar o fogo na minha cama”.
“Com essa roupa é por que está pedindo pica”.
“Tá afim de uma boa foda hoje”.
“Esses peitos estão pedindo uma espanhola”.

seguem agressões diárias que as mulheres sofrem, também conhecidas como cantadas.

QUANTOS homens ouvem esse tipo de coisa vindo de mulheres?

Quantos homens têm tido medo de sair com determinada roupa na rua, quantos homens colocam os pés para sair de casa e resolvem voltar temendo pela própria integridade física, pois a roupa vai ser considerada o MOTIVO para ser estuprado?

Quantos homens têm entrado em trem e ônibus rezando para que nenhuma mulher apareça, que nenhuma mulher cole demais, pois já se cansou de estupros em coletivos. Quantos homens consideram um enorme problema os estupros que seus pares homens sofrem no transporte público?

Quantos homens são diariamente encoxados, quantos homens são apalpados, quantos homens inclusive perceberam estações depois que haviam ejaculado nele? Isso acontece em trens da CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos], por exemplo, com mulheres.

Quantos homens começam a ter taquicardia quando uma mulher entra no transporte público e fica do seu lado, já prevendo o pior?

Quantos homens precisaram descer antes da estação, do ponto que precisava, pois não conseguia mais lidar com uma mulher violentando a individualidade, forçando um contato sexual sem que no entanto ele quisesse; sem ter forças para abrir a boca, com o suor descendo de nervosismo e medo? É muito comum acontecer isso com mulheres.

Quantos homens diariamente reclamam que foram estuprados, que sofreram uma grande violência e foram visto como errado, como malucos, como alguém que está com falta de ir lavar uma pia de louça? Mas isso frequentemente acontece com as mulheres.

Quantos homens têm sido avaliados como o “para foder” e o “para casar”? Quantos homens têm sido avaliados como “muito usados”, então o melhor é não só evitar como fazer a fama dele rodar entre todo o círculo de pessoas da escola, do bairro, da cidade a fim de que ele sofra as mais diversas punições de uma sociedade que rejeita que um homem tenha uma vida sexual ativa e libertária? A vida sexual libertária dos homens, também conhecida como vida sexual masculina, é no caso das mulheres, caso façam uso da mesma liberdade, motivo para serem taxadas constantemente de putas, vadias, galinhas, vacas, cadelas (…)

Quantos homens têm sido tratados como objetos apenas e tão somente para foda, sem direito a tratamento humanitário? Sem direito a ter seus sentimentos respeitados?

Enfim, o aplicativo LULU (colocando mulheres na avaliação e no poder [mixo] sobre homens) que gerou até processo de homem, não faz um milionésimo daquilo que o aplicativo VIDA DIÁRIA traz em prejuízos para as mulheres, sofrendo um estupro a cada 20 segundos, vivendo em um país que é o 7o do mundo que mais mata mulheres vítimas de violência doméstica, vítimas de homens.

Ou seja, com o LULU nenhum homem corre o risco de ser estuprado, assassinado ou ter de mudar de escola, cidade, bairro como acontece quando cai um vídeo com cenas de sexo na internet e a mulher de imediato se torna aquela que deve ser perseguida e linchada pela sociedade; e o homem se transforma no mais novo garanhão da vez.

Homens se preocuparem tanto com o LULU é apenas mais uma das provas da misoginia e do machismo da sociedade, que define que quem tem o direito de ir muito, mas muito além daquilo que o LULU permite são os homens, não as mulheres. Essas devem convenientemente permanecerem passivas no seu papel de avaliadas, demonizadas, criticadas, tendo o corpo e a vida controlados a fim de conseguirem se enquadrar no papel da mulher que o patriarcado aplaude.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernanda

novembro 29 2013 Responder

Acho que o motivo do texto estar comparando o abuso diário que mulheres sofrem com esse aplicativo ridículo, é porque teve muuitas pessoas dizendo “ah, vcs mulheres reclamam de ‘cantadas’ mas participam do Lulu” “as feministas falam tanto de assédio e agora não falam nada sobre o app” e etc. Isso porque tem muita gente que considera “homens” e “mulheres” categorias homogêneas, que vão pensar e agir da mesma forma, quando na verdade, é óbvio que feministas (em sua maioria) não vão achar o lulu uma coisa positiva.

vanessa

novembro 29 2013 Responder

Gente,

“violação aos direitos humanos”.

Are you fucking kidding me??????

Nossa, disseram que fulano não quer compromisso. Caralho! Fulano vai se matar mesmo, né? Afinal esse búli todo contra uzômi é institucional, né?

Eu leio esse tipo de coisa e fico me lembrando de gente como o Silvio Koerich. Gente que faz ABSURDOS e fala em “matriarcado” “sociedade bucetista”. Até alguns dias atrás, eu achava que a sociedade era misógina e machista, mas que havia sim chance. Mas agora vejo que ela é bem burrinha mesmo… É uma sociedade incapaz de pensar mesmo… daí não tem jeito.

Fernando Cônsolo Fontenla

novembro 28 2013 Responder

Dois errados não fazem um certo. O Lulu não deixa de ser uma violação aos direitos humanos só porque existem coisas piores acontecendo.

O que acaba acontecendo é que um homem acaba sendo julgado publicamente por alguém que não deveria ter nenhuma autoridade sobre ele.

Mas, concordo que o Lulu surgiu como consequência do machismo. Diante de tantas experiência horríveis com homens que pareciam, a princípio, respeitadores e charmosos, as mulheres criaram o Lulu como forma de proteção e alerta.

Ana

novembro 28 2013 Responder

Oi, gostaria de deixar minha opinião com todo respeito e sem ser xingada
Sinceramente? Estao misturando as coisas. Uma coisa é estupro e assédio na rua. Claro que isso existe e é infinitamente PIOR do que o Lulu. Porém isso nao tem NADA a ver com o Lulu. Não existe um aplicativo dos quais homens “avaliam” as mulheres. As mulheres que saem peladas em revistas, saem porque QUEREM, ao contrario dos homens que estao sendo OBRIGADOS e se expor e ser objetificados. De resto, uma coisa nao justifica a outra. Um erro nao compensa outro. Ao meu ver, tudo desculpa para lançar o aplicativo. A existência do Lulu não vai inibir os assédios masculinos e muito menos o machismo, muito pelo contrario, isso os incentiva. A maior prova disso, é que lançaram a versão masculina do aplicativo, “Pepeka”, mais uma arma do machismo

    Simon Viegas

    novembro 29 2013 Responder

    Só para constar:
    “Pepeka” nunca existiu… o termo foi inventado por um SITE DE HUMOR!!! (apenas leia a fonte das notícias).

    Att

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