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nov13

Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: “a minoria livre e feliz”

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Atualizado em 11/11/13 às 23h06

A figura acima, compartilhada por algumas fanpages de (neo)ateísmo, transmite uma imagem ilusoriamente glorificada sobre o ateísmo e os ateus e, por outro lado, um estereótipo negativo dos cristãos em geral. Para ela, ateus são geralmente livres e felizes enquanto cristãos são todos escravos de suas crenças e igrejas e são pessoas infelizes.

Quem desenhou e editou a imagem acima nem percebeu que cometeu o mesmíssimo erro dos crentes que têm preconceito contra ateus. O que o indivíduo autor da figura pensa dos cristãos, os religiosos intolerantes pensam da mesma forma sobre os ateus: o preconceituoso seria adepto da crença que “liberta” e “torna feliz”, enquanto os preconceituados seriam atados a uma crença que oprime e deprime a si próprios.

Em outras palavras, da mesma forma que o ateu acima chama cristãos em geral de infelizes prisioneiros psicológicos de igrejas, milhões de cristãos preconceituosos acreditam – e manifestam verbalmente tal crença – que os ateus vivem aprisionados no materialismo (no sentido de estilo de vida que, alegadamente carente de espiritualidade, apega o sentido da vida do ser humano a bens materiais) e infelizes na ausência de um Deus que dê um sentido transcendental a suas vidas.

Não faltam por aí religiosos que, mesmo endoculturados numa vida quase completamente atrelada à sua igreja, se dizem mais livres e felizes do que qualquer outro ser humano, mesmo em comparação a cristãos de outras denominações. Afirmam que Deus é libertador e um ser fundamental para a felicidade humana, mesmo quando seus sacerdotes os atrelam a um código de conduta muito estrito e fechado ao diálogo com outras crenças.

E pelo que a imagem acima mostra, muitos ateus – não todos, obviamente – se dizem, da mesma forma, mais livres e felizes do que todos os religiosos do planeta. E isso se dá ao mesmo tempo em que essas mesmas pessoas se apegam fanaticamente às ciências naturais como provedoras infalíveis de certezas metafísicas – com muitos tratando-as inclusive praticamente como uma religião não teísta -, a prazeres prejudiciais como o consumo de carne, ao consumismo como estilo de vida e à ilusão meritocrata de serem materialmente ricos um dia.

E também, tal como os religiosos fanáticos se fecham a conhecer outras crenças, os ateus fanáticos em questão interditam-se ao conhecimento sobre as inúmeras formas de espiritualidade existentes, mesmo as seculares ou aquelas vindas de religiões como as denominações sincréticas, o budismo, os neopaganismos e o taoísmo, e, em sua visão maniqueísta do cristianismo como uma “religião maligna”, se recusam a enxergar dentro do universo espaço-temporal de diferentes igrejas a existência de cristãos defensores incondicionais das liberdades sociopolíticas, dos Direitos Humanos, do respeito às diferenças, do predomínio da razão sobre o dogmatismo, da compaixão e respeito para com todos os seres que os merecem, do Estado laico (ou da ausência de um Estado que eventualmente tente controlar a religiosidade de seus governados) etc.

E isso sem falar no fato de que muitos desses ateus em questão dizem ter abandonado a religiosidade dogmática, mas na verdade não abandonaram os viciosos valores morais remanescentes dela, como o machismo/patriarcado, a homofobia, a transfobia, o especismo, o etnocentrismo, a veneração de suas próprias crenças como absolutas e inquestionáveis, a recusa de evoluir no sentido de se tornar a cada dia uma pessoa melhor, o apego a determinadas crenças políticas etc.

Convenhamos que é muito difícil concluir que ateus que seguem, sem senso crítico, essa vida de dogmatismo secular são livres e felizes. E ao mesmo tempo que há ateus assim, existem milhões de cristãos cujo atributo religioso não faz deles prisioneiros mentais de suas igrejas. Dizer que todas as milhares de denominações cristãs existentes promovem a mesma coerção moral mão de ferro e ultraconservadora é ignorar a existência das correntes cristãs moralmente liberais e humanistas que defendem a liberdade e a ética nas comunidades cristãs, e também legitimar os fundamentalistas teocratas como verdadeiros representantes da cristandade.

Além disso, tal postura preconceituosa e generalizante também coloca no mesmo saco, por exemplo, Dom Helder Câmara, Silas Malafaia, um aderente moderado da Igreja Cristã Contemporânea, um anônimo fanático de uma igreja pentecostal, Martin Luther King Jr. e o terrorista Anders Breivik, colocando-os todos indistintamente como tristes escravos de clérigos fundamentalistas opressores.

Fica então a lição de evitar endeusar o ateísmo como algo inerentemente do bem e libertador e, ao mesmo tempo, tratar as religiões em geral como malignas prisões mentais que fazem pessoas crescerem e morrerem infelizes. O devido pensamento crítico sobre o que se vê por aí vai mostrar que essa falsa dicotomia maniqueísta não faz sentido, ou seja, nem sempre o ateísmo isoladamente torna alguém mentalmente livre e feliz e as religiões aprisionam psicologicamente as pessoas.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fernanda

novembro 12 2013 Responder

Vamos combinar que é muita arrogância dizer “Eu vivo assim então quem pensa de maneira diferente é infeliz” de qualquer que seja o ~lado~.

Bruno Gonçalves

novembro 11 2013 Responder

Robson,concordo com quase tudo com que você disse,mas permita-me discordar do termo “ateu fundamentalista”,pois o significado do termo fundamentalismo de acordo com sites de pesquisa(vou me focar no Wikipédia)refere-se a interpretações fechadas de crenças religiosas,inviabilizando criticas liberais as mesmas.
(http://www.dicio.com.br/fundamentalismo/)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Fundamentalismo)

    Robson Fernando de Souza

    novembro 11 2013 Responder

    Valeu, vou ajeitar a palavra.

Sergio Luiz Sant´Anna

novembro 11 2013 Responder

Deixe-me ver se entendi:
Se eu li um livro de Ayn Rand e concordo com as idéias dela sou então um ateu infeliz. É isso?

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