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Desmentindo imagens antirreligiosas preconceituosas: “Ideias (crenças religiosas) não merecem respeito”

merecem-respeito

O lema da imagem acima, “Pessoas merecem respeito, ideias não”, é muito repetido por antiteístas que reivindicam o direito de não só criticar as religiões e considerá-las “contos de fadas”, mas também de zombar delas, tratar a fé alheia como lixo e assim ofender a sensibilidade religiosa de outras pessoas. A frase é problemática por não revelar que conceito de “respeito” ela usa e dar margem, inclusive para os próprios autores da frase, a desrespeitar indiretamente os religiosos.

O termo “respeito” tem múltiplos sentidos possíveis, inclusive de acordo com os dicionários. Quanto ao “respeito” mencionado pela sentença, não fica claro se significa “direito de não ser ofendido e vilipendiado”, “direito de não ser criticado a ponto de ter o prestígio esvaziado” ou uma combinação de ambos os significados. Com isso, a frase inspira tanto os neoateus respeitosos, que se restringem a criticar e desprestigiar de forma racional e equilibrada as religiões em seus dogmas, crenças, mitos e valores, como aos antiteístas que se veem no direito de considerá-las em geral, desde suas correntes moderadas e saudáveis até suas vertentes fundamentalistas e destruidoras, puro lixo a ser pisoteado, amassado e jogado em lixeiras.

Está em seu direito quem critica religiões como o cristianismo e o islamismo, apontando-lhes contradições internas, incompatibilidades com a realidade, inverossimilhanças de suas narrativas mitológicas, ditames morais hoje imorais que constem nos livros sagrados ou na tradição, crenças específicas que inspirem credocentrismo (centralização de toda a verdade do universo na religião que a pessoa segue e invalidação de tudo o que outras crenças religiosas pregam), a prática de sacrifícios contra seres sencientes, o respeito incondicional a quem não professa da mesma fé etc.

Esse tipo de crítica não só é válido como também é essencial na mudança cultural interna às religiões, forçando-as a mudarem sua moral a algo cada vez mais interseccionado com a ética – que é basicamente o que vem acontecendo nas sociedades de passado cristão desde pelo menos a Reforma Protestante. É algo necessário para humanizar as crenças e valores morais religiosos, tornando-os simpáticos à libertação humana, ao respeito a todos os seres que merecem respeito, à oposição manifesta ao uso da religião como meio de controle e escravização mental, ao uso integral da razão pelo ser humano, à igualdade entre todos os seres humanos – e também entre todos os seres sencientes – etc.

Nesse sentido, que coloca o termo “respeito” como blindagem a críticas fortes e desconstrutoras, é que convém afirmar que ideias em si não precisam ser respeitadas e incluir as crenças religiosas entre elas. Mas vale frisar que isso não equivale a dizer que as divindades dessas religiões podem ser desrespeitadas. É esse, aliás, o grande erro dos antiteístas que usam a mencionada frase para extravasar sua intolerância contra religiões em geral – tratar divindades ou humanos míticos veneráveis, vistos como seres concretos, ainda que imateriais, pelos religiosos, como se fossem tão “ideias” ou abstrações quanto um dogma ou uma norma elencada no Velho Testamento cristão.

Os antiteístas que vivem publicando imagens de escárnio contra Jesus, Deus, Mohammed, Maria e outros personagens das narrativas religiosas, por se mostrarem antropologicamente ignorantes, não compreendem que os religiosos os tratam e os estimam como tão reais, concretos e íntimos quanto as pessoas de sua família. Ao se falar impropérios nada racionais sobre Deus, desenhar charges ofensivas de Mohammed e satirizar maliciosamente Jesus, é como se estivessem ofendendo a mãe, o irmão, o cônjuge ou os filhos da pessoa religiosa. É, em outras palavras, desrespeitar e ofender os religiosos, tal como alguém se sente ofendido ao ser chamado de “filho da p…”.

E até para o próprio ponto de vista dos ateus humanistas, fazer imagens estabelecendo uma divisão maniqueísta maliciosa dos seres humanos entre “religiosos maus, fanáticos e irracionais” e “ateus bons, lúcidos e racionais”, dizer que religiões são algo “99% maligno”, generalizar a todas as religiões e subdivisões religiosas existentes as insanidades típicas do fundamentalismo religioso, chamar a religião em geral de “a raiz de todo o mal” e colocar o ateísmo e a irreligião como a salvação da humanidade passam muito longe de serem críticas honestas, racionais e éticas às religiões. E também são um claro desrespeito não só às ideias trazidas pelas religiões, mas também aos próprios religiosos.

Os neoateus e antiteístas precisam deixar claro qual é a concepção de “respeito” que usam quando afirmam que “pessoas merecem respeito, ideias não”. Sem essa clareza, as portas do inferno da intolerância religiosa mútua permanecerão escancaradamente abertas, os ateus continuarão perdendo sua credibilidade de defender o fim do preconceito contra eles e a cultura de respeito às diferenças será cada vez mais apenas uma utopia distante.

Mas deve-se deixar claro que alguns grupos de neoateus antiteístas, como o que fez a imagem acima, já decidiu qual o sentido da frase em questão: o ato de “não respeitar” ideias como as religiões implicaria zombar das religiões, literalmente tratá-las como lixo e assim desrespeitar frontalmente a fé das pessoas, injetando a frase com uma grave contradição, uma vez que, ao mesmo tempo que se prega o respeito às pessoas, promove-se o desrespeito à fé delas – e isso implica, queiram os antiteístas ou não, desrespeito às próprias pessoas.

Com isso, fica a necessidade de que os bons neoateus (os que não promovem violência contra símbolos religiosos e apenas criticam racionalmente as religiões naquilo que é passível de ser criticado) e os ateus humanistas se posicionem contra aqueles que, sob o pretexto de que “ideias não merecem respeito”, promovem blasfêmias nada racionais e inteligentes magoando adjacentemente as pessoas que são aderentes das “ideias” chamadas religiões. Deve-se evitar que o “desrespeito de ideias” continue saindo do campo filosófico e humanístico e desaguando nas desnecessárias baixarias que vemos em imagens compartilhadas por certas páginas do Facebook.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

mariana fuzaro

janeiro 12 2014 Responder

O problema é que, no cristianismo,por exemplo, simplesmente não ser cristão já constitui um desrespeito a Deus, uma afronta á divindade. Então suas afirmações ficam complicadas. cristãos ás vezes usam isso como pretexto para justificar uma teocracia totalitária.

Mat

janeiro 1 2014 Responder

“Respeito” é uma palavra interessante. Quando uma pessoa se declara abertamente ateísta, mesmo que sem rivalidade nenhuma contra deus e contra a fé, encontra o ódio dos fanáticos, o medo das pessoas comuns e um preconceito sem igual. É natural que se torne antiteísta. Afinal, como pode a religião exigir “respeito” se é um combustível mundial para a desunião entre os homens? Como pode ela sequer intitular-se algo “bom” para a humanidade, se os produtos que gera são de violência?

Evidio Zimmer

novembro 18 2013 Responder

Eu li o texto e concordo com o respeito, acho que temos que explicar e questionar sem agredir, mas existe um detalhe que as pessoas esquecem. Elas nao percebem que uma coisa é ter fé, outra é ter crenças. Eu sou ateu, mas tenho muito fé, nao num ser superior, mas em mim mesmo e nos outros, no conhecimento, na amizade, etc. Fé é uma energia produzida pela mente. Crer em deus é acreditar que existe um criador, aí é diferente. Eu tenho fé, só nao tenho crença.

Sergio Luiz Sant´Anna

novembro 11 2013 Responder

Ótimo. Agora tenho que respeitar as idéias de Silas Malafaia e Marco Feliciano por serem baseadas em suas interpretações da bíblia. Tenho que respeitar também os militantes islâmicos que se explodem também porque eles estão em uma guerra santa e isso não é passível de crítica, afinal, isso está escrito no alcorão.
E pelo visto você deve achar que o processo que o Datena recebeu da ATEA foi um exagero. E agora tenho que apagar qualquer coisa que eu tenha publicado em meu facebook por ofender os meus amigos religiosos. Que maravilha. Um retrocesso de 200 anos na liberdade de expressão, já que é isso que os religiosos querem: calar os ateus.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 11 2013 Responder

    Você realmente leu e entendeu o post?

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