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nov13

Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: a falsa analogia envolvendo peixes e (ir)religião

comreligiao-semreligiao

Essa imagem se soma a tantas outras divulgadas no meio (neo)ateísta antirreligioso no que tange a propagar o preconceito de que religiosos são “prisioneiros mentais” e pessoas sem religião são sempre livres. Para alegar (falaciosamente) que a religião sempre seria uma prisão mental e a irreligião seria essencialmente liberdade, ela usa uma analogia com peixes: o peixe que vive preso num aquário equivaleria ao ser humano “com religião”, enquanto o peixe que vive livre no mar corresponderia ao ser humano “sem religião”.

Assim como diversas outras imagens que fazem a falsa dicotomia maniqueísta “religião = prisão, mal, escravidão, infelicidade; ateísmo/irreligião = liberdade, bem, felicidade”, a figura acima esquece-se de duas coisas:

a) ao contrário do que os antirreligiosos acreditam, religião não tem em sua essência o fanatismo, a renúncia à razão e ao intelecto, o preconceito e intolerância, a escravidão mental, o ímpeto por teocracia. Se essas características fossem essenciais à religião, não veríamos por aí religiões liberais e humanistas, movimentos religiosos sincréticos, eventos ecumênicos, a militância de muitos religiosos pela dignidade humana e pelo respeito a todos os seres, movimentos dentro do próprio cristianismo contra o crescimento das igrejas dos pastores “vendilhões”, entre tantas outras tendências que mostram que muitos religiosos se dedicam a mostrar como religiões podem sim servir para interesses opostos às características desenhadas no estereótipo da “religião” desenhado pelos antirreligiosos;

b) a ausência de religião não protege ninguém de eventuais ideologias aversas ao livre pensamento e ao senso crítico, como o nacionalismo, a exaltação exagerada do livre mercado acima de tudo e de todos, o antropocentrismo opressor do meio ambiente e dos animais não humanos, a aceitação dogmática da História escrita pelos vencedores, o machismo cis-heteronormativo moldador de papéis de gênero estritos, entre tantas outras. Também é necessário afirmar que o próprio antirreligiosismo costuma vir incrustado de dogmas – como as dicotomias maniqueístas preconceituosas “religião ruim, ateísmo bom” ou “religiosos maus, escravos e fanáticos; ateus bons, livres e lúcidos” – que muitos ateus ainda não se sentem dispostos a questionar e, ao invés, preferem continuar acreditando neles cegamente. Não faltam ateus que se recusam a enxergar o mundo além dessas ideologias, a questionar ao que eles próprios pensam;

c) não há motivos para se acreditar que alguém que vive apenas valores seculares e nega intransigentemente o valor de tudo aquilo que venha de religiões seja mais livre do que alguém que se move pela curiosidade e assimila para sua vida filosofias e valores como os ensinados pelas religiões dhármicas orientais, pelas declarações bíblicas de Jesus, pelas religiões centradas na Terra e na Natureza etc. Pelo contrário, agir como um secularista fanático que descarta ao lixo tudo o que as religiões ensinam de bom não é menos aprisionador do que um religioso igualmente fanático acreditar que só existem ensinamentos valorosos dentro de sua igreja e de sua interpretação bíblica.

Em resumo, nem toda vertente religiosa promove escravidão mental e nem todo religioso é “prisioneiro” de suas crenças e de sua igreja, e da mesma forma nem todo irreligioso é isento de ser vítima de prisões mentais.

imagrs

1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Sergio Luiz Sant´Anna

novembro 19 2013 Responder

Esse é o que vale, o outro saiu com muitos erros, esqueci de revisar antes de publicar:

Vamos lá:
A) Na reforma protestante e na derrocada do império muçulmano Lutero afirmou com todas as letras que um bom crente troca a razão pela fé. Al Ghabili afirmou que o bom muçulmano só deve estudar os “fundamentos” da religião, e que qualquer coisa fora disso é “dançar com o demônio”.
Há muitos poucos evangélicos que são humanistas e a maioria dos muçulmanos moderados são achacados pelos fundamentalistas como traidores do Islã. E isso só para ficar nesses dois exemplo;
B)Ignorar o “espírito do tempo” é um hábito que qualquer um que tenha menos de trinta anos faz questão de cultivar. O comunismo ateu não tem nada a ver com o chamado “neo-ateísmo”. Ayn Rand é um bom exemplo de atéia adepta do livre-mercado. Nos regimes comunistas a religião foi abolida porque ela está intimamente ligada com os detentores do poder, transformando a população em “ovelhas” sob pena de virar churrasco no inferno se não atender os desígnios de “Deus” que era representado pelo rei e pelos bispos, quando a igreja era parte do Estado.
Apesar de ter sido uma bandeira inicializada por evangélicos, hoje seus descendentes rasgam a sua história de luta por um estado sem religião oficial e pela liberdade religiosa ao querer uma “sharia cristã” por vias legais prejudicando outras denominações não cristãs ou inclusivas.
A heteronormatividade é incentivada pela maioria das religiões majoritariamente estabelecidas como algo “normal” quando antigamente o homossexualismo era visto como algo natural (especialmente na cultura greco-romana), e bizarramente, alegam que o relacionamento de pessoas do mesmo sexo não é “natural” mas ao mesmo tempo cobram que o devoto abra mão de seus desejos instintivos em troca de um lugar celestial. Então o devoto fica preso por um monte de regras que ele terá que cumprir com esperança de receber a sua recompensa após a morte. Então ele deixa de viver, ou como diz os próprios crentes, eles deixam de “viver no mundo”. Os ateus sabem muito bem que eles não são perfeitos, mas que eles têm liberdade para pensar e o mais importante, de mudar de idéia;
C) Ser cético não quer dizer que “estamos perdendo a experiencia maravilhosa de experimentar a espiritualidade”…
Tem dois tipos de ateus, os não religiosos “ateus fortes” que não sentem NENHUMA necessidade de ter algum tipo de “experiência cósmica ou espiritual” e os “ateus fracos” que costumam ser céticos a certas práticas orientais como o feng shuei por exemplo. Ser cético poupa uma boa grana com pseudociências como a homeopatia, ufologia, e crendices em geral etc…
Sem dogmas para controlar sua vida, o ateu se sente liberto para realizar qualquer coisa, sem que uma entidade de, sei lá de onde vem, diga o que fazer e como proceder sobre as suas menores instâncias de sua vida.
Se você questiona a “suposta” liberdade de um ateu em relação a um religioso, é porque ignora as tentativas de alguns grupos religiosos de tentar impor suas regras e dogmas através de leis e tentando frear a ciência quando algum tipo de pesquisa fere seus dogmas e põe em dúvida a existência de seres imaginários.
Em alguns lugares, MESMO que você não seja condenado à morte por ser ateu, a religião está tão entranhado na vida da população que ela não saberá o que fazer se um dia a sua crença for posta em cheque. Um peixe no aquário não tem noção de que ele é um prisioneiro, da mesma forma que um crente que acredita que ele tem que acreditar em “alguma coisa”. Especialmente quando ela é misturada com a política como no caso do Oriente Médio e da irlanda do Norte.
Lembre que ateus são “antinaturais” por não terem necessidade fisiológica de ter uma religião, já que a nossa biologia evolutiva desenvolveu essa “pegadinha” como uma forma de aliviar a nossa natural ansiedade já que somos os únicos animais sencientes que sabem que um dia iremos morrer.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo